HELENA DUARTE
Dois dias sendo tratada como um ser humano. Era um contraste horrível com o que eu estava acostumada. É incrível o que o dinheiro faz, até a dignidade e os direitos básicos de alguém podem ser comprados. Fechei meu olhos e me recostei na poltrona lembrando de quando eu era enfermeira no hospital público, vi tanta coisa que preferiria ser cega a rever a mesma cena outra vez.
— Senhorita – uma voz calma me tirou das lembranças embaçadas — o seu motorista pediu pra avisar que já está pronto.
Meu motorista ? Pensei olhando pela enorme janela de vidro a minha frente
— obrigada – respondi a mulher na minha frente enquanto ela me olhava com um semblante satisfeito.
O carro que me buscara no hospital não era o meu Fiat Mobi recuperado. Era uma SUV preta, blindada, com cheiro de couro novo e um motor tão silencioso que parecia que estávamos flutuando sobre o asfalto. Olhei pela janela, vendo os bairros que eu conhecia sumirem, substituídos por condomínios onde os muros eram cobertos por cercas elétricas camufladas em jardins perfeitos.
— me desculpe senhor, mas para onde está me levando? – perguntei ao motorista que dirigia tão sério que parecia mais um robô do que um humano.
— estamos indo para a mansão Montenegro senhorita. – ele responde sem desviar o olhar do trânsito
— E por que ? – insisti, tentando ter controle da minha vida de volta.
— Eu recebo ordens, me desculpe eu não sei como responder a isso.
Encarei um retrovisor por um momento sentindo o peso no meu peito aumentar a cada segundo.
— A propósito, meu nome é Lucas. O senhor Montenegro me designou como motorista para a senhora até que termine os medicamentos que a DR. Victoria receitou.
Eu apenas assenti, não queria fazer perguntas agora afinal ele não saberia “responder a isso”
— Chegamos, senhorita Duarte — o motorista, Lucas, disse com uma neutralidade que me irritava.
O portão de ferro fundido se abriu como as mandíbulas de uma fera faminta. A mansão Montenegro não era uma casa; era um monumento ao ego de Caio. Vidro, pedra escura e luzes estrategicamente posicionadas para intimidar qualquer um que não pertencesse àquele mundo.
— Aquilo é uma fonte – perguntei a Lucas enquanto encarava a queda d’agua.
—Sim – ele respondeu sem olhar — É uma fonte estilo cascata , a senhorita gosta?
Gargalhei ouvindo a pergunta ingênua dele
— o mais próximo que cheguei de uma cascata, foi no primeiro ano do ensino médio quando o tento da minha avó caiu e ela deixou a gente tomar banho de chuva.
Vi o canto da boca de Lucas subir, tentando prender o riso.
— Temos duas na mansão, a senhorita pode ir ver depois – ele falou ainda sorrindo.
Eu assenti, apertando a alça da minha bolsa que parecia um lixo perto daquele mármore e finalmente desci. Minhas pernas ainda estavam um pouco trêmulas, mas meu queixo estava erguido. Se eu ia ser a “posse” de Caio, ele teria que lidar com uma posse que não baixava a cabeça.
— Seja bem-vinda à sua nova residência — a voz de Caio ecoou do topo da escadaria.
Ele estava lá? Perdeu o precioso tempo Montenegro dele só pra me recepcionar?
— Eu já tenho uma casa– respondi calma, mas firme
Ele desceu os degraus e parou na minha frente, diminuindo a distância até eu sentir o calor do seu corpo.
— É, mas aqui é mais seguro
Me afastei, enquanto o oceano de perguntas e segredos naufragavam naqueles olhos tempestuosos.
— Gostou? — ele perguntou, um sorriso de canto parecendo notar minha confusão e provocando minha paciência.
— A casa ? É eu gostei sim, ela é grande o suficiente para eu nunca ter que esbarrar em você? — respondi, vendo a faísca de diversão nos olhos dele.
— Infelizmente para você, Helena, esta casa foi feita para que eu tenha tudo o que eu quero sob os meus olhos.
— então tem uma câmera no meu quarto? – perguntei com deboche
— uma ?– ele respondeu sorrindo, fazendo minha espinha congelar
— Meu Deus, você e a cara do Mani
— Mani ? – ele respondeu curvando os lábios num sorriso sarcástico com covinhas que enterravam qualquer um.
— Maníaco do parque. Pode me explicar o que ouve com meu apartamento?
Ele gargalhou sacudindo a cabeça, como se eu fosse um bobo da corte. Pensei em exigir explicações, mas um som de saltos batendo no chão de porcelanato interrompeu o momento. Uma mulher surgiu das sombras do corredor principal. Ela era a definição de “perfeição plástica”: cabelos impecáveis, um vestido que custava o meu antigo salário anual e um olhar que, se pudesse, me incineraria ali mesmo.
— Caio, querido, você não disse que traria... visitas — a voz dela era doce, mas carregada de veneno.
— Isabela — Caio respondeu, e notei que a voz dele ficou instantaneamente fria, quase mecânica. — Esta é Helena Duarte. Ela ficará conosco por tempo indeterminado. Helena, esta é Isabela, a viúva do meu irmão.
O ar entre nós três ficou denso. Isabela se aproximou, me medindo de cima a baixo com um desprezo que ela nem tentava esconder. Ela parou ao lado de Caio, encostando o braço no dele com uma i********e que me deu náuseas.
— Uma protegida? — Isabela deu uma risadinha afetada. — Que caridade interessante, Caio. Ela parece... cansada. Precisa de um banho e, talvez, de roupas que não tenham sido compradas em liquidações de bairro.
Senti o sangue ferver. A submissão que eu tinha planejado no hospital desapareceu. Se essa mulher achava que eu era uma presa fácil, ela estava muito enganada.
— O cansaço passa com uma noite de sono, Isabela — respondi, dando um passo à frente, invadindo o espaço dela. — Já a falta de educação e a soberba... bem, é nítido que nem o dinheiro do Caio consegue consertar isso.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Isabela arregalou os olhos, chocada com a minha audácia. Caio, para minha surpresa, não me repreendeu. Pelo contrário, vi o canto de sua boca tremer. Ele estava segurando o riso.
— Helena será instalada na suíte leste — Caio interrompeu, cortando a tensão. — Isabela, creio que você tenha compromissos. Helena, venha. Vou te mostrar onde você vai dormir... e onde começaremos a discutir os termos do seu novo “trabalho”.
Enquanto eu subia as escadas atrás dele, senti o olhar de Isabela queimando nas minhas costas. Eu tinha acabado de ganhar uma inimiga poderosa, mas, ao olhar para a largura dos ombros de Caio à minha frente, percebi algo pior, o perigo tinha dois metros ou quase, um cheiro amadeirado muito bom e mais dinheiro do que eu pensei. Ele tinha muita semelhança com o Batman.