Helena Duarte
— Você não pode estar falando sério! Será que você tem noção do que está fazendo?! — Minha voz rasgou o ar úmido do estacionamento do hospital, mas o policial sequer me olhava nos olhos, ele só encarava o bloco escrevendo algo que era irrelevante ou indiferente ao meu mundo desmoronando naquele momento.
— A senhora estacionou em vaga reservada para pacientes preferenciais e para a diretoria, e o dono da vaga acionou o guincho.
— Minha irmã está lá dentro morrendo! — Gritei, sentindo o rosto arder. — Eu não tinha tempo para procurar vaga, senhor, o estado dela se agravou ontem ! Qual é, isso é um Celta velho, senhor, eu não vou morar nessa vaga.
— não faço as leis senhora, eu só cumpro elas e...
— Eu sei disso, mas eu era enfermeira aqui, isso não conta ?
—não ! — ele respondeu com uma expressão de tédio — pode retirar o carro amanhã, mas tem que pagar a multa e a diária do pátio passar bem.
Minhas mãos tremiam tanto que eu m*l conseguia segurar o papel fino que ele me entregava, eu estava exausta. O emprego na loja de roupas estava por um fio porque eu faltava para ficar no hospital, Matheus tinha usado o pouco dinheiro que restava e meu pai... bom, meu pai era apenas uma sombra viciada em jogos e bebida barata.
— Por favor, moço, por favor, eu não posso pagar isso – implorei com os olhos cheios d’água e raiva.
— Ordem é ordem, moça, o responsável pela vaga exigiu a retirada imediata, e eu não posso perder meu emprego pra te ajudar.
— Quem?! — Eu olhei em volta, procurando o monstro que se preocupava mais com uma vaga de estacionamento do que com uma emergência médica. — Quem é o covarde que não pode estacionar dez metros adiante enquanto eu tento salvar a vida da minha irmã?
Num timer perfeito, ele apareceu saindo pelas portas de vidro automáticas, caminhava como se o chão pertencesse a ele, com seu terno escuro, sob medida e cada fio de cabelo no lugar, ele não parecia um ser humano; parecia uma escultura de gelo sob o sol. Ao lado dele, uma mulher loira, com o rosto pálido e mãos protetoras sobre o ventre, caminhava como se estivesse prestes a quebrar.
O olhar dele se cruzou com o meu. Eram olhos de tempestade, cinzentos e desprovidos de qualquer empatia.
— É ele? — Perguntei ao guarda, sentindo o ódio borbulhar ainda mais forte dentro de mim — O dono da vaga?
O guarda não respondeu, mas a postura dele ficou rígida como se fizesse uma saudação. Avancei em direção ao homem de terno antes que ele pudesse entrar na SUV blindada que o esperava.
— Ei! Você! — Gritei.
Ele parou, o movimento da sua cabeça foi calculado e lento, enquanto o olhar dele subia das minhas roupas baratas até os meus olhos marejados com uma lentidão insultuosa.
— Você mandou guinchar o meu carro? — Minha voz falhou, mas eu a recuperei com fúria. — Você tem ideia do que acabou de fazer ?.
Ele não se moveu, mas mulher ao lado dele, fez um som de desdém, escondendo o rosto no ombro dele.
— Caio, querido, eu não me sinto bem... essa confusão toda... — ela sussurrou — podemos ir, por favor – a voz doce e letal
O homem finalmente falou. A voz dele era um barítono profundo, que vibrava no meu peito, mas era fria como o metal de uma arma.
— A vaga é privada. As regras existem para serem seguidas, não para serem discutidas por quem não tem educação.
— Educação? — Eu ri, uma risada histérica. — Aqui é um hospital, você é cego ou só finge que não enxerga? Eu estou falando de salvar vidas e você quer falar sobre etiqueta de estacionamento? – Eu falei avançando um passo, mas os seguranças dele apareceram do nada, criando uma barreira. Ele não se abalou, mas me estudou por um segundo a mais um segundo que pareceu uma eternidade e eu vi algo brilhar naqueles olhos frios.
— Termine o que começou — ele disse ao guarda, sem desviar os olhos de mim. — E certifique-se de que o carro saia daqui agora.
Ele abriu a porta para a mulher ao lado dele, subindo os vidros escuros, que apagaram sua imagem, mas que deixaram seu rastro de poder e arrogância no ar.
Eu fiquei ali, no meio do estacionamento, vendo meu único bem ser levado por um guincho, enquanto o som do monitor cardíaco da minha irmã parecia ecoar na minha cabeça. Eu não sabia quem ele era, provavelmente só mais um rico desgraçado s*******o da vida real alheia.
Voltei-me à porta do hospital, pra tentar encontrar um carregador e chamar um Uber, já que meu celular estava descarregado, combinando comigo eu estava exausta depois da noite de ontem.