CAIO MONTENEGRO
O escritório do Dr. Arnaldo, no vigésimo andar de um dos edifícios mais caros da cidade, era um santuário de mármore e madeira de lei. O silêncio ali era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido quase imperceptível do ar-condicionado. Eu estava sentado em uma das poltronas de couro, sentindo cada músculo do meu corpo protestar. A falta de sono e a doação de sangue no hospital começavam a cobrar um preço transformando meus movimentos em algo pesado, como se eu estivesse submerso.
— Um café, senhor Montenegro? Ou talvez uma água? O senhor parece pálido — Arnaldo ofereceu, com aquela polidez profissional que ele cultivava há décadas como advogado da família Velasquez.
— Eu agradeço a gentileza, Doutor Arnaldo, mas não quero nada agora. Vamos focar no que é necessário. — Respondi com a voz modulada, mantendo a educação que a minha posição exigia, embora por dentro eu sentisse que poderia desmoronar a qualquer segundo e mandar ele e qualquer um se f***r. — Eu preciso entender a extensão da situação.
Arnaldo assentiu gravemente e abriu uma pasta de couro legítimo sobre a mesa de carvalho.
— Como o senhor sabe, Caio, a perícia confirmou o óbito de Rafael, da esposa e da senhora Velasquez no local. O impacto foi devastador. Juridicamente, a linha sucessória direta da família foi interrompida de forma abrupta.
Eu fechei os olhos por um breve segundo, inspirando o cheiro de papel e couro. Rafael. O cara que, há algumas horas, estava me convidando para jantar. A morte é uma burocrata impiedosa; ela transforma uma vida de risos em uma pilha de certidões e inventários.
— E quanto à Lorena? — Perguntei, abrindo os olhos e encarando o advogado com firmeza.
— É exatamente por causa da senhorita Lorena que solicitei sua presença com tamanha urgência. — Arnaldo ajustou os óculos e leu um parágrafo específico do documento. — Há seis meses, pouco depois do falecimento de seu irmão, Heitor, Rafael solicitou uma alteração em seu testamento vital e nas cláusulas de sucessão. Ele estava preocupado com a voracidade dos parentes distantes, especificamente os primos da linhagem secundária, depois que o senhor trouxe a senhorita Isabella para a mansão, Rafael inseriu uma cláusula de tutela substitutiva, nos sabemos que ele não confiava nela. Sobre a cláusula, ela ...
— A cláusula me nomeia — completei, sentindo o peso das palavras antes mesmo de ele confirmá-las.
— Exatamente. O texto é claro: na ausência de ascendentes e do irmão, o senhor é nomeado tutor legal e administrador do patrimônio de Lorena Velasquez até que ela atinja a maioridade civil, aos vinte e um anos, conforme as diretrizes da empresa da família. Rafael acreditava que o senhor era o único com a força necessária para proteger Lorena dos interesses escusos que agora cercam a fortuna dos Velasquez.
Eu me recostei na poltrona, processando a informação. Ser um CEO significa tomar decisões difíceis sob pressão, mas essa era uma decisão que envolvia uma vida humana, uma adolescente traumatizada. Minha mente viajou até a mansão, para a imagem de Isabella no hospital e de Helena na cozinha. Minha vida já era um campo minado de responsabilidades e culpas. Adicionar Lorena àquela equação parecia, em um primeiro momento, uma receita para o desastre.
— Doutor , se eu recusar... o que acontece com ela? — Questionei, mantendo o tom profissional, embora meu coração batesse de forma irregular.
— Sendo franco e técnico: o Estado assume. Lorena seria encaminhada a um abrigo ou colégio interno indicado pelo juizado até que a disputa judicial entre os primos fosse resolvida. O senhor conhece a família. Eles desmembrariam os hotéis e as ações antes mesmo de Lorena terminar o ensino médio. Ela ficaria desamparada, Caio. Literalmente sozinha no mundo.
As palavras de Helena, ditas no hall da mansão, ressoaram como um trovão na minha memória: “Você será o homem que a abandonou quando ela mais precisava”.
Helena, com sua sabedoria de quem já tinha perdido tudo, enxergou o que eu, em meu egoísmo e cansaço, estava tentando ignorar. Eu não era o Batman, como ela dizia, mas Rafael era meu irmão de alma. Eu não podia dar as costas à última vontade dele. Não por Lorena, não pelo patrimônio, mas pela honra de uma amizade que a morte não poderia apagar.
— Entendo. Não permitirei que isso aconteça. — Falei, levantando-me e abotoando o paletó com um movimento automático de quem assume um novo cargo. — Prepare os documentos de guarda provisória imediata. Lorena não passará uma noite sequer sob a custódia do Estado ou à mercê de parentes oportunistas. Ela irá morar na mansão Montenegro.
— É uma decisão nobre, senhor Montenegro. Nobre porém complexa, dada a sua situação doméstica — Arnaldo observou, fechando a pasta.
— Eu lido com complexidades todos os dias doutor . A mansão é grande o suficiente. — Respondi com um aceno de cabeça educado. — Agora, se me dá licença, preciso ir buscar minha protegida.
Saí do escritório e o ar do corredor pareceu mais oxigenado. Peguei o celular e liguei para Gudan. Minha voz agora era de comando, a voz do CEO que resolve problemas.
— Gudan, mude os planos. Quero que vá até a residência dos Velasquez. O Dr. Arnaldo enviará a autorização para sua entrada. Pegue o que for essencial para a Lorena: roupas, objetos pessoais, e certifique-se de encontrar os medicamentos para asma dela. Quero tudo pronto no quarto de hóspedes ao lado do quarto da Helena em duas horas.
— Sim, senhor. E quanto à dona Isabella? — Gudan perguntou, o tom neutro de sempre.
— Se ela ligar, diga que estou em reuniões externas sobre a sucessão dos Velasquez. Não dê detalhes sobre a Lorena. Eu mesmo farei o comunicado oficial quando chegar. E Gudan... — fiz uma pausa, olhando para o horizonte através do vidro do elevador — ...avise a Helena. Diga que eu aceitei. Diga que a menina está indo para casa, peça que ela espere por nós .
Desliguei. O termo “casa” soava estranho na minha boca. A mansão Montenegro nunca foi realmente um lar, era apenas uma estrutura de luxo desde que meu irmão morreu. Mas agora, com Helena lá dentro e a chegada de Lorena, algo estava mudando. Eu estava armando uma bomba-relógio com a Isabella, eu sabia disso. Ela não era r**m, só era territorialista e agora com a gravidez e hormônios ela estava pior.
Ela veria Lorena como uma ameaça à sua exclusividade e ao seu “poder” já que Rafael era tão meu irmão quanto Heitor .
Dirigi em direção ao colégio de Lorena, sentindo uma estranha mistura de pavor e determinação. Eu ia buscar uma menina que não tinha mais ninguém. E, por um momento, me perguntei se eu, o homem que comprava tudo o que queria, teria a capacidade de oferecer a única coisa que Lorena realmente precisava: proteção real.
Ajeitei o espelho retrovisor e vi meu reflexo. O rosto estava cansado, mas os olhos... os olhos pareciam ter encontrado um propósito que ia além de manter o império Montenegro de pé. Eu ia salvar aquela menina. E eu sabia que, sem a ajuda daquela pobretona petulante de olhos castanhos, eu falharia miseravelmente.
Parei o carro em frente ao hospital escolar. Respirei fundo, recuperei a postura de CEO e saí do veículo. Enquanto caminha até a porta ouvi a risada de Helena, mesma risada de mais cedo na cozinha. A dúvida dela era de um milhão, mas mesmo que ela pagasse eu nunca a deixaria ir, não enquanto ela tivesse aqueles olhos castanhos, não enquanto eu me lembrasse da risada dela, não enquanto ela fosse petulante e linda. Ela seria eternamente minha.