ISABELLA MONTENEGRO
O teto do quarto de hospital era de um branco tão absoluto que chegava a ser ofensivo. Eu estava deitada ali, sentindo o peso do meu próprio corpo, o leve desconforto no ventre e o gotejar incessante do soro que parecia marcar o ritmo da minha insignificância. Mesmo com todo o desconforto e peso a única coisa que passava pela minha cabeça era “Onde estava o Caio? Onde estava o homem que jurou, diante do caixão do irmão, que eu seria sua prioridade sagrada?”
Ele tinha ido embora, deixou Gudan ali como se ele fosse obrigado a ficar. Aquele pedaço de gelo em forma de segurança, parado à porta como um lembrete de que eu era uma barriga de aluguel, nada importante e descartável desde que o bebê estivesse bem , eu pensei que estivesse segura construindo um império, mas eu não era rainha de nada.
Mas eu não sou i****a. Eu sinto o cheiro da mudança no ar. O “acidente” com o vaso de cristal deveria ter sido o suficiente para trazê-lo de joelhos, implorando perdão por ter me negligenciado. A gravidez, era uma moeda de troca que eu precisava usar, mesmo sentindo que às vezes ela drenava minha própria beleza, ela deveria ser o nó que o prenderia para sempre a mim , mas pela desgraçada da Helena ele afrouxou esse nó.
A culpa, que sempre foi meu combustível para manipulá-lo, estava sendo substituída por algo que eu temia mais do que a morte: a distração.
— Rafael Velasquez morreu– murmurei encarando a tela do celular. Aquilo era uma tragédia, para alguns é claro. Para mim, foi uma inconveniência calculada. Rafael sempre foi o único que me olhava como se pudesse ler o roteiro que eu escrevi para a minha vida. Ele era o único que sussurrava nos ouvidos de Caio que eu não era “Frágil ao ponto de dormir com meu cunhado por medo de chuva ”. A morte dele deveria facilitar as coisas agora, mas a Helena, ela era um perigo eu precisava me livrar dela. E ainda tinha outra dúvida. Lorena, se todos os Velasquez morreram onde aquela órfã ficaria, Caio não é um “ bom samaritano” mas seria bom se certificar que aquela órfã impertinente não pisasse na mansão. Casa contrário eu tenho certeza que a madre Helena de Calcutá vai tomar as dores da órfã. Ela é uma dessas mártires silenciosas, cheias de uma empatia barata que me dá náuseas. Ela vai ver na Lorena o reflexo de sua própria desgraça. Elas vão se unir, duas “vítimas” dividindo o pão e as dores sob o meu teto. E o Caio? O Caio vai olhar para aquela cena e ver a família que ele nunca teve coragem de construir. Ele vai ver na Helena a salvadora, e em mim... em mim ele vai ver apenas o fantasma de Heitor.
Minha mão apertou o lençol estéril com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos, a pele esticada ao limite. Eu conseguia sentir o ódio borbulhando, um veneno quente que corria junto com o sangue que o próprio Caio me doou. Que ironia. O sangue dele corre em mim agora, mas a mente dele está longe, talvez perdida nos olhos castanhos daquela enfermeirinha de quinta categoria.
— Você não vai roubar o que é meu — sussurrei para as paredes mudas do quarto.
Eu lutei muito para chegar aqui. Ninguém sabe o que eu tive que suportar para manter a imagem da viúva perfeita, da cunhada frágil, da mulher que carrega o legado dos Montenegro. Eu não suportei os caprichos de Heitor e a arrogância de Caio para ser substituída por uma mulher pobretona e fraca que não sabe seu lugar.
Se o Caio não entende por bem que eu sou a única peça que importa nesse tabuleiro, ele vai entender pelo terror. A Helena é a cola que está mantendo a sanidade dele agora. Se a Helena desaparecer, a estrutura dele desmorona. Sem ela, a Lorena torna-se um fardo insuportável, um lembrete vivo de uma falha que ele não vai querer encarar. Ele vai despachá-la para a Europa em dois dias.
E então, restará apenas eu. Como sempre deveria ter sido.
Peguei o celular sob o travesseiro, longe do olhar atento de Gudan. Meus dedos digitaram o número com uma precisão cirúrgica. Era um contato que eu jurava ter enterrado junto com o meu passado antes de me tornar uma Montenegro, um homem que fazia os “serviços sujos” para o meu pai e que não fazia perguntas, desde que o pagamento fosse alto o suficiente.
— Alô? Hernando? . — Minha voz era um fio de seda letal. — Preciso de um serviço. Algo definitivo.
Fiz uma pausa, ouvindo a respiração pesada do outro lado da linha.
— Quero que alguém saia do mapa. Mas precisa ser inteligente. Quero que pareça um erro trágico, ou talvez um sequestro que deu errado porque ela tentou ser a heroína. Todos precisam acreditar que ela morreu por culpa do destino.
—Caio precisa ficar devastado, e sozinho... ele precisar de mim para juntar os cacos. – murmurei apertando os lençóis.
A voz do outro lado murmurou o preço e as condições. Eu não pisquei. Dinheiro era a única coisa que eu tinha de sobra, e era uma ferramenta excelente para comprar o silêncio e o destino de alguém.
— Comece a vigiar. Quero saber cada passo dela. Daqui a uns dias...no momento certo nós agimos.
Desliguei o aparelho e o deslizei de volta para a escuridão sob o travesseiro. Fechei os olhos e respirei fundo, sentindo uma calma estranha me envolver. A máscara de esposa frágil estava pronta para ser usada novamente. Quando Caio voltasse, eu seria a vítima, a mulher que quase morreu, a viúva que precisa de amparo.
A pimenta que faltava no meu jogo estava prestes a se transformar em fogo. E eu não me importaria de ver a mansão Montenegro arder até as cinzas, desde que eu fosse a única a usar a coroa no final. Helena Duarte achava que podia salvar o mundo? Pois eu ia mostrar a ela que, neste mundo, os salvadores são os primeiros a serem crucificados.