Matteo sentiu o medo voltar a agitar-se dentro dele. Não queria se divorciar de Gálata, muito menos perder sua família, pois não conseguia imaginar a vida sem eles. No entanto, as palavras de sua esposa foram contundentes; sua expressão era fria, sem o menor traço de sentimento, como se nada a magoasse ou importasse. Ela parecia indiferente.
— O que você está dizendo, meu amor? Eu não quero me divorciar. Gálata, nós temos uma família! Por que você vem com essas ideias absurdas? Alguém colocou isso na sua cabeça? Você não pode estar falando sério! — perguntou ele, tentando se aproximar, com uma expressão de confusão, mas Gálata estendeu a mão para impedi-lo de se aproximar, mantendo-o à distância.
— Nunca falei tão sério em toda minha vida. Que parte das minhas palavras você não entende? — perguntou em tom áspero. — Isso não é uma ideia absurda, é uma decisão bem pensada, tomada e irrevogável.
— Muitas coisas aconteceram que me fizeram abrir os olhos para a verdade. Sim, porque eu sempre pressenti, embora tenha negado a mim mesma milhões de vezes. Deixei muita coisa para você, Matteo. Renunciei a viver minha vida para me dedicar a você. Anulei minha própria vida, meus desejos, meus sonhos e até meus sentimentos por mais de sete anos. Não posso continuar vivendo assim, porque devo isso a mim mesma. Estou em dívida comigo mesma! Eu te dei tudo! — declarou com furor.
— Gálata, eu nunca te pedi para ficar em casa, nem para que sua vida girasse em torno de mim. Essa foi sua escolha. Você não pode me culpar por suas próprias decisões. Você está sendo muito injusta comigo. Se você quer estudar, trabalhar, viajar, fazer o que quiser, você pode! Não tenho problema com isso... você tem todo o direito de fazer o que desejar. Não sou seu dono para te obrigar a agir de uma maneira ou outra — respondeu ele seriamente. — No entanto, terminar nosso relacionamento por isso, eu não concordo.
— Não seja hipócrita, Matteo! — exclamou a mulher, sem esconder sua indignação. — Por que quer me manter ao seu lado, quando é claro que você ainda ama sua ex-namorada? — perguntou, confirmando com dor como o rosto de Matteo empalidecia.
No entanto, em vez de negar essa afirmação categoricamente, Matteo respondeu com outra pergunta:
— Você escutou minha conversa com Leandro no escritório?
— Sim, eu ouvi. Por isso te pergunto, Matteo: por que você se casou comigo? Foi sem amor? — questionou ela, atenta à resposta, que não veio, o que aumentou sua frustração. — Dizem que quem cala consente. Você se casou por despeito, não foi?
O gesto frio e impassível de Matteo finalmente a tirou do sério.
— Maldito seja! Você não pode responder com um simples sim ou não? Responda! — exclamou, exasperada, batendo no peito dele.
— Sim, no começo eu me casei para esquecer Helena. Eu estava magoado e vi em você a mulher ideal para me fazer esquecê-la — confessou, envergonhado, evitando olhar para a esposa.
— Alguma vez você me amou, Matteo? — voltou a perguntar, mas só recebeu silêncio como resposta.
— Sua falta de resposta às minhas perguntas é uma clara aceitação dos fatos... embora, pensando bem, eu não preciso da sua resposta. Já tenho o que preciso saber. Está tudo muito claro — falou com um tom irônico, mais direcionado a si mesma.
Ela observou como o rosto dele empalidecia ainda mais com cada imagem visualizada e com o vídeo.
— Gálata, eu juro pela vida do nosso filho, não é o que parece. Deixe-me explicar, eu não dormi com Helena, pelo menos não do jeito que o vídeo mostra — afirmou, tentando se aproximar.
— Matteo, por favor! Você acha que sou i****a? Essas imagens e esse vídeo não precisam de explicação, estão muito claros.
— Você vai negar que o homem nesse vídeo é você? Até onde sei, você não tem um irmão gêmeo para colocar a culpa em suas ações, tem? — acrescentou sarcasticamente. — Ou vai dizer que é uma montagem? Pelo menos seja honesto comigo. Eu mereço isso.
— Eu nunca menti para você, Gálata, jamais. Esse homem nas imagens e no vídeo sou eu, mas tudo foi tirado de contexto. Eu estava lá, sim, porque Helena me ligou. Ela me pediu para ir encontrá-la para esclarecer algumas coisas do passado. Havia muitas coisas para serem ditas, confissões. Era um capítulo que precisava ser encerrado — respondeu ele com sinceridade, entregando o celular.
— Que maneira de encerrar as coisas, se beijando e deitando com ela. Me diga, Matteo, o que você sentiu ao beijá-la? Quando fez amor comigo, você pensou nela? — mais uma vez, o sangue deixou o rosto de Matteo. — Não seja covarde!
Gálata o repreendeu, aproximando-se perigosamente.
— Jura pela vida do seu filho que você não sente nada por Helena. Você me ama? Você me amou mais do que a Helena? — perguntou, no fundo querendo ouvir suas palavras de amor, que a fariam desistir de sua decisão.
Talvez fosse uma tola, mas para seu infortúnio, o amor não podia ser desligado com um interruptor, ou apagado como quando se corrige um texto escrito errado. Muitas vezes, ele nem mesmo podia ser controlado.
Ele permaneceu em silêncio, pensativo, tentando entender seus próprios sentimentos, pois tudo dentro dele era confuso. Ele tinha medo e não se atrevia a afirmar ou negar nada, muito menos jurar pelo filho.
— Não me peça para jurar por Xavier, nem por você, nem pelo nosso filho. Você quer sinceridade? Eu te darei. Helena não me é indiferente, mas você também não. Estou apaixonado pelas duas — declarou, com uma expressão de evidente confusão.
— Isso é tão descarado da sua parte! — exclamou, rindo de maneira forçada. — Não se preocupe, Matteo. Eu vou te ajudar a se decidir e a dissipar essa confusão mental. Estou saindo desta casa. Fique com ela. Espero que seja feliz com o amor da sua juventude. Eu nunca deveria ter me envolvido com você.
— Eu fui uma garota, ingênua, crédula. Pensei que poderia mudar seus sentimentos, e veja onde estou. Quase oito anos tentando fazer isso, e você nem mesmo consegue confessar seu amor por mim — disse ela, com uma voz neutra, aparentemente tranquila, mas, como dizem, a procissão caminhava por dentro. Ela estava destruída, em pedaços, reduzida a pó. No entanto, não mostraria isso. O momento de lamber suas feridas viria depois.
Com isso, ela foi para o quarto. Enquanto tirava a mala, ele a segurou pelo braço.
— Você não pode ir! Eu não fiz nada com ela. Eu não te traí, Gálata. Eu seria incapaz disso — afirmou em sua defesa, mas a mulher parecia firme em sua decisão, e sua armadura não mostrava sinais de fraqueza.
— Não é só com o corpo que se trai, Matteo. Mesmo que você não tenha tido contato físico com Helena, ela está na sua mente. À primeira ligação, você corre atrás dela, sem se importar que acabou de fazer amor comigo — Matteo sentiu o golpe no peito.
— Não foi só sexo, Gálata. Foi algo tão real — respondeu, ferido por ela ver aquele momento como algo tão casual e sem importância.
— Não se ofenda, mas também não queira me fazer acreditar que foi algo tão importante, porque se fosse, você não teria corrido atrás dela. Como você acha que eu me senti como mulher, quando você me deixou para estar com outra?
— Não foi apenas doloroso, foi humilhante. Me fez sentir insignificante. Matteo, com ela, você demonstrou humanidade, mas comigo, você nunca me deu calor. Um maldito iceberg é mais caloroso que você! — esbravejou, sem mais esconder sua raiva.
— Quando você fez algo especial para mim? Tudo estava devidamente programado, até os dias de sexo você estabeleceu com antecedência, como se fosse um horário de aula. Eu cansei de viver com um robô e de ser um! Neguei meus sentimentos por muito tempo para te satisfazer. E de que me serviu? Você saiu correndo para me trair com sua ex assim que soube que ela estava de volta.
— Não é assim, Gálata! Por favor, me escute — implorou ele, mas ela ignorou seu tom.
— Eu mereço muito mais do que isso. Aqui — exclamou, passando o dedo pelo braço — corre sangue quente, uma mistura italiana e mexicana. Me tornei o Ártico. Eu não sou assim! Me recuso a continuar vivendo dessa maneira. Eu sou uma Ferrari Estrada, e hoje decidi começar a viver a vida que neguei a mim mesma. Vou viver plenamente, vou me permitir estar com quem eu quiser.
— Por você, suportei tantas coisas, a ponto de você acabar com minha paciência. Não mais! Vá e fique com Helena. Ela é a única que pode te aquecer. Quanto a mim, é hora
de corrigir o erro que cometi há quase oito anos — disse, caminhando de volta para a sala, seguida de perto por ele.
— Ah, e vou mandar buscar minhas roupas e as de Xavier depois, porque já não suporto sua presença. Já decidi tirar todos os meus sentimentos por você de dentro de mim.
— Vou mandar meu advogado para tratar do divórcio. Não quero nenhum dos seus bens, nada disso me importa. E você poderá ver seus filhos quando quiser. Quanto ao resto, tudo já foi dito. Adeus, Matteo! Seja feliz com o amor da sua vida!
Matteo parecia em transe, sem saber como reagir. Não conseguia parar de pensar nas palavras de Gálata. Realmente foi assim, como ela descreveu? Ele viu ela se afastando e correu atrás dela.
— Gálata, não faça isso, meu amor. Vamos conversar, por favor. Podemos resolver tudo. Deixe-me provar que posso ser o homem dos seus sonhos — falou com veemência.
— Não, Matteo. O tempo já passou. Agora é tarde demais. Não há mais volta — disse, pegando as chaves do carro e saindo, sem olhar para trás.
Matteo sentou-se no sofá da sala com as mãos na cabeça, pensando em como tudo havia se tornado esse desastre em menos de quarenta e oito horas.
*****
Gálata saiu da garagem da casa, mas depois de dirigir alguns quilômetros, estacionou na beira da estrada e começou a chorar. Por mais forte que quisesse parecer, a dor estava ali, lacerante, c***l, a ponto de dificultar sua respiração.
Ela bateu violentamente no volante várias vezes, sem conseguir controlar as lágrimas. O celular começou a tocar, e ao olhar para a tela, viu que era seu pai. Por um momento, pensou em ignorar a chamada, mas ele seria capaz de mandar um contingente e helicópteros para procurá-la.
Ela respirou fundo, limpou as lágrimas e atendeu a ligação, sem falar nada, pois ele se adiantou.
— Gálata, estamos na casa de Ângello e Martina. Estou preocupado com o que estou vendo. O que está acontecendo? Por que você deixou seu filho aqui e onde você está? Você nunca faria isso, a menos que algo estivesse acontecendo. Vai me contar ou eu vou descobrir por mim mesmo? — disse seu pai com um tom firme, que indicava que ele não estava brincando.
Era hora da verdade. Mostrar aos outros que o casamento perfeito não existia. Na verdade, nunca existiu, e isso era muito difícil de aceitar, especialmente quando você sempre mostrou ao mundo que seu casamento era impecável. As máscaras estavam prestes a cair.