CAPÍTULO 12: BRINQUEDINHOS

1045 Words
HELENA DUARTE Olhei para Caio, com meu avental amarrado nas costas e as mangas da camisa de mil dólares dobradas, e por um segundo, permiti que minha mente descansasse. Minhas mãos ainda tremiam, e o aperto que dei em sua cintura minutos atrás ainda estava em minha mente. Aquilo não foi um gesto de carinho, foi o instinto de alguém que está se afogando e segura na primeira rocha que encontra pra se salvar. Comemos em silêncio, um silêncio que eu forcei para não ter que estragar o sabor do mingau com o amargor das minhas lembranças. Algo bastante intrigante é que o mingau estava realmente bom, mesmo sentindo o peso da descoberta da adoção esmagando meu peito, o sabor dele ainda me fazia encher os olhos d’agua e a memória de lembranças.. Meu corpo se enrijeceu por um momento ao me lembrar da dor que senti quando mamãe morreu, tudo que eu tinha na poupança foi roubado pelo Rian e eu precisei penhorar as joias da vovó e fingi que fomos roubados pra conseguir pegar o seguro, um truque que se descoberto me mandaria pra cadeia, principalmente porque a joia da vovó eram falsas. Mas agora depois de tudo descubro que o sangue que corre em mim não era o dela, se isso era verdade por que eu sentia que estava morrendo junto com ela no hospital? — Está melhor? — a voz de Caio era baixa, quase cautelosa, como se estivesse entrando na jaula de um animal faminto. — Não sei se “melhor” é a palavra. — Raspei o fundo da tigela. — Só estou... alimentada. Olhei para a cozinha pequena, para as contas atrasadas sobre o balcão e para o vazio que o vício do meu pai deixou naquela casa. Eu não podia ficar ali, mas odiava a ideia de sair. — Não podemos deixar isso aqui — eu disse, levantando-me mecanicamente para pegar uma Tupperware velha, com a tampa levemente manchada, e despejei o resto do mingau. — o que está fazendo? – ele me perguntou segurando a colher no ar — Se eu demorar a voltar, vai atrair bicho. Minha mãe... a mulher que eu achava ser minha mãe, odiava louça suja. – respondi arrumando os pratos pra lavar. Caio me observou lavando os pratos sem dizer nada. Ele não tentou me impedir, o que agradeci internamente, aquele era meu espaço e eu precisava de controle, mesmo que fosse apenas sobre o sabão a esponja e a louça suja. — Helena — ele disse, aproximando-se quando terminei de secar as mãos. — Você não pode ficar aqui sozinha, não assim. Vamos voltar para a mansão, eu cuido de tudo no hospital, e o contrato de trabalho que discutimos... está pronto, e está no meu carro, esperando sua assinatura. A palavra “contrato” caiu como um balde de água gelada. O momento de “humanidade” dele cozinhando mingau evaporou. Ele não era um salvador; era um negociante, e eu naquele momento era a mercadoria, só de imaginar isso minha postura endureceu instantaneamente. — É claro que está. — Peguei minha bolsa e a Tupperware, meu único tesouro daquela noite. — Vamos logo com isso. O trajeto até a mansão foi gélido, o silêncio agora não era de conforto, era de distância. Assim que cruzamos os portões da propriedade Montenegro, o clima mudou ainda mais, estava tão pesado que eu podia jurar que ouvia o carro se arrastando. A porta da frente estava aberta e Gudan esperava na escada com telefone na mão, parecendo ter visto um fantasma. — Senhor! Finalmente! — Gudan gritou antes mesmo de o carro parar totalmente. — A Dona Isabella... houve um acidente... Ela ligou várias vezes, mas não conseguiu falar com você. O celular de Caio, que estava no modo silencioso no console do carro, brilhou outra vez, mas dessa vez ele puxou para ver as notificações perdidas que antes ele estava ignorando. Vi o pânico atingir o rosto dele, um pânico nada silencioso. — Onde ela está?! — Caio saltou do carro, sequer olhando para trás para ver se eu o seguia. Não que eu esperasse por isso, mas não me senti confortável vendo ele trocar de “brinquedo” com tanta facilidade — Já a levamos para o hospital de emergência, senhor. Ela estava gritando de dor... Caio entrou na outra SUV que já estava ligada, saindo em disparada, deixando apenas o rastro de poeira e o som dos pneus fritando no asfalto. Fiquei parada ali, no pátio da mansão que parecia um mausoléu de luxo, segurando meu pote de plástico com resto de mingau. Sentindo uma vontade súbita de rir da minha própria estupidez. Gentil, eu pensei, mas a gentileza dele se curva a qualquer uma que ele queira manter por perto, seja por culpa ou por desejo. Eu era apenas a urgência do momento, enquanto Isabella era o seu dever sagrado. Entrei na casa sem ser convidada por ninguém, sentindo o frio do mármore atravessar meus sapatos velhos. Não ia esperar ele voltar, só fui até a cozinha peguei água e voltei pro mesmo quarto que ele me deu antes, sem me importar com os olhares indiretos que vinham dos cantos da mansão estranhamente silenciosa. Um caderno antigo, um álbum de fotos e algumas roupas, isso foi tudo que me restou da minha vida de antes, mas o que me prendia aqui? Uma dívida de um milhão? O que Caio poderia fazer? Colocar meu nome no Serasa?. Gargalhei com sarcasmo ainda passeando pelo quarto enorme. Mesmo sendo rico, ele não parecia ser um mafioso, que me mataria por uma dívida trivial que ele mesmo se obrigou a cumprir. Sentei-me na escrivaninha admirando as maquiagens e produtos perfeitamente alinhados, como se postos ali para serem usados por mim. —Ele realmente pensou em tudo– murmurei baixinho olhando os rótulos — que fetiche estranho. Abri meu caderno fazendo as anotações de sempre, coisas do dia a dia , contas em aberto, planos pra pagamento, coisas que se ficassem só na minha cabeça, me deixariam maluca de vez. No meio de toda essa bagunça eu só acabei dormindo, graças a Deus por que só ele pra me livrar do drama da família Montenegro quando a cunhada e o titio voltarem.
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