CAIO MONTENEGRO
Eu deveria estar em um jantar de negócios ou revisando as contas da holding, mas estava na cozinha tentando explicar para a cozinheira a nova dieta da Isabella.
Minha cabeça estava a mil desde o encontro com aquela mulher no estacionamento do hospital hoje. O relatório que pedi a Gudan estava na mesa do meu escritório, tudo sobre a garota histérica e linda de mais cedo.
— Senhor Montenegro, precisa de ajuda com mais alguma coisa?
— Não Rita – respondi cansado, abrindo o envelope com expectativa cega.
Helena Duarte Novais, 22 anos, enfermeira no hospital são Caetano.
Mãe: Daiana Novais Duarte
Pai: Victor Gomes Duarte, viciado em jogos
Irmão: Nicolas Duarte Novais, começando a carreira de jogador de futebol na Espanha.
Irmã: Lívia Duarte Novais, morrendo em uma cama de um hospital depois de ser agredida pelo ex namorado.
A senhorita Duarte acumula dívidas incontáveis e recentemente, adquiriu uma nova por minha causa. – murmurei esfregando as têmporas. Eu deveria deixar isso morrer, como todos os outros problemas insignificantes que tropeçavam no bem estar de Isabella e não se levantam mais.
Mas o jeito que ela me olhou... ninguém me olhava com aquela coragem suicida há muito tempo, ela tinha desdém na voz, raiva nos olhos, e não tinha papa na língua. Não era pelo desafio dela, ela por algo nela, ela parecia um anjo.
—Merda– praguejei enquanto saia do quarto, ajustando a camisa, pensando em como aquela garota pobretona teve a coragem de me enfrentar, mas pensando também que eu faria o mesmo ou pior pra salvar o meu irmão.
Entrei no carro procurando no GPS o endereço daquela mulher histérica.
— Essa garota tinha que morar no fim do mundo? – perguntei desinteressado
Subi as escadas estreitas do prédio de subúrbio, que estava quase caindo aos pedaços enquanto o som dos meus sapatos italianos ecoavam como uma contagem regressiva no chão que eu não sabia se estava sujo ou se era só velho . Quando parei diante da porta do 402, pude ouvir o som de teclas sendo batidas com força lá dentro. Bati três vezes.
Quando a porta se abriu, o cheiro de álcool misturado com baunilha me atingiu. Ela não estava com a armadura que usou no hospital. Dessa vez o cabelo dela estava preso em um coque desfeito, o rosto estava vermelho e os olhos... eles estavam brilhando por causa da bebida, mas ainda eram afiados, eu não quis reparar naquele baby doll amarelo, marcando as curvas dela, mas era impossível não apreciar.
— Você? — Ela soluçou levemente, segurando o batente da porta como se fosse uma arma. — Veio ver se eu tenho o aluguel para você e o seu guarda “rebocarem?”– ela falou devagar gesticulando aspas no ar.
—Senhorita Duarte, boa noite – respondi dando um passo para dentro, obrigando-a a recuar. O apartamento era minúsculo, mas organizado de uma forma maníaca. Na mesa, um notebook antigo e dezenas de folhas de papel com cálculos feitos à mão deixavam claro o motivo da histeria dela.
— Vim devolver o seu carro — eu disse, minha voz soando profunda naquele espaço pequeno. Estendi a mão com as chaves do Celta e o comprovante de liberação do pátio. — E pedir desculpas pelo transtorno.
Ela olhou para as chaves e depois para mim, sem estender a mão. Em vez disso, ela deu uma risada amarga e voltou para a mesa, pegando uma caneca.
— Desculpas? Um homem como você não pede desculpas. Você veio ver o estrago pra rir da minha cara, você veio se sentir superior vendo onde a “gentinha” mora. O quê? O seu guarda não quis fazer hora extra e resolver o seu “probleminha” ?
Eu caminhei até a mesa, ignorando o insulto. — você vive de sarcasmo?
— Eu responderia, mas não te conheço e até agora, você é playboy, folgado e intruso. – ela respondeu sentando cançadamente
Meus olhos caíram sobre a planilha. Ela estava tentando encontrar uma forma de pagar cinco mil reais com um saldo de duzentos.
— Você é ríspida para alguém que está a um passo do despejo, Helena. – respondi procurando a garrafa que ela estava bebendo.
— Como você sabe o meu nome? — Ela se levantou rápido, a bebida fazendo-a cambalear.
Eu a segurei pelo braço antes que ela caísse, sentindo a pele dela queimar sob meus dedos como um lava
Eu deveria soltá-la, mas meus dedos se fecharam com mais força eu não queria solta-la.
— Eu sei tudo sobre você — sussurrei, aproximando meu rosto do dela. — Sei sobre a Lívia. Sei sobre a dívida do hospital. E sei que você acabou de perder o emprego na loja por causa daquela cena no estacionamento.
Ela tentou puxar o braço, enquanto seus olhos castanhos pegavam fogo.
— Me solta! Invasão de propriedade é crime – ela gritou esbaforida
— Você não está em posição de expulsar ninguém, o apartamento está em leilão se eu piscar você vira sem teto— soltei o braço dela e tirei o cartão do meu secretário do bolso, colocando-o em cima dos cálculos de dívidas dela. — procure o Gudan, ele é meu assistente pessoal , ele vai te dar um emprego ...
— deixa de ser intrometido, se veio aqui pra bancar o superman saiba que meu herói favorito é o Batman e nem na fortuna vocês se parecem. Vá pro inferno, você sua empresa, seus criados e lacaios e saia agora da minha casa ou eu vou gritar até a polícia chegar.
Sorri de lado vendo ela agir feito um babuíno bêbado protegendo o território.
— Tudo bem, pode ficar aí esperando um milagre resolver todos os seus problemas pra você, mas quando mudar de ideia, ligue por Gudan e diga que eu lhe dei o cartão.
Virei as costas, mas parei na porta.
— E Helena? O documento que deixei é para você retirar o carro amanhã é por minha conta. Considere isso um investimento na sua pontualidade.
Saí sem olhar para trás, fingindo calma, mas meu sangue estava fervendo. Eu tinha dado a ela uma saída, mas ela era orgulhosa demais pra enxergar isso, como ? Aquela pobretona geniosa .
Ela vai voltar, tenho certeza que amanhã ela vai ligar implorando por Gudan dar a ela um emprego, amanhã ela vai saber o meu nome é no que eu e o Batman somos iguais. Ajeitei o meu terno e sai do prédio sem presa pra chegar ao carro, por que, até ali o perfume dela me alcançava, era irritante.