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4969 Words
CAPÍTULO 8 — VICENTE Acordei com a sensação de que aquele dia seria uma completa desgraça. Não era como se eu tivesse alguma coisa importante para fazer além de ir à faculdade, mas, desde a noite anterior, a confirmação daquela reunião com o diretor não saía da minha cabeça. Meu pai tinha conseguido transformar um problema acadêmico numa questão de honra, como se minhas notas fossem determinar se eu tinha capacidade ou não de assumir as responsabilidades que ele tanto gostava de jogar nas minhas costas. Porra, eu tinha vinte e seis anos. Não precisava de ninguém respirando no meu cangote para me lembrar de que estava na faculdade. O problema era que, por mais que eu tentasse fingir que aquela situação não me incomodava, eu sabia que minhas notas não estavam boas. Estatística, principalmente, tinha virado uma pedra no meu sapato. Eu entendia os cálculos, conseguia acompanhar parte das explicações e não era nenhum burro quando o assunto envolvia números. Só que estudar nunca tinha sido exatamente a minha prioridade. Entre as aulas, as responsabilidades que meu pai insistia em me passar, as saídas com Jorge e os outros caras e as mulheres que apareciam na minha vida, eu sempre encontrava alguma coisa mais interessante para fazer. E, até então, tinha conseguido me virar. Agora, aparentemente, a faculdade resolvera se juntar ao meu pai para me infernizar. Levantei da cama, passei a mão pelos cabelos e segui para o banheiro. Tomei uma ducha demorada, vesti uma calça jeans escura, uma camiseta preta e meu tênis. Peguei o relógio, coloquei no pulso e me olhei rapidamente no espelho. Estava com uma expressão de poucos amigos. — Que se f**a — murmurei para mim mesmo. Peguei o celular e conferi as notificações. Havia algumas mensagens de Jorge, uma de Sara e outra da administração da faculdade confirmando o horário da reunião. Ignorei as mensagens pessoais e abri a confirmação. A reunião estava marcada para aquela manhã, no gabinete do diretor. O aviso também informava que o objetivo era discutir meu desempenho acadêmico e estabelecer medidas para a recuperação das disciplinas em que eu apresentava dificuldades. Medidas. Até parecia que eu estava cumprindo pena. Joguei o celular sobre a cama, peguei a carteira e saí do quarto. Encontrei meu pai no escritório, conversando com um dos homens de confiança dele. Vitor estava sentado atrás da mesa, com alguns papéis espalhados à sua frente e uma expressão séria. Quando me viu, encerrou a conversa com um gesto e voltou a atenção para mim. — Vai sair? — Não, pai. Vou ficar aqui admirando as paredes — respondi, sem paciência. — Claro que vou sair. Ele ignorou minha ironia. — A reunião é hoje. — Eu sei. — Espero que você leve a situação a sério. Parei perto da porta e encarei meu pai. — Já começou? Vitor estreitou os olhos. — Começou o quê? — O sermão. Porque, se for para ouvir a mesma coisa que você vem falando há semanas, pode economizar o fôlego. Ele apoiou as mãos sobre a mesa. — Você acha que eu estou me divertindo com isso, Vicente? — Não sei, pai. Às vezes parece que você gosta de arrumar alguma coisa para reclamar. — Eu estou tentando fazer você entender que existem responsabilidades que não podem ser ignoradas. Soltei uma risada sem humor. — Minhas notas são minhas responsabilidades. Eu vou resolver. — Então por que precisou que a faculdade entrasse em contato comigo? A pergunta me irritou mais do que deveria. Fiquei alguns segundos em silêncio, apertando a mandíbula. Não havia uma resposta que não soasse como uma desculpa, e eu detestava admitir que alguém tinha razão quando me cobrava alguma coisa. — Porque eles gostam de exagerar — respondi, por fim. — Não. Porque você deixou a situação chegar a um ponto em que eles consideraram necessário chamar sua atenção. — Tá bom, pai. Já entendi. — Entendeu mesmo? — c*****o, eu acabei de dizer que entendi! O silêncio caiu no escritório. O homem que estava com meu pai já havia saído, deixando-nos sozinhos. Vitor me encarou durante alguns segundos, mas não levantou a voz. Ele tinha aquela capacidade irritante de permanecer calmo quando eu estava prestes a perder a paciência. — Eu não estou contra você, Vicente — disse ele. — Nunca estive. Mas não vou ficar assistindo você jogar fora oportunidades porque acha que pode resolver tudo na hora que quiser. Meu maxilar se contraiu. A palavra oportunidade me incomodava porque me fazia lembrar de coisas que eu preferia manter enterradas. Minha mãe sempre acreditou que eu podia ser qualquer coisa que quisesse. Quando Isabel ainda estava viva, ela conseguia me convencer a sentar e estudar sem transformar aquilo numa guerra. Bastava aparecer no meu quarto, sentar na beirada da cama e perguntar como tinham sido minhas aulas. Eu fazia por ela. Depois que ela morreu, três anos atrás, estudar perdeu parte do sentido que eu costumava enxergar naquilo. Não porque eu tivesse esquecido o que ela queria para mim, mas porque passei a tratar quase tudo como uma obrigação que alguém tentava me impor. Meu pai queria que eu estudasse Engenharia Civil. Eu tinha aceitado o curso, embora nunca tivesse parado para decidir se era realmente aquilo que desejava fazer da vida. E agora ele queria que eu assumisse responsabilidades cada vez maiores dentro da comunidade, como se eu não tivesse o direito de descobrir sozinho o que queria ser. Só que eu não falava sobre isso com ninguém. Muito menos com ele. — Eu tenho que ir — falei, encerrando o assunto. Vitor assentiu lentamente. — Então vá. Escute o que o diretor tem a dizer e, dessa vez, tente não tratar todo mundo como se estivesse querendo mandar na sua vida. Soltei uma risada curta. — Pode deixar. Vou ser um príncipe. — Vicente. — Tô indo, p***a. Saí do escritório antes que aquela conversa se prolongasse. No caminho até a garagem, peguei o celular e encontrei uma mensagem de Jorge. Jorge: Bom dia, playboy. Já tá de pé ou tá esperando a empregada te carregar no colo? Revirei os olhos. Eu: Vai tomar no cu, Jorge. Jorge: Ih, acordou carinhoso. O papai já começou a encher teu saco? Eu: Tenho uma reunião com o diretor. A resposta demorou alguns segundos. Jorge: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Parei no meio do caminho e encarei a tela. Eu: Qual é a graça, seu arrombado? Jorge: Nenhuma, não. Só tô imaginando tua cara ouvindo um homem engravatado falar que você precisa estudar. Eu: Continua rindo que eu vou enfiar esse celular no teu cu. Jorge: Aí você vai ter que comprar outro pra mim, irmão. Tô sem dinheiro. Soltei uma risada involuntária, balançando a cabeça. Aquele filho da p**a conseguia me irritar e me fazer rir na mesma conversa. Era um talento que eu nunca tinha entendido. Eu: Depois a gente se fala. Jorge: Vai lá, futuro doutor. Não esquece de levar o caderno e o lápis de cor. Bloqueei a tela. — Desgraçado — murmurei, guardando o aparelho no bolso. Entrei no carro, liguei o motor e saí da garagem. O trânsito estava uma merda. Ônibus parados, carros buzinando e gente atravessando a rua como se tivesse certeza de que nada de r**m poderia acontecer. Bati os dedos no volante, impaciente, enquanto o relógio avançava. Não gostava de chegar atrasado. Não porque respeitasse particularmente os horários, mas porque detestava dar a alguém a oportunidade de me cobrar alguma coisa. Quando finalmente cheguei à faculdade, estacionei e desci do carro. O campus estava movimentado. Alguns alunos atravessavam o pátio com copos de café nas mãos, outros conversavam perto dos bancos, e um grupo ria alto próximo à entrada do bloco principal. Tudo parecia absolutamente normal, o que me irritava ainda mais. Para mim, aquele não era um dia normal. Eu estava indo conversar com um diretor que, aparentemente, tinha decidido que minha vida acadêmica precisava de intervenção. Atravessei o pátio e subi as escadas até o andar da administração. No caminho, encontrei dois colegas do curso que me cumprimentaram. Respondi com um aceno, sem parar para conversar. Quando cheguei à secretaria, informei meu nome à funcionária. Ela conferiu a agenda e apontou para as cadeiras próximas à parede. — O diretor já está terminando uma reunião. Pode aguardar alguns minutos, por favor. Assenti e me sentei. Olhei para o relógio. Cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos. Passei a mão pelo rosto e soltei o ar pelo nariz. — Tá de s*******m comigo — murmurei. A funcionária ergueu os olhos do computador. — Algum problema? — Não. Nenhum. Ela voltou ao trabalho, e eu peguei o celular para responder a uma mensagem de um dos caras. Tentei me distrair, mas não consegui. Quanto mais tempo eu ficava sentado naquele corredor, mais a sensação de estar sendo tratado como um moleque aumentava. Eu não era um garoto que precisava que alguém organizasse sua rotina. Tinha responsabilidades muito maiores do que a maioria dos estudantes dali imaginava. Havia assuntos da comunidade que exigiam minha atenção, cobranças do meu pai e decisões que não podiam simplesmente esperar até o fim de uma aula. Não que isso justificasse tudo. Mas, na minha cabeça, era uma explicação suficiente. — Senhor Vicente? Levantei os olhos. A funcionária estava de pé, segurando uma pasta. — O diretor pode recebê-lo agora. Levantei-me, ajeitei a camiseta e a acompanhei até a porta. Ela bateu duas vezes, abriu e fez um gesto para que eu entrasse. — Pode entrar. O diretor está esperando. Entrei na sala. O homem atrás da mesa devia ter pouco mais de cinquenta anos. Usava uma camisa social clara, óculos discretos e mantinha alguns documentos organizados diante de si. Quando me viu, levantou-se para me cumprimentar. — Bom dia, Vicente. Pode se sentar. Apertei sua mão e me acomodei na cadeira diante da mesa. — Bom dia. Ele voltou a se sentar, abriu a pasta e examinou algumas folhas antes de falar. — Agradeço por ter comparecido. — Não tinha muito como faltar, pelo que entendi. O diretor ergueu os olhos. — Você poderia ter solicitado outra data, caso tivesse algum impedimento real. Mas fico satisfeito que tenha vindo. Não gostei da resposta. Eu esperava que ele demonstrasse algum constrangimento diante da minha presença, ou pelo menos que tentasse amenizar a conversa. Em vez disso, falava comigo como se eu fosse qualquer outro aluno convocado por causa das notas. Talvez fosse exatamente isso que ele pensava que eu era. E, por algum motivo, aquilo me incomodou. — Vamos direto ao assunto? — perguntei. — Claro. Foi justamente para isso que marquei esta reunião. Ele colocou uma folha sobre a mesa e girou o documento na minha direção. — Este é o seu relatório de desempenho. Como você pode observar, há uma queda considerável no seu rendimento em algumas atividades, principalmente em Estatística. Olhei rapidamente para os números. Eu já tinha visto parte daquelas informações no sistema, então não havia nada ali que me surpreendesse. — Eu sei como estão minhas notas. — Então sabe que a situação exige atenção. Encostei as costas na cadeira. — Olha, diretor, com todo respeito, eu tenho algumas responsabilidades fora daqui. Nem sempre consigo me dedicar a todas as atividades da faculdade como gostaria. Mas isso não significa que eu não seja capaz de recuperar minhas notas. Ele entrelaçou os dedos sobre a mesa. — Eu não questionei sua capacidade, Vicente. — Parece que estão questionando. — Estou questionando sua dedicação. São coisas diferentes. Fiquei em silêncio por um instante. A resposta veio tão direta que precisei conter a vontade de retrucar imediatamente. O diretor continuou: — Seu histórico mostra que você tem condições de acompanhar o curso. Há atividades em que apresenta resultados satisfatórios, e seus professores não apontaram falta de compreensão em todos os conteúdos. O problema é a irregularidade. Você começa algumas tarefas, deixa outras incompletas e acumula dificuldades que poderiam ter sido resolvidas com mais organização. — Eu posso resolver isso sozinho. — Pode? A pergunta saiu sem ironia, mas foi o suficiente para me fazer apertar a mandíbula. — Posso. Ele apontou para o relatório. — Até este momento, os resultados não demonstram isso. Porra. Fiquei olhando para ele, sentindo o sangue esquentar. Não estava acostumado a ouvir alguém falar comigo daquela maneira. Em casa, meu pai me cobrava, mas havia uma história entre nós, uma i********e que tornava cada discussão mais pessoal. Na comunidade, as pessoas sabiam quem eu era e mediam as palavras antes de se dirigir a mim. Ali, naquele escritório, o diretor parecia pouco interessado em qualquer uma dessas coisas. Ele não estava preocupado com o nome da minha família, com as responsabilidades que eu carregava ou com a posição que eu ocupava fora dali. Para ele, eu era um aluno com notas ruins. E ele pretendia deixar isso bem claro. — O senhor está dizendo que eu não tenho capacidade de passar nessa matéria? — perguntei, inclinando-me para a frente. — Estou dizendo que você precisa mudar sua forma de lidar com ela. — Não foi isso que eu perguntei. — E eu não vou transformar uma conversa acadêmica em uma disputa de ego. A frase me fez ficar imóvel por alguns segundos. Aquele homem tinha acabado de me chamar de egoísta sem usar a palavra. Soltei uma risada curta, sem humor. — Entendi. Então o senhor já decidiu que eu sou o problema. — Vicente, eu não estou aqui para julgar sua personalidade. Estou aqui porque seu desempenho acadêmico exige uma intervenção antes que a situação se torne mais difícil de recuperar. — Intervenção? Parece que eu estou doente. — Não. Parece que você é um estudante que precisa de apoio em uma disciplina. Passei a mão pela nuca, tentando manter a calma. Não era uma questão de não compreender o conteúdo. Eu conseguia acompanhar parte das aulas, entendia fórmulas e resolvia exercícios quando realmente me sentava para fazê-los. O problema era que, muitas vezes, eu simplesmente não tinha paciência para permanecer diante de uma lista de questões quando havia tantas outras coisas disputando minha atenção. Mas admitir aquilo em voz alta seria dar razão a ele. — Eu tenho outras responsabilidades — repeti. — Não posso ficar aqui o dia inteiro estudando. — E ninguém está pedindo isso. O que estamos propondo é que você organize melhor o tempo disponível e participe de um acompanhamento acadêmico para recuperar o conteúdo. Franzi a testa. — Acompanhamento acadêmico? — Sim. A faculdade possui um programa de apoio para estudantes que apresentam dificuldades em determinadas disciplinas. A proposta é oferecer orientação individualizada ou em pequenos grupos, dependendo da disponibilidade e das necessidades de cada aluno. Olhei para ele, desconfiado. — E o que isso significa, na prática? — Significa que você terá encontros programados com um estudante selecionado para auxiliá-lo nos conteúdos em que apresenta dificuldade. Essa pessoa poderá ajudá-lo a organizar os estudos, revisar a matéria e trabalhar os exercícios necessários para que você recupere o rendimento. Demorei alguns segundos para processar a informação. Depois, soltei uma risada incrédula. — O senhor está falando sério? — Absolutamente. — Então eu vou ter alguém sentado do meu lado me ensinando a estudar? — Você terá acompanhamento acadêmico. — Isso é uma babá com outro nome. O diretor não demonstrou qualquer reação à provocação. — Se prefere pensar dessa maneira, é uma escolha sua. Mas o objetivo não é supervisionar sua vida pessoal. É ajudá-lo a melhorar o desempenho em uma disciplina na qual você está apresentando dificuldades. — Eu não preciso de babá. — Ótimo. Então não deve ter dificuldade em comparecer aos encontros e demonstrar que consegue aproveitar o acompanhamento de maneira responsável. A resposta me pegou desprevenido. Aquele desgraçado sabia exatamente como devolver minhas provocações sem perder a compostura. Desviei os olhos para o relatório e respirei fundo. — E se eu não quiser participar? O diretor fechou a pasta por alguns segundos antes de responder. — A recomendação de acompanhamento foi feita com base no seu rendimento e nas orientações da equipe acadêmica. Você precisa levar isso a sério. Se decidir não colaborar com as medidas propostas, terá de lidar com as consequências acadêmicas do seu desempenho. — Que consequências? — Se suas notas não melhorarem, você poderá reprovar na disciplina. E, dependendo das regras do curso, isso pode comprometer seu planejamento acadêmico e atrasar sua formação. Encostei a língua na parte interna da bochecha. Eu sabia que reprovar não era uma possibilidade distante. Aquele era justamente o problema. Eu vinha empurrando a situação com a barriga porque acreditava que conseguiria resolver tudo antes que chegasse ao ponto de não ter mais saída. Agora, a faculdade estava deixando claro que eu tinha menos tempo do que imaginava. — Tá. Eu vou pensar no assunto. — Não é necessário pensar se você vai participar. O acompanhamento foi recomendado e os horários serão organizados pela coordenação. O que precisamos é que você compareça e faça a sua parte. Levantei as sobrancelhas. — Então eu não tenho escolha? — Você sempre tem escolhas, Vicente. Pode participar e tentar recuperar seu rendimento, ou pode continuar da mesma maneira e assumir o risco de não conseguir passar. O que você não pode é esperar resultados diferentes sem mudar nada. Fiquei olhando para ele. A frase me irritou justamente porque fazia sentido. Eu não gostava de ser contrariado. Muito menos por alguém que não conhecia minha vida e não fazia ideia do que acontecia fora daquele campus. Ainda assim, não podia negar que tinha deixado a situação chegar àquele ponto. — E quem vai ser essa pessoa? — perguntei. — A coordenação está organizando os estudantes disponíveis para atuar como tutores. Precisamos confirmar a compatibilidade de horários e verificar os requisitos antes de definir os encontros. — Então eu nem sei com quem vou ter que estudar? — Ainda não. — E não posso escolher? — A seleção será feita pela equipe responsável, considerando o desempenho acadêmico, a disponibilidade e os critérios do programa. Soltei o ar pelo nariz. — Perfeito. Vou ter que estudar com um desconhecido escolhido por vocês. — Você terá a oportunidade de conhecer essa pessoa no primeiro encontro. O importante é que o acompanhamento seja produtivo. Passei a mão pelo rosto. A ideia de sentar ao lado de alguém que provavelmente adorava estudar, fazer exercícios e seguir cronogramas era quase uma punição. Eu já conseguia imaginar uma pessoa cheia de regras, exigindo que eu anotasse tudo e aparecesse com os exercícios resolvidos. Se fosse alguém que gostasse de dar ordens, a situação terminaria m*l. Eu não tinha paciência para gente mandona. — Quanto tempo isso vai durar? — perguntei. — O período inicial será definido de acordo com as necessidades identificadas pela coordenação. O progresso será acompanhado, e a continuidade dependerá dos resultados e das regras do programa. — Ou seja, não tem prazo definido. — Ainda não. Soltei uma risada curta. — Vocês realmente pensaram em tudo. — Pensamos no que é necessário para que você tenha condições de melhorar. Aquela resposta me fez desviar os olhos novamente. O diretor não estava tentando me humilhar. Isso ficou evidente durante toda a conversa. Ele não levantou a voz, não fez comentários sobre minha família e não tentou me provocar. Apenas apresentou os fatos, explicou as possibilidades e deixou claro que não pretendia abrir uma exceção porque eu não gostava da situação. Talvez fosse exatamente isso que me irritava. Eu estava acostumado a encontrar uma saída quando alguma coisa não acontecia como queria. Dava um jeito, negociava, mudava os planos ou simplesmente deixava para depois. Dessa vez, alguém tinha colocado um limite. E eu não podia resolver aquilo apenas com uma ligação. — Tem mais alguma coisa que eu precise saber? — perguntei, impaciente. — Sim. A coordenação entrará em contato para informar o horário da primeira sessão. Você deverá confirmar sua disponibilidade e comparecer no dia e local indicados. Caso tenha algum compromisso acadêmico que coincida com o horário, deverá comunicar a equipe com antecedência para que seja avaliada uma alternativa. — E se eu tiver alguma responsabilidade fora da faculdade? — Você deverá organizar sua rotina para cumprir os compromissos acadêmicos e pessoais da melhor maneira possível. Caso exista um conflito real de horários, converse com a coordenação. Mas não poderá simplesmente faltar porque decidiu fazer outra coisa. Apertei os lábios. — O senhor está partindo do princípio de que eu vou faltar. — Estou deixando claro que a participação exige compromisso. Fiquei em silêncio. Por alguns segundos, pensei em responder alguma coisa atravessada. Uma daquelas frases que encerrariam a conversa do jeito que eu queria, deixando claro que não estava disposto a aceitar ordens de ninguém. Mas não falei. Não porque tivesse mudado de ideia, e sim porque percebi que discutir não alteraria a decisão. O diretor se levantou, indicando que a reunião estava chegando ao fim. Fiz o mesmo. — Espero que você aproveite essa oportunidade, Vicente — disse ele. — Você tem capacidade para melhorar. Agora precisa demonstrar isso com atitudes. Apertei sua mão, mantendo a expressão fechada. — Vamos ver. — Bom dia. — Bom dia. Saí da sala e fechei a porta atrás de mim com mais força do que pretendia. O corredor parecia ainda mais irritante do que antes. Atravessei o espaço sem olhar para os lados, passei pela secretaria e desci as escadas. Quando cheguei ao pátio, puxei o celular do bolso e liguei para Jorge. Ele atendeu no segundo toque. — Fala, meu parceiro! Sobreviveu à reunião ou o diretor te colocou de castigo? Fechei os olhos por um instante. — Vai tomar no cu, Jorge. Do outro lado, ele começou a rir. — Ih, c*****o! Pelo visto foi uma reunião maravilhosa. — Maravilhosa é a tua mãe, p***a. — Opa! Tá nervoso assim por quê? Te deram suspensão? Te expulsaram? Descobriram que você comprou o diploma? — Cala a boca, seu filho da p**a. Jorge gargalhou tão alto que precisei afastar o celular da orelha. — Fala logo, desgraçado. O que aconteceu? Comecei a caminhar em direção ao estacionamento. — O diretor disse que minhas notas estão uma merda e que eu vou ter que fazer acompanhamento acadêmico. Houve um silêncio de dois segundos. Depois, Jorge explodiu numa gargalhada. — NÃO ACREDITO, c*****o! Parei de andar. — Tá rindo de quê, p***a? — TU VAI TER UM TUTOR?! — Jorge… — NÃO, PERA AÍ! — ele interrompeu, rindo ainda mais. — Eu preciso visualizar essa cena. Tu, sentado numa mesinha, com um caderno aberto, enquanto alguém te explica Estatística! — Vai se f***r! — Calma, irmão! Já tô até imaginando o professor falando: “Vicente, presta atenção aqui”. E tu respondendo: “Presta atenção é o c*****o, me passa a resposta”. Passei a mão pelo rosto. — Eu vou desligar. — Não, não, não! Continua! Quero saber se você vai ter que levar estojo também. — Vai à merda, Jorge! Ele continuava rindo. — Pô, irmão, desculpa, mas isso é bom demais. Tu sempre fala que resolve tudo sozinho. Agora vai ter que sentar a b***a numa cadeira e deixar alguém te ensinar. — Eu sei estudar, p***a! — Então por que tu tá precisando de tutor? Fiquei quieto. Do outro lado, Jorge soltou uma risadinha. — Ih, ficou sem argumento. — Não fiquei sem argumento. Só não vou perder meu tempo discutindo com um i****a. — Tá bom, doutor. E quando começa essa tortura? — Ainda vão escolher a pessoa. — Tomara que seja alguém muito paciente. — Por quê? — Porque vai precisar de muita paciência pra te aguentar, c*****o. Soltei uma risada involuntária, mas logo voltei a fechar a cara. — Tu tá muito engraçadinho hoje. — Alguém precisa ser. Se depender de você, esse mundo vira um velório. A frase me fez perder o sorriso por um instante. Jorge percebeu a mudança no meu silêncio e diminuiu o tom. — Tá, falando sério agora. Eu sei que você não gosta de ninguém pegando no teu pé, mas talvez seja bom dar uma chance. Olhei para os carros estacionados à minha frente. — Até você? — Principalmente eu, p***a. Tu vive reclamando que teu pai te cobra, que a faculdade te cobra, que todo mundo quer alguma coisa de você. Mas, irmão, se tu tá deixando as coisas acumularem, alguém vai acabar tendo que te chamar na responsa. Apertei o celular na mão. Não gostava quando Jorge resolvia falar como se fosse o cara mais sensato do mundo. Era irritante porque, em alguns momentos, ele realmente conseguia enxergar as coisas com mais clareza do que eu. — Eu vou resolver essa merda — falei. — Eu sei. Só não inventa de brigar com o tutor no primeiro dia. — Se for um mala, não prometo nada. — KKKKKKK! c*****o, Vicente, tu é impossível! Revirei os olhos. — Tenho coisa pra fazer. Depois a gente se fala. — Vai lá, futuro engenheiro. Estuda direitinho, hein! — Vai tomar no cu! Encerrei a ligação antes que ele pudesse responder. Guardei o celular no bolso e continuei até o carro. Entrei, fechei a porta e fiquei alguns segundos parado, com as mãos apoiadas no volante. A conversa com Jorge tinha sido uma distração, mas não mudava o que acabara de acontecer. Eu teria um tutor. Não poderia escolher a pessoa. Não poderia decidir sozinho quando os encontros aconteceriam. E, se quisesse evitar uma reprovação, precisaria parar de agir como se o problema fosse desaparecer por conta própria. Liguei o motor e saí do estacionamento. No caminho, meu celular vibrou algumas vezes. Ignorei as primeiras notificações, mas, quando parei em um sinal, peguei o aparelho para conferir a tela. Havia uma mensagem de Sara. Sara: Você vai me ver hoje? Olhei para a mensagem sem responder imediatamente. Desde a nossa última conversa, ela parecia ter decidido que precisava me mostrar que não estava mais disposta a aceitar qualquer coisa. Eu entendia que ela queria mais atenção, talvez até um relacionamento de verdade, mas já tinha sido claro sobre o que podia oferecer. Não queria prometer sentimentos que não tinha. Não queria dar satisfação sobre cada hora do meu dia. E, principalmente, não queria que uma ficante transformasse minha rotina em mais uma lista de obrigações. Digitei uma resposta curta. Eu: Hoje não sei. Tenho umas coisas pra resolver. A resposta chegou quase imediatamente. Sara: Você sempre tem alguma coisa pra resolver. Soltei um suspiro. Eu: Depois a gente conversa. Não esperei que ela respondesse. Bloqueei o celular e voltei a prestar atenção no trânsito. Aquela manhã estava sendo uma merda. Meu pai me cobrava responsabilidades. A faculdade queria controlar meus horários. Sara queria uma atenção que eu não pretendia oferecer. E agora eu ainda teria que dividir parte do meu tempo com alguém que provavelmente não fazia ideia de quem eu era fora daquele campus. O pensamento me arrancou uma risada sem humor. Talvez fosse até melhor assim. Se o tutor não soubesse nada sobre minha vida, pelo menos não perderia tempo tentando me dar lições que não tinham relação com a matéria. Cheguei em casa pouco antes do almoço. Encontrei meu pai na sala, conversando ao telefone. Ele encerrou a ligação quando me viu entrar e fez um gesto para que eu me aproximasse. — E então? Como foi a reunião? Tirei as chaves do bolso e as coloquei sobre o aparador. — Foi uma maravilha. O diretor me ofereceu café, me deu um abraço e disse que minhas notas são as melhores da turma. Vitor me encarou. — Vicente. — O quê? Quer a verdade ou a versão bonita? — Quero saber o que aconteceu. Soltei o ar, irritado. — Minhas notas estão ruins em Estatística. Eles querem que eu faça um acompanhamento acadêmico com um tutor. Meu pai assentiu lentamente. — Acho uma boa decisão. Virei o rosto para ele. — Claro que acha. — Você precisa melhorar suas notas. — Eu sei. — Então aproveite a oportunidade. — Pai, p***a, eu acabei de sair de uma reunião em que passaram quase uma hora falando exatamente isso. Não precisa repetir tudo de novo. Vitor ficou em silêncio por alguns instantes. — Eu não vou discutir com você. Só espero que entenda que ninguém está tentando te diminuir. Passei a mão pela nuca. — Parece que todo mundo resolveu me tratar como se eu não soubesse cuidar da minha própria vida. — Talvez porque você esteja tentando cuidar de tudo ao mesmo tempo e não esteja dando conta de algumas coisas. Encarei meu pai. Ele não tinha dito aquilo com agressividade, mas a frase me atingiu de um jeito que me fez querer encerrar a conversa imediatamente. — Eu vou cuidar das minhas notas. Pronto. — Ótimo. — E não precisa ficar ligando para a faculdade para saber como eu estou. Vitor ergueu as sobrancelhas. — Eu não vou ficar ligando. Mas, se a instituição me procurar novamente por causa do seu rendimento, vou ouvir o que eles têm a dizer. Soltei uma risada irritada. — Beleza. Subi para o quarto antes que a conversa se transformasse em outra discussão. Assim que entrei, joguei as chaves sobre a mesa e tirei a camiseta, ficando apenas com a calça jeans. Peguei outra roupa e fui tomar banho, tentando deixar a água levar pelo menos parte da irritação acumulada. Não funcionou muito. Quando saí, encontrei uma mensagem nova da faculdade. Dessa vez, era da coordenação acadêmica. Sentei na beirada da cama e abri o e-mail. O texto informava que, após a reunião com o diretor, eu seria incluído no programa de acompanhamento para Estatística. A equipe estava organizando a distribuição dos alunos e dos tutores disponíveis, considerando os horários, o desempenho acadêmico e os critérios de participação. No final, havia uma informação destacada:
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