CAPÍTULO 07 : REVIRAVOLTAS

1069 Words
Helena Duarte A claridade feriu meus olhos antes mesmo de eu conseguir abri-los. O cheiro não era do meu apartamento mofado, nem do café barato que eu costumava deixar queimar. Era um cheiro limpo, caro, quase impessoal. — O quê... O que aconteceu? — Tentei falar, mesmo com a garganta seca. Tentei me sentar, mas o mundo girou, tão rápido que eu só consegui ceder ao meu cansaço, e uma mão forte segurou meu ombro com uma delicadeza que não combinava com o homem que eu via. Meus olhos tentaram se focar na figura a minha frente . Caio Montenegro estava de pé, na minha frente. Ele não usava o paletó, as mangas da camisa branca estavam dobradas e o cabelo, sempre impecável, parecia bagunçado por dedos ansiosos. — Você desmaiou, Helena. Exaustão física e emocional — ele disse, com a voz baixa, vibrando perto do meu rosto. — Mas agora você está segura. Está tudo resolvido. Resolvido. A palavra ecoou na minha mente enquanto as memórias voltavam como lâminas. A demissão. O hospital. O e-mail do DETRAN. Meu pai. A Lívia... — Minha irmã! — Tentei arrancar o acesso do meu braço, o pânico subindo pela garganta. — Eu preciso ir agora, o hospital... eles vão desligar os aparelhos, eu não tenho o dinheiro, Caio, eu... Tenho que ir... — Shhh... Para. — Ele segurou meu rosto com as duas mãos, me forçando a encarar aquele cinza tempestuoso dos seus olhos. — A conta da Lívia está paga. Ela tem os melhores especialistas do país agora. Seu irmão conseguiu o patrocínio na Espanha. E seu carro? Está na sua garagem. Eu paralisei. O ar parecia ter sumido do quarto que só agora eu percebi que era de luxo. — O quê? — sussurrei, sentindo um frio que não vinha do ar-condicionado. — Como você... Foi você? — Você vai saber de tudo, eu só preciso que você descanse agora, como eu já disse, eu já resolvi. Olhei para o luxo ao meu redor, para a agulha no meu braço, para o homem que me olhava como se tivesse acabado de me comprar em um leilão. — O que é meu ? — A raiva começou a substituir o medo, aquecendo meu sangue. — Você mandou rebocar meu carro por causa de uma vaga de estacionamento. Por causa disso, eu me atrasei no trabalho, o que provavelmente foi a causa da minha demissão, depois minha irmã piorou e meu carro desapareceu. Você não pode destruir minha vida de manhã e reconstruí-la à noite com um cheque. — Eu recuperei tudo! — ele retrucou, a mandíbula travando. — Você não tem mais dívidas. Não tem mais preocupações. — Eu tenho você! — gritei, e minha voz ecoou nas paredes de mármore. — E isso é a maior preocupação de todas. Você não me salvou, Caio. Você só me trocou de cela. O olhar dele escureceu. A esperança que vi no rosto dele segundos atrás foi substituída por uma incredulidade e possessividade crua. Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu, o hálito de menta e café me envolvendo. — Ele acariciou meu lábio inferior com o polegar, um toque que me fez estremecer de ódio, eu acho. — Você tem duas opções, deixar o seu orgulho matar a sua irmã e o sonho do seu irmão ou aceitar o meu favor. Eu queria cuspir no rosto dele. Mas, no fundo, o som do monitor cardíaco ao lado da cama marcava o ritmo da minha derrota. Tique-taque. Ele tinha me vencido. — O que você quer de mim? — perguntei, as lágrimas de frustração finalmente caindo. Ele deu um sorriso de canto, lento e predatório. — Eu quero tudo, Helena. Mas por enquanto... eu só quero que você coma e descanse, não quero uma morta trabalhando na holding. Ele se afastou, deixando apenas o rastro do seu perfume caro e da arrogância na qual o mundo dele orbitava. Ouvi o som da porta se fechando e, por um momento, o silêncio do quarto de luxo pareceu me esmagar. — riquinho i****a – murmurei apertando o lençol da cama até os nós dos meus dedos ficarem brancos. Uma enfermeira entrou logo em seguida, trazendo uma bandeja com comida que cheirava melhor do que qualquer coisa que eu tivesse comido nos últimos dias. Meus dedos tremeram ao segurar os talheres e cada garfada tinha o gosto amargo da minha dignidade sendo engolida, mas eu continuei. Aquele i****a tinha razão, eu precisava de forças agora, mesmo que ele tenha pagado minhas dívidas, eu não me daria ao luxo de parar agora. Olhei para a janela imensa que dava vista para a cidade e lá fora, o mundo continuava girando, indiferente ao fato de que Helena Duarte tinha acabado de ser vendida para o d***o ou para o secretário dele. “Não quero uma morta trabalhando na holding” ele disse. Então é isso, aquele i****a me quer como uma boneca de luxo que bata metas e enfeite seus corredores. Ele acha que comprou meu silêncio e minha gratidão com uma assinatura em um cheque. Limpei uma lágrima solitária que teimava em cair e encarei meu reflexo pálido na tela desligada da TV à minha frente. Caio Montenegro agia como se o dinheiro fosse a única força do universo. E, olhando para a pulseira de identificação no meu pulso — um hospital que eu nunca poderia pagar, salvando a vida que eu não podia perder — eu percebi que ele tinha razão. Se o poder é o que rege esse mundo podre, se o dinheiro é o que mantém o coração da Lívia batendo e o futuro do meu irmão seguro, então eu não vou mais lutar contra ele. Eu vou aprender a usá-lo. Eu entrei naquele quarto como uma prisioneira, mas vou sair dele como uma jogadora. Caio quer “tudo”? Pois ele terá. Mas o preço que ele vai pagar por mim será muito maior do que quinze mil reais ou um carro popular recuperado. Eu ia descobrir cada segredo por trás daqueles olhos cinzentos. E, quando eu tivesse o que precisava, o “Superman” descobriria que não se coloca uma mulher ferida em uma gaiola de ouro sem esperar que ela aprenda a usar as barras como armas. Deitei-me novamente, sentindo o efeito dos remédios me puxarem para um sono sem sonhos. Tique-taque, Caio. O jogo m*l começou.
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