CAPÍTULO 14: E “SE”...

1135 Words
HELENA DUARTE A cozinha da mansão Montenegro era o único lugar que não cheirava a museu ali, o mármore frio perdia a batalha para o vapor das panelas e para o som das vozes que realmente faziam aquela casa pulsar. Eu estava sentada à mesa de granito, sentindo o calor da caneca de café entre as mãos, deixando que a cafeína e a conversa casual com Lucas, me ancorassem no presente. — ...e então o senhor Caio olhou para o pneu furado como se pudesse consertá-lo apenas com a força do pensamento! — Lucas contava, gesticulando com entusiasmo. — Ele ficou lá, parado, com aquela cara de quem vai demitir o asfalto, até que eu apareci com o macaco hidráulico e ele perguntou “esse é o macaco que troca o pneu ?” Eu ri. Foi uma risada que me pegou de surpresa, vinda de um lugar que eu julgava ter secado há muito tempo. Meus olhos brilharam, e pela primeira vez em dias, senti meus pulmões expandirem sem aquela pressão constante no peito. O riso era o meu último ato de resistência contra a frieza daquela mansão. Mas o som morreu no ar, como se alguém tivesse aberto uma porta para o vácuo. Não houve barulho, mas o ambiente mudou. Olhei para a entrada da cozinha e vi apenas um vulto passando rápido em direção ao hall. Caio. Ele não entrou para dar os “bons-dias” arrogantes ou para me lançar aquele olhar possessivo que sempre me deixava em alerta. Ele passou como uma sombra carregada de tempestade. Me levantei da cadeira num instinto que meu cérebro não conseguiu processar a tempo. — O que houve? — perguntei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia. — O patrão chegou — murmurou Lucas, o sorriso dele evaporando como se nunca tivesse existido. — Ele parece... Cansado . Levantei sem pressa indo até o hall, com meus passos ecoando solitários no mármore impecável, eu estava indo pro meu quarto não queria o desprazer de um novo encontro com “O senhor Montenegro” . Mas quando passei pela sala encontrei Caio de costas, parado diante da janela monumental que dava para os jardins. Ele não era o homem que ontem à noite estava cozinhando mingau na minha cozinha velha; ele parecia uma estátua de gelo prestes a rachar. O terno dele sempre impecável, estava amassado nas costas; com os ombros, que costumavam sustentar o peso de um império, estavam caídos sob uma carga invisível. — Caio? — chamei. Ele não se virou de imediato. O silêncio que se seguiu foi denso, sufocante. Quando ele finalmente girou o corpo para me encarar, o impacto foi físico. Ele estava pálido, com olheiras que pareciam escavadas na pele e olhos cinzentos injetados de sangue. — Ele também está morto Helena. — A voz dele era um sussurro rouco, desprovido de qualquer autoridade. — O acidente... levou todos. A esposa, a mãe. Todos eles. Eu não conhecia Rafael Velasquez, mas eu conhecia aquele tom de voz. Era o som do luto, da dor violenta que afoga alguém de dentro pra fora . Dei um passo à frente, esquecendo as regras invisíveis, o contrato e o ódio que eu deveria sentir por ele. Naquele momento, não havia “comprador” e “mercadoria”. Havia apenas dois seres humanos diante do inevitável. — Eu sinto muito — eu disse, e no meu peito, a dor dele encontrou ressonância na minha própria ferida aberta. Ele começou a andar de um lado para o outro, os movimentos erráticos. — Tenho que sair – ele disse passando a mão pelo rosto — advogado diz que é um encargo legal, uma cláusula de emergência... Rafael confiava em mim. Se eu o que estou pensando, ele errou. Eu não sei cuidar de ninguém, Helena! Eu m*l consigo manter minha própria sanidade, Tenho outras responsabilidades. — Fica calmo, a dor da perda está nublando seus pensamentos, o que você está pensando? – perguntei me aproximando, sem saber ao certo como consola-lo. — Lorena, a irmã de Rafael ela ainda é de menor e está no ensino médio, e se tem alguém que não pode ser o tutor dela agora, sou eu. Como eu faria isso ?. A 6 meses perdi meu irmão e ganhei um sobrinho e uma cunhada, eu não posso cuidar dela, se for mesmo isso eu...eu... Vou mandá-la para a Suíça. Um internato. É o melhor para ela. Ela terá estrutura, e segurança... longe daqui. — Você não vai fazer isso. — Minha voz saiu firme, cortando o surto dele como um bisturi. Caio parou e me encarou, a fúria começando a substituir o choque. — Como é? — Ela acabou de perder o mundo, Caio. Tudo o que ela conhecia se transformou em cinzas num acidente. — Me aproximei mais, ignorando o perigo da sua instabilidade. — Eu sei o que é acordar e descobrir que seu solo é movediço. Eu acabei de descobrir que não sou quem eu pensava ser, que minha família não é meu sangue. A menina... Lorena... o buraco que ela tem no peito agora é um abismo. Se você a despachar para um colégio do outro lado do oceano, vai dar a ela o trauma final e talvez só falte essa navalha pra ela se encontrar com a família. Você será o homem que a abandonou quando ela mais precisava de um teto e de um rosto conhecido. — Lembre-se, eu não sou o Batman Helena! — Ele gritou, e vi uma lágrima solitária escapar, denunciando a fragilidade que ele tentava esconder. — Eu não sei salvar ninguém! Olha para mim! Eu destruo tudo o que toco! — Eu também não, mas podemos resolver Caio . — Toquei o braço dele, um toque leve que o fez estacar como se tivesse levado um choque. — se precisar de ajuda eu estarei aqui, se deixar ela ficar, eu ajudo você. Eu serei o apoio dela para que você possa ser o tutor que o seu amigo esperava que fosse. Não a deixe sozinha, por favor Caio. Nada é tão r**m que não possa piorar, e mandá-la embora agora seria o seu maior pecado. E isso é um “SE”, até por que você não sabe se é sobre isso a conversa com o advogado. Vi a tensão deixar os ombros dele, como se ele estivesse entregando as armas. Ele fechou os olhos por um segundo. — Vamos ao escritório. Se for isso, ela pode ficar sem não for eu ainda agradeço a sua gentileza. Sorri assentindo, encarando os olhos fundos dele se afogando no desespero e na dor de perder alguém que ama. — então vamos senhor Montenegro.– respondi levantando percebendo que estava a tempo demais ajoelhada ali, na frente dele.
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