CAPÍTULO 13: SEM TRÉGUA

1101 Words
CAIO MONTENEGRO O asfalto parecia queimar sob os pneus enquanto eu dirigia como um louco em direção ao hospital. A imagem de Isabella caída, o som do cristal quebrado rodavam na minha mente como um disco riscado. Eu só conseguia imaginar tudo que aconteceu, mas ainda sim eu podia sentir o peso da culpa me prender. — Isabella Rios Montenegro — falei, m*l esperando a recepcionista terminar de processar minha entrada na ala VIP.— como ela está ? — Estável, senhor Montenegro. Mas perdeu muito sangue devido à demora do socorro. O médico solicitou uma transfusão imediata. – ela respondeu com paciência, sem desviar os olhos do computador — Já acionaram o banco de sangue ? — Não . Devido a queda de energia alguns dos bancos de sangue estão em reserva... Eu não esperei que ela terminasse de falar, arregacei a manga da camisa de linho. Tenho sangue O posso doar, não participo de nenhum grupo de risco e minha última transfusão foi á um ano. A enfermeira finalmente desviou os olhos da tela, varrendo minha expressão. — Tudo bem, vamos testar a compatibilidade... — Não precisa – eu disse interrompendo a explicação que ela provavelmente já havia decorado — eu já disse que meu sangue é O. — Não fazemos as coisas pelo que as outras dizem, isso é um hospital senhor Montenegro, se quer um atendimento rápido me acompanhe e não me interrompa. Suspirei irritado, essas pessoas não sabem o que é respeito? Eu praticamente mantenho esse hospital aberto. — sente-se, por favor qualquer dúvida que tiver, pode perguntar, assim que os resultados da amostra que colhermos aqui sair eu mesma venho avisar, e se o senhor puder ser doador faremos a coleta aqui. Todos os materiais e ambiente é devidamente esterilizado e higienizado. Alguma dúvida? Levantei os olhos dos panfletos colados na parede — quanto tempo isso leva ? — pra quem tem dinheiro, menos de duas horas. O deboche na voz daquela velha me fazia sentir falta de Helena, somente isso me impediu de não registrar uma reclamação na diretoria só para vê-la desempregada. Uma hora e quarenta minutos esperando, eu podia contar quantos cubos azuis haviam naquelas paredes, mas nada fazia o tempo passar e a culpa que eu sentia sumir. Quando ela voltou, estava bem mais educada que antes. — senhor Montenegro, os tipos sanguíneos são compatíveis, vamos realizar a coleta agora. Assenti impaciente, respirando fundo e sentindo a agulha perfurar minha veia sem sequer piscar. Ver meu sangue preencher aquela bolsa era a única coisa que me fazia sentir que eu estava pagando minha dívida com Heitor. Eu daria cada gota do meu corpo para manter viva a única coisa que restava do meu irmão. Depois de tudo finalmente fui liberado para vê-la, passei a noite em uma poltrona desconfortável, observando o monitor cardíaco de Isabella. O bipe rítmico era a trilha sonora do meu cansaço. Somente às sete da manhã a médica entrou com um sorriso contido. — Foi um susto, senhor Montenegro. O bebê está seguro agora e Isabella vai se recuperar. Ela só precisa de repouso absoluto e o uso constante dos medicamentos, principalmente depois da transfusão. — obrigada doutora, voltarei mais tarde para vê-la, com licença. Saí da sala respirando fundo, sentindo um peso sair dos meus ombros. A luz do sol feriu meus olhos antes de eu chegar ao saguão do hospital e meus pensamento, pela primeira vez em doze horas, não estava na esposa do meu irmão. Estava na “pobretona” que deixei para trás na mansão. Quando cheguei em casa com o corpo pedindo cama, mas meus pés pareciam ter vontade própria e estavam me arrastando para o quarto da Helena. Queria ver se ela tinha dormido, se tinha chorado... se sentia minha falta tanto quanto eu senti aquela agitação estranha no peito por deixá-la sozinha. Mas, ao passar pelo corredor lateral, o som de risadas me parou. Não eram os soluços contidos que eu estava acostumado a ouvir dela. Eram gargalhadas limpas, genuínas. Caminhei silenciosamente até a entrada da cozinha e parei na porta, observando a cena. Helena estava sentada à mesa de granito, cercada por Lucas, o motorista, e duas empregadas. Ela segurava uma xícara de café, mas seus olhos... Seus olhos brilhavam como eu nunca tinha visto e o rosto, antes marcado pela dor da perda e da confusão, agora estava iluminado, e quando ela sorriu de algo que Lucas disse, senti um soco no estômago. Ela era linda, absurdamente linda e quando ela sorria, tudo parava pra olhar por que qualquer luz no mundo se comparava aos brilhos dos olhos castanhos dela. Os brilho daqueles olhos castanhos me hipnotizavam, era uma força da natureza que eu queria engarrafar e guardar só para mim, mesmo que parecesse egoísmo. Fiquei ali, imóvel, admirando a mulher que eu “comprei”, percebendo que, apesar de todo o meu dinheiro, eu ainda não tinha conseguido dar a ela o que um simples café na cozinha com os funcionários deu: paz. E eu daria tudo pra ser o motivo desse sorriso, algo assim dinheiro não compra. Meu celular vibrou no bolso, cortando o momento. Saí de perto antes que me vissem, atendendo sem olhar o visor. — Sim? — Senhor Montenegro ? — A voz do advogado da família Velasquez estava trêmula, e pesada, algo estava definitivamente errado . — Houve um acidente na estrada... O carro do senhor Velasquez... Meu sangue gelou. — Não faça suspense, diga de uma vez onde ele está ? — Ele... ele não sobreviveu, senhor. Nem ele, nem a esposa, nem a mãe. Foi uma tragédia. O mundo ao meu redor pareceu perder o som. Rafael? O cara que estava rindo comigo há alguns dias ? Um dos meus melhores amigos! — Eu sinto muito — continuou o advogado, sua voz agora mais profissional, embora tensa. — Mas preciso que você venha ao meu escritório agora. O senhor assumiu recentemente a direção da empresa e deixou um testamento com uma cláusula de emergência. E há um assunto pendente, um encargo que ele deixou especificamente no seu nome. Trata-se da irmã dele, Lorena. Você é o único que sobrou. Precisamos discutir o assunto. Desliguei o telefone sem responder. Olhei para a cozinha uma última vez, vendo a silhueta de Helena através do vidro. O destino não me dava trégua. Eu tinha acabado de garantir a vida do filho de Heitor, e agora, o universo jogava o peso de outra família inteira sobre as minhas costas ?. E Helena ainda diz que não tenho nada em comum com o Batman.
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