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Eu me sentei em uma rocha perto de onde a gente costumava ficar. Meu coração estava acelerado, como uma adolescente comum. Era pra gente ter se encontrado ali naquele dia...
Os gritos de Mike entraram novamente em minhas lembranças e o choro começou a subir minha garganta. Eu não ia me segurar. Eu tinha ali por que eu sabia que podia extravasar.
Richard! - gritei o mais alto que pude. - Richard Fire! - meu estômago revirava toda vez que pensava nele como estando morto. Não podia ser, não é mesmo? Talvez, só talvez... eles tenham me enganado, pra eu me sentir m*l! É, sim, com certeza.
Eu era vista como uma menina frágil e sentimental. Uma menina que ligava para o que os outros pensavam, uma menina superficial, apenas da aparência peculiar. Era vista como a menina que se faz de durona e chora no travesseiro à noite e no dia seguinte dá qualquer desculpa para não aparecer. As pessoas deviam me enxergar deste jeito. Mas não era assim que eu me sentia...
Eu te amo, Z. - sua voz no dia que ele se declarou veio tão alta e clara que era como se ele pudesse estar ali comigo. Eu enxuguei minhas lágrimas um pouco e suspirei.
Eu também te amo, Ricky. Só não podia te deixar saber. Agora... é apenas... tarde demais.
Meu peito se comprimia com uma lembrança de seu sorriso e de seus olhos sempre brilhantes e confiantes. Pra ele nunca existia dia r**m, era sempre uma paz ao seu lado... como os dias se tornaram tão sombrios?
Eu observava os detalhes da antiga construção, que um dia havia sido um imenso comercio, que eu mesmo teria dado um fim. A estrutura era todo trabalhada em mármore polido e se quebrou provavelmente por conta de suas hastes de sustentação terem sido fritadas no ato de meu nascimento, já que os prédios estavam pendendo para os lados, como se alguém ou algo os tivesse lhe dado um imenso e violento empurrão. Meus soluços ecoavam por todo o lugar, eu agradecia por terem decretado o lugar como amaldiçoado, pois isso lhe concedia certa exclusividade. Um farfalhar de pedras sendo remexidas me chamou a atenção e eu rapidamente me levantei, preocupada.
Olá? - perguntei. Nada, apenas o ruído do vento que chicoteava minha face.
Eu suspirei e me apoiei de volta aos meus cotovelos na plataforma em que eu estava apoiada enquanto me lamentava.
Vejo que gosta de ficar aqui, senhorita. - um arrepio me acertou em cheio quando eu ouvi aquela voz.
Era uma voz metálica e cheia de prazer em estar me pegando no flagra. Eu me demorei para olhar, o medo me fazia tremer. A pessoa começou a se aproximar e parou bem diante de mim, eu fechei meus olhos fortemente.
Não precisa temer. Não represento perigo algum.
Quem é você?
Se não cobrisse seus olhos, talvez você pudesse descobrir. - a pessoa dei uma risada, como se realmente me achasse muito engraçada. - Não tenha medo.
Eu reuni o máximo de coragem que ainda me sobrava e, de vagar, abri meus relutantes olhos negros. De início eu não vi ninguém, mas logo a visão de algo proibido me veio à mente. Uma menina, de cabelos e olhos brancos como a neve, me encarava com um largo sorriso.
Você é uma... você é uma...
Intothi, eu sei. Eu também sei que eu não deveria me aproximar de uma contothi sem ser na área comercial, mas... aqui não se qualifica à isso?
Aqui é uma área amaldiçoada.
Assim como eu e você. Me chamo Khali. E você?
Zahra.
É um prazer conhecê-la. - ela se demorou ao me observar e me lançar um novo sorriso. - Lá na nossa vila ficamos pensando se você seria real mesmo ou não, já que apenas os adultos podem ir ao comércio. Quando disseram que havia alguém... diferente, muitos não acreditaram.
Sim, eu existo, obrigada pela confiança.
Você é um tanto sentimental, não é?
Não... é só que... eu perdi alguém importante.
Entendo... por isso passou a vir sozinha e chorar...
Você já me viu aqui outras vezes?
Sim, você e o menino ruivo. Desculpe. Eu não tive a intenção de bisbilhotar...
Tudo bem! Não é como se estivéssemos fazendo algo de muito legal também.
Você gostava dele?
Sim, ele era o meu melhor amigo.
Oh... melhor amigo...
E você? O que faz aqui?
É o mais longe da minha vila que consigo chegar sem Kora dar falta. Lá é muito...
Confinante. - completei.
Exatamente! Me sinto sempre tão presa...
Eu ri quando compartilhamos do mesmo sentimento e ela fez menção à sentar-se ao meu lado. Eu dei espaço e assenti, eu me sentia extasiada de encontrar alguém que gostasse de quebrar regras tanto quanto eu e Ricky. Nós ficamos jogando conversa fora por mais algumas poucas horas antes deu me levantar e dizer que já estava indo embora. A noite estava fria e nenhuma de nós havia trazido casacos.
Boa noite, Khali, foi bom conhecer um novo rosto.
Eu digo o mesmo!
Nos despedimos e cada uma foi para uma direção diferente. Eu voltava um pouco mais leve e talvez um pouco mais confiante. Khali era alguém que se formasse uma aliança forte, poderia ser a aliada que eu precisava para tirar o nosso povo de dentro das muralhas. Seria uma missão impossível, como eu gostava de falar, mas o que com um pouco de coragem não pode ser feito?
No meio do caminho algumas cinzas começaram a cair dos céus. Eu achei extremamente estranho e o cheiro de madeira queimada ficava cada vez mais forte quanto mais eu me aproximava de minha casa. O terror tomou toda a minha euforia e meu coração já disparava para fora do peito quando eu cheguei na minha rua e visualizei uma ponta do inferno.
A minha casa estava engolida em chamas.
Kobe... papai...
Eu já chegava cambaleante perto da minha casa quando eu notei meu irmão se tremendo todo e enrolado em um cobertor enquanto minha mãe falava com dois homens ruivos e a interrogavam, provavelmente tentando saber a causa do incêndio. Minhas pernas tremiam tanto que eu não conseguia mais me aproximar. Os olhos amedrontados de Kobe encontraram os meus e de seus lábios saíram o meu nome. Na mesma hora todos se viraram em minha direção e um dedo acusador de minha mãe me indicou como culpada.
Culpada.
Eu apenas havia saído de casa para respirar, gritar, chorar. Minha casa estava ali quando eu sai furtivamente por entre as árvores. Não tinha sido eu.
Mas no fim... quem acreditaria em mim? Enquanto os homens vinham até mim e começavam a me carregar para longe... eu comecei a procurar por alguém. Mesmo que somente sua silhueta.
Onde estava meu pai? A minha mãe me olhava com desdém e notou quando eu fiquei apavorada.
Ele ficou lá dentro. Assassina. - sibilou a cobra que um dia eu chamei de mãe.
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