CAIO MONTENEGRO
O asfalto da Rio-Santos era um borrão cinzento diante dos meus olhos. Eu não deveria estar dirigindo. Meus reflexos estavam lentos, a audição abafada pelo uísque que eu tinha virado antes de sair do galpão na Baixada, e minha visão oscilava entre a estrada e o rastro de sangue seco que eu sentia no canto da boca. Eu tinha lutado. Não uma rinha organizada, mas uma briga de rua suja, atrás de um posto de gasolina, só para sentir o impacto de um soco e ver se a dor física calava ou superava a dor que eu sentia pelo luto do Rafa.
Estacionei o carro de qualquer jeito na entrada da mansão, subindo com o pneu no meio-fio. O motor ainda roncava quando os seguranças correram, já acostumados com a situação. Eu era a definição da negligência, naquele momento, se uma patrulha me parasse, o “Imperador” estaria nas capas de jornais como um bêbado irresponsável, mas eu não dava a mínima.
— Senhor Montenegro! O senhor está bem? — Lucas tentou me segurar quando abri a porta do carro e quase caí de cara no cascalho.
— Me solta, p***a — rosnei, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina.
Entrei no hall cambaleando, com as luzes da mansão ferindo meus olhos. Ouvi passos rápidos descendo a escadaria de mármore, mas eu não me importava eu mandava naquele lugar.
—Caio ? – a voz dela encheu meus ouvidos e de repente eu não mandava em mais nada, nem em mim mesmo.
Ela usava um robe de seda escuro, algo que eu mesmo tinha mandado comprar por que combinava com ela, e realmente combinava, mas vê-lo nela era um erro tático para a minha sanidade. O tecido deslizava pelas curvas dela, acentuando o contorno dos quadris e o desenho dos s***s que subiam e desciam com a respiração acelerada. O cheiro dela ... aquele mix de sabonete e pele limpa substituía o cheiro de quinoa, que eu já tinha me acostumado. Mas ainda sim o cheiro atingiu meu olfato como um nocaute. Era injusto. Eu cheirava a ferro, suor e destilado caro e forte, e ela cheirava a tudo o que eu nunca poderia ter.
— O que é isso? — A voz dela era um chicote de indignação. — Caio, você está bêbado? Espera aí Caio. Seu carro está no em cima da escada. Você dirigiu nesse estado?
— Eu cheguei, não cheguei? — Tentei dar um passo, mas o mundo girou.
Helena correu até mim, passando meu braço pesado pelos ombros dela. O tamanho dela era quase metade do meu, e o esforço que ela fazia para me manter em pé era visível. Lucas tentou ajudar, mas eu o dispensei com um gesto bruto. Eu queria o toque dela, mesmo que fosse para ser arrastado como um animal.
— Pro quarto dele, Lucas! — Helena ordenou.
— Não... — minha voz saiu arrastada. — Lucas leva estaciona o carro e amanhã leva pra lavar, eu vou sozinho pro escritório.
Vi ela acenar com a cabeça para Lucas como se ela desse as ordens e não eu.
— vamos – ela ordenou com os olhos brilhando de repúdio.
Fomos tropeçando até a porta pesada de carvalho, e quando eu finalmente encostei minhas costas no sofá o mundo rodou e eu enxergava o dobro.
Eu estava um lixo. Um lado do meu rosto ardia, marcado por um soco que eu nem me dei ao trabalho de esquivar. Helena acendeu apenas uma luminária de mesa, tornando o ambiente um confessionário de sombras.
— Você é um irresponsável — ela sibilou, pegando um kit de primeiros socorros que ela mantinha por perto. — Poderia ter matado alguém. Poderia ter se matado e deixado a Lorena sozinha de vez. Olhe para esse rosto! Você trocou socos na rua, Caio? Com quem?
— Com o fantasma do meu irmão. Com o Rafael. Comigo mesmo — murmurei, fechando os olhos.
Sentir as mãos dela limpando meu rosto era torturante. Eu queria puxá-la para o meu colo, rasgar aquela seda e esquecer quem eu era dentro dela. Meu lado primitivo rugia. Eu era um primata bêbado querendo tomar o que considerava meu por direito de compra. Mas, por trás da névoa do álcool, um resto de consciência me dizia que ela merecia respeito, merecia cuidado, carinho e um homem que não estivesse sangrando o sangue de terceiros.
— O sangue não é seu — ela notou, parando o algodão perto da minha boca. — Você bateu em alguém.
— Ele mereceu — respondi, abrindo os olhos e focando no decote do robe dela. — Droga... estou ficando sóbrio. Isso dói mais do que o soco.
Tentei me levantar para ir até o armário de bebidas, buscar a garrafa de uísque que era meu único refúgio. Eu precisava de mais. Precisava apagar. Mas Helena se colocou na minha frente, as mãos pequenas espalmadas no meu peito, me impedindo de passar.
— Por favor meu sol, não faça isso eu preciso de um gole.
— Para quê? — Ela me encarou com uma coragem que me desarmava. — Quer colocar mais álcool no seu risoto de problemas?
Eu parei. Olhei para ela, processei a frase e, de repente, uma gargalhada rouca e genuína escapou do meu peito. Doeu nas costelas, mas eu ri.
— Risoto, Helena? Risoto é feito com vinho. Eu bebo uísque. O seu sarcasmo é péssimo.
— O seu estado é pior — ela retrucou, mas vi um brilho de alívio nos olhos dela por me ver rir.
Ela voltou a limpar o corte no meu lábio. A proximidade era perigosa. E eu conseguia sentir o calor do corpo dela, ouvir a batida do coração dela e a mão dela subiu para a minha nuca, sustentando minha cabeça enquanto ela terminava o curativo. O silêncio no escritório ficou denso, carregado de algo que a minha brutalidade não conseguia esconder.
— Eu não sou um homem bom, Helena — sussurrei, a voz quebrada pela verdade que o álcool trazia à tona. — Eu sou filho de um policial corrupto e assassino amigo de traficantes.
Eu a puxei pela cintura, colando o corpo dela ao meu sentindo o resto da minha sanidade esvair quando senti que ela não recuou. Pelo contrário, ela se encaixou no meu peito como se aquele fosse o lugar dela. Eu a puxei antes de pensar.
O beijo saiu torto e urgente, meus lábios molhados demais contra os dela, o gosto de álcool ainda quente na minha boca. Eu estava bêbado, mas não o suficiente para não sentir a maciez dos lábios dela, o calor, a forma cuidadosa como ela me beijava de volta.
Ela me beijava com doçura, como se estivesse tentando me acalmar, enquanto eu só sabia pressioná-la mais perto, como um homem que está caindo e encontra algo firme para se segurar. Aquela sensação me fez arder de raiva e desejo .
Beijá-la era como se um demônio tivesse provado o paraíso, pequeno demais para salvá-lo, mas puro o bastante para fazê-lo querer mais.
Quando nos afastamos, eu a segurei pelo pescoço, sentindo o pulso dela acelerado sob meus dedos. A luz da luminária revelava a verdade que eu tentava enterrar.
— Eu não tenho como comprar você, Helena — minha voz era um sussurro de sombra. — Eu teria que te pagar com amor... e eu não sei amar.
Ficamos ali, no escuro do escritório, enquanto a chuva começava a bater na janela. Eu era o Imperador de nada sem ela , e ela era a única coisa real que eu já tive em toda a minha vida de mentiras. E ela nem sequer era minha.