Encontro inusitado
Entrego mais uma cerveja para a mesa 7, aquela já devia ser a quarta, mas não poderia reclamar, uma vez que o homem sentado lá era o único do bar.
Trabalhar como garçonete em um barzinho de esquina nunca foi um objetivo profissional, entretanto, quando o desespero me tomou e as contas apertaram, se tornou a minha única opção.
A noite está especialmente chuvosa, com a luz dos raios e o barulho dos trovões me assustando as vezes. O seu Edilson é o único cliente, não que o bar seja impopular, mas a maior parte das pessoas tem mais o que fazer do que observar a chuva cair enquanto enche a cara em plena terça-feira.
–Muito obrigado, lilyzinha, você é a pessoa mais amável que eu já conheci antes– Ele pronuncia as palavras com dificuldade quando entrego a quinta cerveja da noite. Talvez ele esteja um pouco bêbado.
Já devia passar da meia noite, meus olhos pesavam no balcão e minha cabeça pendia cada vez mais para baixo,
Quando já estava quase cedendo ao sono, um barulho alto vindo dos fundos me desperta. Olho para o Seu Edilson, ele ainda está bebendo da sua latinha de Skol e observando a chuva, como se nada tivesse acontecido.
Será que estou ficando louca? Ou ele está tão bêbado que não ouviu o barulho? Em meio à dúvidas pegou a vassoura encostada no canto da parede e vou em direção aos fundos e encontro a porta aberta, assustada, penso em todas as possibilidades possíveis.
E se fosse um assaltante? ou um fantasma? Talvez fosse um fantasma assaltante!
Eu gelo com a ideia de ser alguém para roubar o pouco dinheiro no caixa bancário, por que justo no meu turno Deus, por que!?
Analiso o ambiente, não parece ter nada faltando, relaxo um pouco, com a minha cabeça de vento devo ter esquecido a porta destrancada e o vento abriu ela. É, deve ser isso.
Me viro para voltar ao balcão e reparo em algo, uma caixa. Uma grande caixa que não deveria estar alí, mas está.
Minhas paranóias voltam com tudo, o assaltante se escondeu alí, só pode ser isso.
Pensando antes no meu emprego que na minha segurança me preparo para uma atitude drástica, tudo que penso é na conta de água que chegou ontem, e que precisa ser paga.
Silenciosamente me aproximo da caixa e em um golpe certeiro dou três pauladas nela, me afastando ao ouvir gritos de dor. Corro para o outro lado da sala, já esperando um cara armado vindo me matar, mas não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, de dentro da caixa saiu...
Uma criança??
Um menininho com um macacão jeans e uma mochilinha de bichinho sai da caixa reclamando de dor, um filete de sangue saindo de seu nariz. Imediatamente largo a vassoura e vou socorrer o menino, eu bati numa criança, e se os pais dele me mandarem pra cadeia?
Aparentemente ele tava bem, nem chorou nem nada.
–Sua louca! Porque você me bateu?
–Eu que pergunto menino! Onde estão seus pais? Onde já se viu uma criança invadir um estabelecimento no meio da madrugada!
–Criança não! E já tenho 7 anos, sou um homem. E meu nome é Benjamin pra sua informação.
Franzo o cenho, o menino continuou tagarelando sobre como ele era um homem enquanto eu arrastava ele para o balcão e pegava um papel pra parar o sangramento.
–Já chega! Vou ligar para a polícia. – digo decidida, os pais dele devem estar preocupados.
–E vai dizer o que, que eu inocentemente vim pedir um copo d'água e você me deu vassouradas? – ele responde com a língua afiada.
Que tipo de educação estão dando para as crianças hoje em dia? Argh, se eu falasse assim quando criança nem estaria aqui para contar história.
Bufo já sem paciência, céus, eu odeio crianças!
–Tem algo de útil na sua mochila? Deixe me ver.
Ele apenas entregou, talvez meu tom de voz tenha o assustado.
Que situação... Não posso ligar para a polícia, como vou explicar ter batido nele? Ao mesmo tempo ele ignora todas as perguntas sobre seus pais.
Inicialmente, imaginei que fosse uma criança de rua, ou um menino órfão, mas ele está muito limpo e bem vestido para estar na rua ou em um orfanato.
Vasculho a pequena mochila, aparentemente nada que possa ajudar, meio pacote de um biscoito, uma garrafa de água vazia, uma pelúcia... Tem algo escrito na parte de baixo da alça, um número de telefone.
Finalmente!
Pego meu celular no bolso do meu avental e disco o número, enquanto espero alguém atender percebo que o Seu Edilson está me olhando, não me importo muito.
As pessoas costumam achar que ele é um velho rabugento e bêbado, estão certas, mas no fundo ele tem um bom coração.
Ninguém atende, ligo de novo e nada. Suspiro, o que vou fazer agora?
–Ei, deve estar com fome né? No momento eu não tenho nada aqui além de cerveja, cachaça e pinga, acredito que não seja muito apropriado te oferecer isso. – rio com minha própria piada, ele não esboça em um sorriso.
Sua expressão continua séria, acho que agora ele se deu conta da situação.
–Você tem duas opções. Ou me leva para a sua casa onde eu te entregarei são e salvo para seus pais– Se ele veio certamente deve saber voltar– Ou vem comigo para a minha casa, dorme lá por hoje e amanhã volta acompanhado pela polícia. Você tem 20 minutos para pensar antes de eu fechar o bar, fique sentado e não faça bagunça, caso contrário te levo para a delegacia imediatamente.
Ele obedece calado. Sei que meu método não é o mais adequado, mas funciona. Além disso não sou a mãe dele, não é minha função educá-lo.
O processo de tirar o Seu Edilson do bar é lento, ele está tão bêbado que mal consegue se manter em pé. Ele não é um bebê de qualquer forma, lhe sirvo um copo d'água e jogo ele na rua. Pode parecer cruel, mas acredite em mim, só assim dá certo, já tentei outros métodos menos "agressivos".
Quando o meu turno acabou, o pirralho me encarava com seus grandes olhos verdes.
–E então, qual foi a sua escolha?– pergunto desejando que esse dia acabe o mais rápido possível.
–Não tenho motivos para ter medo da polícia– ele responde– e você não vai me fazer mal nenhum.
Ele estava certo, eu nunca machucaria uma criança indefesa.
–Como tem tanta certeza disso?– Falo em tom ameaçador, ainda na esperança dele mudar de ideia e voltar para sua casa.
–Meu pai é uma pessoa muito influente. Posso te perdoar por me bater mais cedo, mas se encostar um dedo em mim garanto que seu futuro será longos anos atrás de uma grade.
Ele ri. Céus! onde essa criança aprendeu a agir como um agiota psicopata?
Eu nunca machucaria ele, óbvio, mas a ideia de acabar num tribunal me deixa arrepiada. Eu não tenho dinheiro para pagar um advogado.
Suspiro.
–Muito bem, pirralho, você ganhou! Venha, pode passar a noite no meu apartamento, amanhã de manhã decido o que fazer com você.