Caio Montenegro
Eu estava na holding às 10:24 da manhã quando meu celular tocou e a voz embargada de Isabella invadiu meus ouvidos fazendo cada um dos meus sentidos aguçar.
— o que aconteceu ? – perguntei irritado
— Venderam meu vestido, o vestido que eu escolhi para o chá de bebê – ela tentava falar enquanto soluçava.
— eu vou resolver isso, vá pra casa e descanse – respondi irritado, enquanto discava o número de Gudan no telefone ao meu lado.
— A loja Lume Rara no shopping Sul, quero de descubra quem vendeu o vestido reservado da Isabella lima e demita, se não encontrar o autor demita todos na loja e encontre o vestido para ela.
— Farei isso — ele respondeu passivo
— Ela ligou ? — perguntei sem demonstrar meu real interesse
— Não senhor. – ele respondeu rápido, parecendo saber exatamente o que eu queria.
— tudo bem, quero que me avise de qualquer mudança.
— sim senhor.
Quando desliguei o celular eu só conseguia imaginar que ao ouvir Isabella chorar meu coração parecia um furacão, mas só a lembrança daquela pobretona me deixou mais calmo, o que será que ela tem? O que a faz tão ela ? Será que é o sorrisinho de canto, o sarcasmo ou o ódio nítido nos olhos dela? A, eu gostaria de entender ela, e de ter ela pra mim.
– pensei suspirando pesadamente
— senhor — Chamou Anita com o braço esticado me entregando documentos — me perdoe, eu bati alguma vezes e o senhor não respondeu, eu só vim trazer esses relatórios e avisar que alguns dos executivos da Dreams company a agência de modelos já chegaram para a reunião das 11:00. O senhor gostaria de atendê-los ou podemos levá-los à sala de reuniões?
— Eu irei até eles, obrigada por avisar Anita.
— É um prazer ajudar senhor, se me dá licença – ela respondeu girando sobre os calcanhares para sair.
Ajeitei o terno, caminhando até a porta ainda pensando no cheiro de Quinoa que ela usava. Eu estava pensando demais naquela pobretona e isso era um problema.
Quase 15:30 da tarde e nenhuma novidade, Gudan nunca esquece nada que eu peço, isso significa que ela não ligou mesmo. Pobretona geniosa, vai passar fome com esse monte de dívidas e um salário mínimo .
— caio Montenegro – Uma voz conhecida cortou o silêncio
— Rafael Velasquez – respondi alegre em ver meu amigo de tanto tempo de volta ao país.— o que faz na cidade ?
— além dos surtos de saudades da minha mãe ? – ele respondeu com um tom zombeteiro — Vim acompanhar minha nova esposa aos exames pré natais. E aproveitar pra comer e beber de graça no melhor hotel da cidade.
Gargalhamos juntos, com a ironia de ele ser o dono dos melhores hotéis da cidade. Rafael não era filho único, mas era o único livre. O único que nunca traficou, roubou, ou foi cúmplice em algo ilícito, e além de tudo era meu amigo, meu melhor amigo.
— Vou ficar na cidade até a semana que vem, vou ligar pra sairmos juntos – ele falou olhando interessado para o celular — tenho que ir, a patroa terminou
— tudo bem – assenti feliz em vê-lo, tentando disfarçar o aperto no peito que senti naquele momento como se algo r**m estivesse acontecendo.
— senhor
— pode falar Anita – respondi frio
— Gudan na linha senhor, disse que é urgente.
— obrigada Anita, pode passar – respondi apressado — Gudan!
— Caio – ele falou calmo, mas com o tom sério, usar o telefone da holding pra falar comigo tendo meu telefone pessoal e me chamar pelo nome eram dois presságios de problemas, depois de muito tempo trabalhando com Gundan eu sabia isso de cór. — eu fiz o que o senhor pediu, demiti a responsável por vender o vestido que a senhorita Isabela gostou, mas – ele parou um instante como se buscasse palavras — a responsável era coincidentemente a senhorita Duarte.– meu coração acelerou, eu chamo ela de pobretona, e ela é, mas depois eu tiro o trabalho dela? O único que ela tem pra pagar o plano de saúde da irmã ? — senhor, está aí ?– Gudan me tirou dos meus pensamentos de culpa. — Eu quis saber por que ela não ligou e pelo que entendi no hospital a irmã dela piorou e o plano não cobre as novas despesas, além disso o carro da senhorita, foi retirado do pátio mais cedo pelo pai dela, e ele mesmo o vendeu para um homem. Mas senhor, no relatório que mandei pro senhor o pai dela...
— eu entendi Gudan, vou resolver isso agora, obrigado pelo trabalho, por hj é só.
— sim senhor, se precisar estarei aqui.
Levantei-me, ignorando os documentos sobre a mesa. Eu tinha razão em pensar que algo r**m estava acontecendo. Helena não ia ligar. No estado em que estava, ela provavelmente estava desmoronando em algum lugar frio, longe do meu alcance.
— Anita! — chamei, minha voz saindo como um trovão.
— Sim, senhor? — ela apareceu na porta, assustada.
— Cancele o resto da minha agenda. Pegue o endereço da residência de Helena Duarte e peça para o motorista preparar o carro. Agora!
Eu disse que ela rastejaria. Mas, pela primeira vez na vida, eu estava torcendo para estar errado. Maldição. Eu queria que ela precisasse de mim, não que ela ficasse sem oxigênio.
A cada farol vermelho, cada perda de tempo, minha raiva e preocupação aumentavam mais, eu torcia pra que ela estivesse bem, sendo pai dela ou não, se aquele viciado tocar num fio de cabelo da minha Helena, eu vou garantir que pelo resto de sua vida ele sofra.
Eu não pensava em nada quando subi as escadas do prédio, só em vê-la bem, mas ela não abriu a porta.
—p***a, abre a porta pobretona. Pode gritar, só abre a porta– murmurei tentando forçar a maçaneta.