HELENA DUARTE
Caio me conduziu pela suíte leste como se estivesse me apresentando um reino, o quarto era maior que todo o meu antigo apartamento. O cheiro de lençóis novos e chá branco tentava, sem sucesso, acalmar o caos dentro de mim.
— O seu “trabalho” — começou ele, fechando a porta e encarando-me com aquela postura de quem é dono do tempo alheio — começa com a sua recuperação.
Encarei o homem a minha frente, buscando algo que entregasse a loucura que as palavras dele acabavam de demonstrar. Não era possível, ele quer mesmo que eu fique aqui ? Quer que eu viva como uma agregada ?
— Alguma dúvida? – ele perguntou puxando os lençóis da cama como se quisesse que eu voltasse a me deitar.
— sim. O que ouve com meu apartamento, por que não posso ir para lá , como entrou no meu apartamento, e principalmente o que foi fazer lá?
Ele sorriu empolgado
— só isso ?
— por enquanto sim– respondi fria.
— Bem, eu fui até o seu apartamento por que você não ligou pro Gudam e eu vi sua planilha de “gastos” – revirei os olhos com o fato de ele usar meus gestos de aspas para me irritar.
— E eu não ia ligar, o que você ia fazer? Me obrigada a aceitar o trabalho?
— sim. Continuando. Eu quebrei a porta pra conseguir entrar, então você não pode voltar até estar concertado
— arrombou meu apartamento? – gritei sem cerimônia, espantada com a audácia dele.
—Bem, era isso ou deixar você lá dentro desmaiada– ele respondeu sentando na cama
— É, gênio e como sabia que eu estava lá dentro E DESMAIADA ?
O semblante dele fechou, não de ódio, mas de dúvida
— eu não sabia, só supus. Sou bom de suposição
— deve ser brincadeira não é?
—não é! – ele respondeu firme como se fosse o dono da razão — depois disso seu pai foi preso por roubo , seu carro foi devolvido e agora já que disse no hospital que não aceita gentilezas, você contraiu uma dívida de 1.235.693,48 centavos
Deixei o queixo cair de incredulidade, ele quebrou rebocou meu carro, deixou o documento pra retirar o carro mais fácil pro meu pai encontrar, arrombou meu apartamento e agora eu devo pra ele mais de um milhão de reais? Ele cara deve ser maluco.
— Que olhar é esse ? – a voz dele cortou o silêncio. Eu queria dizer que era o olhar de que se eu dissesse o que estava pensando estaria desempregada e com mais de um milhão em dívidas em pouco tempo.
— não é nada, senhor Montenegro, mas posso perguntar o por que desse valor? – perguntei num tom de falsa submissão e sorri vendo-o amolecer.
— Os valores vem do patrocínio do seu irmão, do seu tratamento e do tratamento da sua irmã, da recuperação do seu carro, do concerto do seu apartamento e da fiança do seu pai .
Recuperei o fôlego, fingindo estar bem, mas a verdade é que eu queria estar morta, ao menos seria um milhão e pouco menos endividada
— o almoço será servido as 13:00, se não estiver disposta posso pedir pra para Jaqueline trazer seu almoço no quarto. Se precisar de alguma coisa é só descer a escada e pedir a algum dos funcionários, agora preciso ir – disse se aproximando o suficiente para beijar minha bochecha e sair.
Mas quarenta minutos, foi só o tempo que tive longe do Montenegro de fezes e de todos os problemas que ele disse ter resolvido.
Alguns minutos depois que eu liguei meu celular, enquanto rolava a tela do i********: vendo um vídeo mais útil que o outro, uma ligação de número privado me deixou sem ar.
Meu pai estava na UTI, entre a vida e a morte.
Desci as escadas e sai, ignorando os chamados da empregada que parecia ser velha e gentil demais pra trabalhar naquela mansão enorme.
Quando cheguei ao hospital desesperada com a possibilidade de ter meu pai e minha irmã no mesmo estado, entre a vida e a morte e eu impotente sem nada a fazer.
— ele está acordado, mas o estado dele ainda é crítico – Uma enfermeira finalmente falou depois de eu me identificar —pode vê-lo é o quarto 25 na ala 3. Evite estresse e fale baixo.
Agradeci pela ajuda e me desculpei pelo incômodo e segui o corredor pra procurar o quarto.
Quando o encontrei seus olhos estavam distantes, eles pareciam vagar por um passado distante, mas quando me viram se encheram de raiva e nojo como se eu fosse um monstro e não a filha dele.
— Veio ver o estrago, Helena? — ele cuspiu as palavras, ignorando o curativo no rosto. — cadê o seu dono?
Ele estava falando como se eu tivesse roubado a única chance que ele tinha de salvar a irmã mais nova dele e não o contrário.
— Não. Eu vim ver se você ainda tinha um pingo de humanidade — respondi, sentindo a dor no peito esmagar meu coração.
— Humanidade? — Ele soltou uma gargalhada seca que se transformou em tosse. — você não pode cobrar a humanidade de mim. Você sempre foi o erro da sua mãe, você devia humanidade a ela não a mim . Ela achou que podia cuidar de você, que você seria uma boa pessoa, e no final ela morreu e deixou você aqui. Um cachorro teria sido mais leal e muito mais barato, me arrependo de não ter vendido você aquele homem, que veio te procurar dizendo ser seu tio, eu avisei, eu disse a ela que você era um peso que traria problemas...
O chão pareceu desaparecer sob meus pés. Adotada.
— O que você disse? — minha voz saiu num fio interrompendo a ladainha dele.
— Você não tem o meu sangue, garota. Graças a Deus, nada de mim corre nessas suas veias de c****a egoísta. Você foi um peso que eu carreguei por obrigação. Agora, suma daqui, e avise para o seu ricaço que eu não aceito esmolas e que ele vai pagar por isso.
Saí do quarto em transe. Vendo o corredor do hospital se transformar num túnel sem fim. Eu não chorei na frente dele, não por falta de vontade ,mas por não querer dar a ele esse gostinho. Quando eu cheguei ao meu apartamento, tinha esquecido de Caio e da mansão e de tudo que havia acontecido. Eu era só uma casca vazia com o passado falso, o peito cheio e os olhos pesados. Eu estava cansada mas o pior de tudo eu não sabia mais quem eu era. A dor no meu peito não era física; era como se minha alma estivesse sendo triturada. Senti minha visão escurecer, o ar ficando pesado, o teto girando. A exaustão que a Dra. Victoria avisou, finalmente cobrou seu preço. Eu apaguei antes mesmo de sentir meu corpo atingir o piso frio.
Eu tentei tanto manter minha família de pé, e no final essa nem é minha família.