CAPÍTULO 09: O Sangue que não corre

1189 Words
HELENA DUARTE Caio me conduziu pela suíte leste como se estivesse me apresentando um reino, o quarto era maior que todo o meu antigo apartamento. O cheiro de lençóis novos e chá branco tentava, sem sucesso, acalmar o caos dentro de mim. — O seu “trabalho” — começou ele, fechando a porta e encarando-me com aquela postura de quem é dono do tempo alheio — começa com a sua recuperação. Encarei o homem a minha frente, buscando algo que entregasse a loucura que as palavras dele acabavam de demonstrar. Não era possível, ele quer mesmo que eu fique aqui ? Quer que eu viva como uma agregada ? — Alguma dúvida? – ele perguntou puxando os lençóis da cama como se quisesse que eu voltasse a me deitar. — sim. O que ouve com meu apartamento, por que não posso ir para lá , como entrou no meu apartamento, e principalmente o que foi fazer lá? Ele sorriu empolgado — só isso ? — por enquanto sim– respondi fria. — Bem, eu fui até o seu apartamento por que você não ligou pro Gudam e eu vi sua planilha de “gastos” – revirei os olhos com o fato de ele usar meus gestos de aspas para me irritar. — E eu não ia ligar, o que você ia fazer? Me obrigada a aceitar o trabalho? — sim. Continuando. Eu quebrei a porta pra conseguir entrar, então você não pode voltar até estar concertado — arrombou meu apartamento? – gritei sem cerimônia, espantada com a audácia dele. —Bem, era isso ou deixar você lá dentro desmaiada– ele respondeu sentando na cama — É, gênio e como sabia que eu estava lá dentro E DESMAIADA ? O semblante dele fechou, não de ódio, mas de dúvida — eu não sabia, só supus. Sou bom de suposição — deve ser brincadeira não é? —não é! – ele respondeu firme como se fosse o dono da razão — depois disso seu pai foi preso por roubo , seu carro foi devolvido e agora já que disse no hospital que não aceita gentilezas, você contraiu uma dívida de 1.235.693,48 centavos Deixei o queixo cair de incredulidade, ele quebrou rebocou meu carro, deixou o documento pra retirar o carro mais fácil pro meu pai encontrar, arrombou meu apartamento e agora eu devo pra ele mais de um milhão de reais? Ele cara deve ser maluco. — Que olhar é esse ? – a voz dele cortou o silêncio. Eu queria dizer que era o olhar de que se eu dissesse o que estava pensando estaria desempregada e com mais de um milhão em dívidas em pouco tempo. — não é nada, senhor Montenegro, mas posso perguntar o por que desse valor? – perguntei num tom de falsa submissão e sorri vendo-o amolecer. — Os valores vem do patrocínio do seu irmão, do seu tratamento e do tratamento da sua irmã, da recuperação do seu carro, do concerto do seu apartamento e da fiança do seu pai . Recuperei o fôlego, fingindo estar bem, mas a verdade é que eu queria estar morta, ao menos seria um milhão e pouco menos endividada — o almoço será servido as 13:00, se não estiver disposta posso pedir pra para Jaqueline trazer seu almoço no quarto. Se precisar de alguma coisa é só descer a escada e pedir a algum dos funcionários, agora preciso ir – disse se aproximando o suficiente para beijar minha bochecha e sair. Mas quarenta minutos, foi só o tempo que tive longe do Montenegro de fezes e de todos os problemas que ele disse ter resolvido. Alguns minutos depois que eu liguei meu celular, enquanto rolava a tela do i********: vendo um vídeo mais útil que o outro, uma ligação de número privado me deixou sem ar. Meu pai estava na UTI, entre a vida e a morte. Desci as escadas e sai, ignorando os chamados da empregada que parecia ser velha e gentil demais pra trabalhar naquela mansão enorme. Quando cheguei ao hospital desesperada com a possibilidade de ter meu pai e minha irmã no mesmo estado, entre a vida e a morte e eu impotente sem nada a fazer. — ele está acordado, mas o estado dele ainda é crítico – Uma enfermeira finalmente falou depois de eu me identificar —pode vê-lo é o quarto 25 na ala 3. Evite estresse e fale baixo. Agradeci pela ajuda e me desculpei pelo incômodo e segui o corredor pra procurar o quarto. Quando o encontrei seus olhos estavam distantes, eles pareciam vagar por um passado distante, mas quando me viram se encheram de raiva e nojo como se eu fosse um monstro e não a filha dele. — Veio ver o estrago, Helena? — ele cuspiu as palavras, ignorando o curativo no rosto. — cadê o seu dono? Ele estava falando como se eu tivesse roubado a única chance que ele tinha de salvar a irmã mais nova dele e não o contrário. — Não. Eu vim ver se você ainda tinha um pingo de humanidade — respondi, sentindo a dor no peito esmagar meu coração. — Humanidade? — Ele soltou uma gargalhada seca que se transformou em tosse. — você não pode cobrar a humanidade de mim. Você sempre foi o erro da sua mãe, você devia humanidade a ela não a mim . Ela achou que podia cuidar de você, que você seria uma boa pessoa, e no final ela morreu e deixou você aqui. Um cachorro teria sido mais leal e muito mais barato, me arrependo de não ter vendido você aquele homem, que veio te procurar dizendo ser seu tio, eu avisei, eu disse a ela que você era um peso que traria problemas... O chão pareceu desaparecer sob meus pés. Adotada. — O que você disse? — minha voz saiu num fio interrompendo a ladainha dele. — Você não tem o meu sangue, garota. Graças a Deus, nada de mim corre nessas suas veias de c****a egoísta. Você foi um peso que eu carreguei por obrigação. Agora, suma daqui, e avise para o seu ricaço que eu não aceito esmolas e que ele vai pagar por isso. Saí do quarto em transe. Vendo o corredor do hospital se transformar num túnel sem fim. Eu não chorei na frente dele, não por falta de vontade ,mas por não querer dar a ele esse gostinho. Quando eu cheguei ao meu apartamento, tinha esquecido de Caio e da mansão e de tudo que havia acontecido. Eu era só uma casca vazia com o passado falso, o peito cheio e os olhos pesados. Eu estava cansada mas o pior de tudo eu não sabia mais quem eu era. A dor no meu peito não era física; era como se minha alma estivesse sendo triturada. Senti minha visão escurecer, o ar ficando pesado, o teto girando. A exaustão que a Dra. Victoria avisou, finalmente cobrou seu preço. Eu apaguei antes mesmo de sentir meu corpo atingir o piso frio. Eu tentei tanto manter minha família de pé, e no final essa nem é minha família.
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