CAPÍTULO 17: CHÃO DE VIDRO

1255 Words
LORENA VELASQUEZ O carro de Caio cruzava os portões da mansão com uma naturalidade falsa, eu estava tão acostumada com ele entrando e saindo dali que agora, enquanto ele cruza os portões eu ainda estou apática. Ele entrou frio, com tanta formalidade que nem parecia ser ele. Depois de tudo isso eu não era nem a “pirralha barulhenta”, como ele costumava me chamar. — Eu sinto muito por tudo isso Lorena... Eu não sei como fazer isso, mas não vou deixar você sozinha... — Está tudo bem. Podemos ir ? – perguntei interrompendo o discurso dele, amanhã eu com certeza ouviria mais disso de um monte de pessoas, principalmente parentes que eu não via à anos. O carro cheirava a couro e perfume doce enjoativo. Era um cheiro que me dava náuseas, mesmo com os vidros do banco de trás abertos. Eu estava sentado ali , olhando pela janela enquanto a minha casa, a de verdade, com as marcas de caneta no batente da porta e o jardim que a minha mãe amava, sumia de vista. Eu queria gritar. Queria abrir a porta com o carro em movimento e sair correndo até meus pulmões queimarem, mas eu só conseguia ficar ali, parada, com a mão enfiada no bolso do moletom apertando a minha bombinha de asma como se fosse um amuleto. É tudo tão i****a, e injusto. É injusto de um jeito que não dá nem para explicar. Em um dia eu estava reclamando que o Rafael não me deixava ir a uma festa, e no outro, ele, a minha mãe e a minha cunhada viraram estatística de jornal. E agora? Agora eu sou “o encargo”. A órfã que o melhor amigo rico tem que carregar para não ficar m*l na foto. Eu não queria estar ali, e o jeito que o Caio me olhava pelo retrovisor me dava raiva, ele estava com aquela cara de “eu não sei o que fazer com você, mas sou um cara de honra”. Eu não sou um contrato, droga. Eu sou uma pessoa. E a ideia de cruzar a cidade, mudar de escola no meio do semestre, ter que explicar para todo mundo que eu não tenho mais ninguém... era demais. Eu sentia um peso no peito, uma pressão que eu sabia que logo, logo me traria uma crise . O ar parecia estar ficando mais espesso a cada quilômetro que nos aproximava da mansão Montenegro e imaginar o velório, o funeral o caixão só piorava tudo. Quando o carro finalmente parou na frente da casa do Caio, eu quase ri. Aquilo não era uma casa, era um cenário de filme daqueles clichês estilo “o Homem rico e a mocinha pobre” . Tudo ali era mármore, silêncio e um monte de funcionários olhando para mim como se eu fosse um passarinho ferido. — Lorena, chegamos — o Caio disse, a voz dele tentando soar suave, mas saindo toda travada. — Essa é a sua casa agora. Não é não, eu pensei, mas não disse nada. Eu não ia ser a adolescente rebelde que grita, e culpa o mundo por algo que claramente não é culpa de ninguém. Eu não tinha energia para isso. Eu só queria um quarto com chave, eu ia tomar banho e me deitar, só isso. Entramos na casa e lá estava ela. Uma mulher de cabelos castanhos e um olhar que, por um segundo, me fez parar de apertar a bombinha. O Caio a apresentou como Helena. Ela não veio com aquele papo de “sinto muito pela sua perda” ou tentando me abraçar como se me conhecesse. Ela só me olhou. E, por algum motivo, o olhar dela não tinha aquela piedade nojenta que os outros tinham. Parecia que ela também estava presa ali. — O seu quarto é por aqui — ela disse com a voz calma, mas firme. Nada de bajulação. Eu a segui como um zumbi, sem dar nem um pio e assentindo com a cabeça de vez em quando. O quarto era enorme, branco demais, limpo demais e eu vi pelas cortinas que ela foram trocadas antes de eu chegar . Ela me deixou lá e eu me joguei na cama, sentindo o choro entalado na garganta, mas me recusando a deixar ele sair. Eu não ia chorar na frente deles. Eu ia ficar ali, sem comer, sem falar, até que esse pesadelo acabasse. Depois de um tempo, o silêncio do quarto começou a me dar agonia. Me levantei para bisbilhotar e vi uma bolsa de lona em cima de uma poltrona com um bilhete em cima, numa letra bem nítida: “Para as emergências. — Helena”. Abri a bolsa esperando encontrar um ursinho de pelúcia ou um livro de autoajuda, mas quando abri, eu quase soltei um palavrão. Tinha de tudo. Três inaladores lacrados e de marcas diferentes, os bons, que não dão taquicardia. Tinha espaçadores, um medidor de pico de fluxo e... o que era aquilo? Uma máscara de oxigênio portátil. E não parava por aí. Tinha remédio para dor de cabeça, anti-histamínico e até umas ampolas de soro fisiológico. Mas o que me fez parar e encarar a bolsa por uns cinco minutos foram os outros kits. Tinham três bolsas menores dentro da maior. Uma estava escrita: “Mochila da Escola”. A outra: “Cabeceira”. E a terceira: “Reserva”. Eu peguei a bolsa da escola. Ela era compacta e reforçada, feita para não quebrar nada lá dentro e tinha um papelzinho plastificado dentro dela com os nomes dos remédios e um passo a passo do que fazer se eu perdesse a fala durante uma crise. — Cara... ela é maluca — murmurei, sentindo um canto da minha boca subir, meio que sem querer. — Quem é que prepara um kit de guerra para asma? Três bolsas? Sério? Eu não consegui evitar. Era tão absurdo e, ao mesmo tempo, tão prático que quebrou um pouco daquele clima de funeral pesado. Isso explica o quarto minuciosamente limpo e as cortinas trocadas, sem pelúcias ou qualquer coisa que me fizesse ter um crise. Minha mãe ficava em pânico quando eu ficava roxa; o Rafael só me jogava no carro e corria. Mas essa Helena... ela tinha montado uma estratégia só pra mim. Ela não estava me tratando como uma coitadinha; ela estava me tratando como alguém que precisava de equipamento para sobreviver àquele lugar. Peguei o kit da cabeceira e deixei em cima do criado-mudo. Eu ainda não queria descer. Eu ainda odiava o fato de estar ali. Mas o fato de ter uma mulher naquela casa que sabia exatamente o que era a sensação de morrer sufocada e que, em vez de me dar um abraço, me deu um kit de oxigênio de última geração... bom, isso era esquisito. E talvez, só talvez, fosse o que eu precisava para não surtar naquele momento. Me deitei de novo e puxei a coberta. O cheiro não era o da minha casa, mas a bolsa da Helena estava ali, do meu lado e se uma crise viesse eu teria munição pra guerra. — Três bolsas — repeti baixinho, fechando os olhos. — Exagerada. Pela primeira vez em três dias, eu não senti que o ar ia acabar antes de eu pegar no sono. Mesmo sentindo o choro apertar minha garganta eu não impedi que as lágrimas molhassem o travesseiro, afinal o que mais eu poderia fazer ? Eu perdi tudo.
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