HELENA DUARTE
O sol da manhã entrou pelas frestas da cortina do escritório como se me acusasse, eu nem tinha dormido, passei o resto da madrugada sentada na poltrona em frente ao sofá onde Caio finalmente apagou, nocauteado pelo uísque e pela exaustão. Meus lábios ainda formigavam, me fazendo reviver o momento que desafiou toda a minha lógica.
“Eu não sei amar”, ele tinha dito. E eu, na minha petulância, quase respondi que ninguém nasce sabendo, mas o silêncio dele era mais alto que qualquer palavra.
E eu nem queria ser amada por esse riquinho folgado, eu queria pagar minha liberdade e ir embora, não existia sentimentos ali, não dá minha parte.
Levantei-me, sentindo os músculos rígidos. Olhei para o homem jogado no sofá. Sem o terno impecável, com o rosto marcado pelo soco da noite anterior e o cabelo bagunçado, ele não parecia o “Imperador”. Parecia apenas um garoto que cresceu rápido demais em um mundo que queria devorá-lo. Cobri-o com uma manta e saí silenciosamente. Eu queria ver como Lorena estava, queria estar lá quando ela precisasse, queria dar o apoio que não tive no velório da minha mãe.
Duas horas depois, a mansão fervilhava de pessoas, aquele lugar parecia mais um desfile de Paris do que um funeral. As mulheres entravam desfilando com suas roupas e joias e calçados caros e elegantes, cumprimentando parentes que não pareciam nada tristes com a perda.
Em pouco tempo o silêncio de mármore tinha sido substituído pelo som de sapatos polidos e vozes sussurradas. Fui até o quarto de Lorena, não para apressa-la, mas pra ter certeza de que não tinha fugido de todo aquele circo.
— Lorena? — Chamei, batendo de leve, esperando ser respondida, mas como esperava, fui ignorada. Abri a porta com calma e ela estava sentada no chão, vestida com um vestido preto simples que parecia grande demais para o seu corpo franzino. Ela segurava uma das bolsas de emergência que eu tinha montado.
— Eu não quero ir — ela sussurrou, com a voz embargada quase sumindo. — Se eu for, significa que é verdade. Que eles não vão voltar.
Ajoelhei-me ao lado dela, eu conhecia aquela negação.
— Eu sei. Mas você é uma Velasquez. E o Rafael... ele teria orgulho de ver você de cabeça erguida hoje. EU sei que não é o que quer ouvir, mas a dor vai sumindo com o tempo e agora você tem que ser forte, se cair agora os abutres lá na sala vão querer colocar você num caixão também e aceitar isso é zombar da memória do seu irmão e da sua mãe. Eu estarei bem atrás de você. Se o ar faltar, eu estarei lá com a bombinha. Se as pernas falharem, eu seguro o seu braço. Você não está sozinha, tem eu e o Caio que apesar de talvez estar apagado no escritório, ele também se preocupa com você.
Ela me olhou por um longo tempo e, pela primeira vez, vi uma faísca de confiança. Ela assentiu.
Descemos as escadas e encontrei Caio no hall. Ele estava impecável novamente. Terno preto sob medida, óculos escuros escondendo as olheiras e o inchaço no rosto devidamente disfarçado por uma base que eu mesma separei pra Anitta ajuda-lo a aplicar antes que os convidados chegassem. Ele não mencionou o beijo. Não mencionou a confissão que fez enquanto estava bêbado. Mas quando nossos olhos se cruzaram por cima dos óculos, o ar entre nós estalou. A tensão era uma corda esticada prestes a arrebentar.
O cemitério estava lotado. A elite do Rio de Janeiro estava lá com seus lenços de seda e lágrimas coreografadas. Mas o que me chamou a atenção foram os homens que não se encaixavam ali. No fundo, perto das sombras das árvores, três homens observavam tudo. Um deles, um cara alto com uma cicatriz no supercílio e um olhar que gelava a espinha, fez um sinal discreto com a cabeça para o Caio.
— Quem são eles? — sussurrei para Caio, enquanto caminhávamos atrás do caixão.
— Meus amigos — ele respondeu, a voz fria como o mármore das lápides. — Ítalo e Ricardo. Eles não vieram pelo bufê do velório nem pela herança. Vieram garantir que ninguém tente nada enquanto eu estou vulnerável e principalmente vieram dar adeus ao nosso amigo.
Senti um calafrio subir minha espinha , o mundo do Caio era muito mais perigoso do que eu imaginava.
O enterro foi um borrão de orações e o som de terra batendo na madeira. Lorena apertou minha mão com tanta força que meus dedos perderam a sensibilidade. Eu a mantive firme. Quando tudo acabou e a multidão começou a se dispersar, um homem se aproximou, ele cumprimentou Caio com uma falsidade que me deu náuseas e depois fixou os olhos em mim.
— Então esta é Helena ? — Ele sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Isabella sente muito não estar aqui. Ela manda lembranças, Caio. Disse que m*l pode esperar para voltar para casa amanhã.
Caio endureceu ao meu lado. A menção de Isabella foi como um balde de água gelada na nossa bolha frágil.
— Diga a ela que a casa está pronta — Caio respondeu, a voz desprovida de emoção.
Eu não entendi, pelo que sei ele daria a vida por Isabella, como agora ele agia assim?
Bem, não é problema meu, desde que a riquinha não faça nada por mim tudo bem.
No caminho de volta para a casa o silêncio era pesado. Lorena adormeceu no banco de trás, exausta. Eu olhava pela janela, pensando na frase de Caio na noite anterior. Ele não sabia amar, mas sabia possuir. E com a volta da Isabella, a “rainha” de verdade daquela casa, meu lugar naquela estrutura estava prestes a se tornar um campo de batalha, eu não sou i****a, já li tantos livros e séries, que não sei nem como me meti nessa enrascada.
— O que você está pensando? — Caio perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
— Que o risoto de problemas acabou de ganhar um ingrediente novo — respondi com amargura. — A sua esposa volta amanhã.
Caio apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Ela é a mãe do meu sobrinho. Nada mais.
— Para ela, isso é tudo, senhor Montenegro. Precisamos resolver o contrato da minha dívida, vou voltar para o meu apartamento amanhã, não quero atrapalhar, muito menos ser a mulher do quarto de hóspedes.
Ele freou o carro bruscamente no acostamento, em uma área deserta antes de chegar à mansão. Ele se virou para mim, a fúria e o desejo lutando no olhar cinzento.
— Você acha mesmo que depois de ontem à noite eu vou deixar você ser “apenas” qualquer coisa? — Ele se inclinou, o espaço entre nós desaparecendo. — A Isabella pode ter o filho meu irmão no ventre, mas é o seu cheiro que está impregnado na minha pele. É você quem eu procuro no escuro. Você é o meu sol.
Ele não me beijou. Ele apenas me encarou, como um predador que acabou de marcar sua presa, antes de voltar a dirigir.
Eu sabia que a paz na mansão Montenegro tinha enterrado suas últimas chances junto com o Rafael e com a volta de Isabella a guerra estava apenas começando.
— Não me importo com o que você quer ou pensa, vou trabalhar e pagar a minha dívida só isso. – respondi fria e sem reação, ele tinha que entender o que eu disse.