Caio Montenegro
Eu queria arrancar aquela porta, queria ver se ela estava bem, queria me desculpar pelo trabalho e pelo carro dela, eu queria ela.
Bati uma, duas, três vezes, mas o silêncio que veio do outro lado daquela porta de madeira descascada era mais ensurdecedor que um tiro.
— Helena! Abre a p***a da porta! — Minha voz ecoou pelo corredor estreito, mas apenas o eco me respondeu.
O pânico, um sentimento que eu não experimentava há décadas, subiu como ácido pelo meu estômago. Eu sabia. Eu sentia no meu sangue que algo estava errado. O relatório do Gudan, a demissão, o pai viciado... as peças se encaixaram de um jeito macabro na minha mente.
Não esperei mais um segundo. Recuei um passo e joguei todo o peso do meu corpo contra a porta. A madeira rangeu, mas não cedeu, no segundo impacto, o som de algo se partindo preencheu o corredor, e no o terceiro, a fechadura finalmente rompeu .
O apartamento estava na penumbra, mas eu a vi imediatamente.
— Helena! — O nome dela saiu como um engasgo.
Ela estava caída perto do sofá, o corpo pequeno encolhido contra o chão frio. Aquela mulher que, um dia atrás, me enfrentava com o fogo de mil sóis, agora parecia uma boneca de porcelana quebrada.
Caí de joelhos ao lado dela, minhas mãos tremendo eu, Caio Montenegro, tremendo enquanto buscava o pulso no pescoço dela. Estava lá. Fraco, rápido, como um pássaro morrendo.
— Acorda, Helena... Por favor, acorda.
Puxei-a para o meu colo, sentindo como ela estava gelada. A culpa me atingiu como um soco. Eu queria que ela estivesse em minhas mãos, mas não assim. Não morta por dentro.
— Me perdoa, Helena... Eu vou resolver isso. Eu juro. — Sussurrei contra o topo da cabeça dela, sentindo um aperto no peito que eu nem sabia que era capaz de sentir.
Apertei-a contra mim, e o cheiro de Quinoa dela agora misturado ao frio do desespero, fazia eu me sentir fraco... vazio . Se eu perdesse aquela mulher antes mesmo de tê-la, eu mataria todos os responsáveis por machuca-la, inclusive eu.
Levantei-me com ela nos braços, ignorando o peso, ignorando a vizinha curiosa que apareceu na porta, ignorando os olhares indiscretos ao redor.
— Lucas! — gritei ao sair do prédio, a voz rouca de autoridade e medo. — Direto para o São Caetano! Ligue para o diretor, eu quero a melhor suíte, os melhores médicos e a DR. Victoria esperando na porta. Se alguém me atrasar, eu passo por cima!
Entrei na SUV, mantendo-a protegida contra o meu peito durante todo o trajeto. Olhando para o rosto pálido de Helena, entendi que o jogo de poder tinha acabado. Eu não a queria rastejando. Eu a queria viva. E eu destruiria qualquer um — incluindo eu mesmo — que tentasse tirar o brilho daqueles olhos castanhos novamente.
O caminho até o Hospital passou como um borrão branco. O peso de Helena em meus braços era a única coisa que me impedia de desmoronar ali.
Quando a Dra. Victoria apareceu com a maca, meus dedos travaram na camiseta dela. Eu não queria soltá-la. O som das rodas metálicas batendo no piso de granito disparou um gatilho na minha mente.
Bip. Bip. Bip.
Subitamente, eu não estava mais em 2026. O cheiro de antisséptico me jogou de volta para o dia em que Heitor parou de respirar. A mesma impotência. O mesmo frio. Eu tinha todo o dinheiro do mundo naquela época também, e ele não serviu para comprar um único sopro de vida para o meu irmão.
— Senhor Montenegro, precisa soltá-la agora. Vamos estabilizá-la — a voz de Victoria era firme, mas parecia vir debaixo d’água.
Eu recuei, minhas mãos vazias formigando. O vazio no meu peito agora era uma cratera.
Caminhei até a vidraça da sala de espera privada, observando a cidade lá embaixo. Eu era o rei daquela p***a toda, mas me sentia um lixo. Peguei o celular com uma sede de destruição que me assustou.
— Gudan — minha voz estava tão fria que poderia congelar o inferno. — O comprador do carro. Não me interessa quanto custe, eu quero o carro na garagem da Helena antes do sol nascer. E o pai...
Apertei o aparelho com tanta força que o vidro rangeu.
— Traga o pai para mim. Mas não o machuque ainda. Quero que ele sinta o peso da dívida antes de cobrar os juros. Ele será o milagre da próxima reabilitação.
Desliguei. E meus dedos voaram pelo teclado, enquanto eu contava o financeiro pessoalmente . Agora as despesas da UTI de Lívia? Quitadas em um clique. O patrocínio para o clube espanhol onde o irmão parasita dela mendigava uma chance? Assinado e enviado.
Eu estava comprando o mundo dela de volta, peça por peça. Não era generosidade. Era desespero, era um cálculo frenético para equilibrar uma balança que eu mesmo ajudei a quebrar. Se eu pudesse consertar a vida dela, talvez a sombra de Heitor parasse de me olhar com julgamento nos cantos escuros da minha mente, ou eu pudesse me sentir mais humano.
Voltei para o quarto dela assim que Victoria autorizou. Helena estava pálida contra os lençóis de algodão egípcio, uma agulha de soro cravada na veia azulada do braço fino.
Puxei a cadeira e me sentei ao lado dela. Não por cinco minutos, mas por horas.
Eu a estudei, desde a curva do nariz, o modo como os cílios descansavam na pele até o jeito que seu cabelo preso desenhava seu rosto fino e delicado . Senti um desejo possessivo e doentio de trancá-la em uma gaiola de ouro onde nada, nem o pai, nem a pobreza, nem a empatia auto destrutiva pudesse tocá-la.
— Acorda, Helena — sussurrei, roçando os nós dos meus dedos na bochecha dela. — Acorda para que eu possa odiar o seu sarcasmo de novo. Porque esse silêncio está me matando.
Eu tinha esperança. Pela primeira vez em anos, eu sentia que podia salvar alguém. Eu tinha consertado tudo, não tinha? O carro, o hospital, o irmão... o caminho estava limpo.
Ela não tinha mais que se afogar nesse oceano de problemas.
E quando ela acordar vai estar tudo aqui, tudo no seu devido lugar de onde não deviam ter saído.
— O quê... O que aconteceu? – a voz fina e assustada dela fez meu coração pular no peito.