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3582 Words
CAPÍTULO 5 — MIRELLA MIRELLA O despertador tocou às cinco e vinte da manhã, mas eu já estava acordada havia alguns minutos, olhando para o teto manchado do meu quarto e tentando reunir forças para levantar. Meu corpo parecia pesar o dobro depois de mais um dia cansativo, e a vontade de permanecer debaixo da coberta era enorme. O problema era que a vida não esperava eu descansar, muito menos perguntava se eu estava preparada para enfrentar mais um dia. As contas continuavam chegando, a geladeira não se enchia sozinha e meus sonhos não iam se realizar enquanto eu ficasse deitada reclamando do cansaço. Soltei um suspiro, afastei a coberta e me sentei na beirada da cama. — Bora, Mirella. Levanta, mulher. Tu não chegou até aqui pra desistir agora — murmurei para mim mesma. Passei as mãos pelo rosto e me levantei. Meu quarto era pequeno, com uma cama de solteiro encostada na parede, um guarda-roupa antigo que precisava ser empurrado para fechar direito e uma mesinha onde eu guardava meus cadernos, alguns livros usados e os poucos materiais que conseguia comprar para estudar. Não tinha luxo, muito menos espaço de sobra, mas era o meu cantinho. Um lugar onde eu podia fechar a porta, respirar e fingir por alguns minutos que o mundo lá fora não era tão difícil. Depois que minha mãe morreu, aquele silêncio se tornou diferente. Antes, eu reclamava quando ela acordava cedo demais ou quando entrava no quarto para perguntar se eu já tinha comido. Às vezes, fingia estar dormindo só para não precisar conversar quando chegava cansada do trabalho. Hoje, daria tudo para ouvir a voz dela me chamando na cozinha, perguntando por que eu ainda não tinha tomado café ou reclamando que eu estava estudando demais e precisava descansar. A saudade tinha dessas coisas. Fazia a gente sentir falta até das pequenas irritações que, quando existiam, pareciam não ter importância nenhuma. Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos, e fui para o banheiro. Tomei um banho rápido, escovei os dentes e prendi o cabelo num coque simples. Escolhi uma calça jeans já bastante usada, uma blusa discreta e meu tênis mais confortável. Eu precisava de roupas práticas para trabalhar, porque não adiantava nada me arrumar toda e terminar o dia com tudo sujo. Antes de sair do quarto, conferi minha bolsa. Coloquei a carteira, o celular, uma garrafa de água e um pequeno caderno que usava para anotar as coisas que precisava estudar. Também guardei um pedaço de pão que havia separado na noite anterior. Não era muita coisa, mas quebraria o galho caso a fome apertasse antes do horário do almoço. Na cozinha, preparei café e comi em pé, olhando distraidamente para a janela. O movimento na comunidade já começava. Algumas pessoas saíam para trabalhar, outras abriam as portas dos pequenos comércios, e os primeiros sons da manhã se misturavam às conversas nas casas vizinhas. A vida seguia. Era estranho pensar que o mundo continuava funcionando mesmo quando a gente sentia que alguma parte dele tinha parado. Terminei meu café, lavei a caneca e peguei a bolsa. — Tô indo, mãe — falei por impulso, olhando para o pequeno porta-retrato que mantinha numa prateleira da sala. A fotografia mostrava nós duas sorrindo. Minha mãe tinha um sorriso bonito, daqueles que pareciam deixar tudo um pouco mais leve. Fiquei olhando para a imagem por alguns segundos antes de desviar o rosto. — Cuida de mim daí de cima, tá? Porque aqui embaixo tá difícil pra c*****o. Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Respirei fundo, limpei rapidamente o canto dos olhos e saí de casa. Eu não podia passar todos os dias chorando pela vida que tinha perdido. Precisava aprender a continuar vivendo com aquela ausência, mesmo que ainda doesse respirar fundo em certos momentos. O caminho até o trabalho já fazia parte da minha rotina. Cumprimentei algumas pessoas que conhecia pelo caminho, desviei de uma poça d’água perto de uma escadaria e apressei o passo ao perceber que estava ficando em cima da hora. Eu trabalhava como faxineira e sabia muito bem que não podia me dar ao luxo de chegar atrasada. Meu patrão era exigente com horários, embora nunca tivesse me tratado m*l. Eu precisava daquele emprego e não pretendia colocar minha renda em risco por causa de uma manhã difícil. Quando cheguei, fui recebida pela funcionária que organizava os serviços da casa. — Bom dia, Mirella. Pensei que você fosse se atrasar hoje. — Bom dia! Quase aconteceu, mas cheguei. O ônibus demorou um pouquinho. — Ainda bem. A sala precisa de uma limpeza caprichada, e os quartos também. O senhor recebe umas visitas mais tarde. — Pode deixar. Vou começar agora. Prendi melhor o cabelo, coloquei as luvas e fui buscar os materiais. O trabalho era cansativo, principalmente nos dias em que havia muita coisa para fazer. Eu limpava os móveis, retirava o pó, varria, passava pano e deixava cada ambiente organizado. Depois, precisava conferir se não havia esquecido nenhum detalhe. Às vezes, minhas costas doíam tanto que eu tinha vontade de me sentar no chão e ficar ali por alguns minutos. Mas eu continuava. Enquanto passava um pano sobre uma mesa, meu pensamento voltou para a prova que tinha feito dias antes. Eu tentava não pensar demais no resultado, porém era impossível. Aquela bolsa representava muito mais do que uma oportunidade de estudar sem pagar mensalidade. Era uma chance de começar a construir o futuro que eu imaginava desde menina. Eu queria cursar Arquitetura e Urbanismo. Queria aprender a projetar casas, espaços e lugares que pudessem melhorar a vida das pessoas. Sempre achei fascinante a maneira como um ambiente podia transformar a rotina de alguém. Uma casa pequena podia se tornar acolhedora, um espaço abandonado podia ganhar vida, e um projeto bem pensado podia oferecer conforto até para quem não tinha muito dinheiro. Talvez fosse por isso que eu insistia tanto naquele sonho. Eu conhecia a realidade de quem precisava aproveitar cada centímetro de uma casa, de quem improvisava soluções porque não podia pagar por algo melhor. Queria aprender a criar espaços bonitos e funcionais sem acreditar que conforto era privilégio de gente rica. Só que, para chegar lá, eu precisava passar por muitas etapas. E a primeira delas ainda estava pendente. Meu celular vibrou dentro da bolsa, que eu havia deixado num canto seguro. Esperei terminar a tarefa que estava fazendo antes de tirar as luvas e conferir a tela. Era uma mensagem de Camila. Camila: Amigaaaa, tu tá viva? Sorri sozinha e respondi. Eu: Tô, mulher. Trabalhando igual uma condenada. Camila: KKKKKKK eu imaginei. Tu trabalha tanto que daqui a pouco vai começar a cobrar aluguel do pano de chão. Eu: i****a! 😂 Camila: Falando sério agora, vamos sair hoje? Olhei para a mensagem e fiz uma careta. Eu gostava de sair com Camila, mas precisava controlar meus gastos. Tinha contas para pagar, algumas compras básicas para fazer e uma lista de materiais que talvez precisasse providenciar caso conseguisse a bolsa. Qualquer dinheiro gasto sem planejamento podia fazer falta depois. Eu: Hoje não vai dar, amiga. Tô apertada. Ela respondeu quase imediatamente. Camila: Mirella, pelo amor de Deus. Eu não tô te chamando pra jantar num restaurante chique. A gente pode comer um espetinho e conversar um pouco. Eu: Até espetinho custa dinheiro, Camila. Camila: E ficar trancada em casa pensando em problema não custa nada, né? Porque, se custasse, tu já tava falida duas vezes. Soltei uma gargalhada tão inesperada que precisei cobrir a boca para não chamar a atenção. Eu: Tu não presta! Camila: Eu presto, sim. Sou uma amiga maravilhosa. Agora para de inventar desculpa e vamos sair. Se tu não quiser gastar muito, a gente divide uma porção e pronto. Fiquei olhando para a tela, pensando. Camila tinha razão em uma coisa: eu estava passando tempo demais tentando resolver tudo sozinha. Trabalhar e estudar eram importantes, mas eu também precisava respirar de vez em quando. Não podia transformar minha vida numa sequência interminável de obrigações e depois me perguntar por que estava tão cansada. Eu: Tá bom. Mas vai ser alguma coisa barata, hein? Camila: Sabia que tu ia aceitar! Te pego mais tarde. Te amo, sua chata. Eu: Também te amo, insuportável. Guardei o celular com um sorriso no rosto. Era impressionante como Camila conseguia arrancar uma risada de mim mesmo quando eu estava preocupada. Voltei ao trabalho e passei as horas seguintes ocupada com a limpeza. Quando finalmente terminei, conferi os ambientes, guardei os materiais e avisei que estava indo embora. Meu corpo estava cansado, minhas mãos estavam ressecadas por causa dos produtos de limpeza e meus pés pediam descanso. Mesmo assim, a ideia de encontrar minha melhor amiga tornou o caminho de volta um pouco mais leve. Passei em casa, tomei outro banho e troquei de roupa. Escolhi uma calça jeans, uma blusinha simples e um par de tênis. Não tinha necessidade de fazer nada elaborado. Eu queria apenas sentar, comer alguma coisa gostosa e conversar com alguém que me conhecia desde antes de a vida ficar tão complicada. Quando cheguei ao lugar combinado, Camila já estava me esperando perto de uma barraca de espetinhos. — Até que enfim, p***a! — ela exclamou assim que me viu. — Achei que tu ia desistir no meio do caminho. — Boa noite pra você também, querida. — Abri os braços, e ela me abraçou. — Eu avisei que precisava terminar umas coisas em casa. — Sei. Tu ia terminar de organizar a casa, depois organizar a bolsa, depois organizar os pensamentos e, quando percebesse, já seria meia-noite. — Alguém precisa ser responsável nessa amizade. — Responsável? Tu tem vinte e três anos e vive como se tivesse oitenta! Caí na gargalhada. — Vai se f***r, Camila! — Olha a educação! — Ela colocou a mão no peito, fingindo indignação. — Minha amiga virou uma mulher desbocada. — Aprendi com a melhor. Ela me puxou pelo braço e nós nos aproximamos da barraca. O cheiro da carne assando abriu meu apetite imediatamente. Havia algumas mesas de plástico espalhadas pela calçada, e escolhemos uma num canto onde poderíamos conversar sem precisar gritar por cima do barulho da rua. Pedimos dois espetinhos e uma porção pequena para dividir. Camila ainda tentou me convencer a comprar um refrigerante maior, mas eu fiz as contas mentalmente e escolhi apenas um copo. — Tu precisa parar de fazer conta até pra respirar — ela reclamou, observando minha escolha. — Eu não faço conta pra respirar. — Faz, sim. Aposto que, se eu te perguntar quanto custa cada vez que tu puxa o ar, tu vai calcular o valor mensal. — i****a! — Joguei um guardanapo nela. Camila riu, desviando do papel. — Tá vendo? É disso que eu tô falando. Tu precisa se permitir viver um pouco. A brincadeira diminuiu quando ela percebeu que eu havia ficado pensativa. — Ei, amiga. Tu tá bem mesmo? Peguei o copo e tomei um gole antes de responder. — Tô tentando ficar. — É por causa da prova? Assenti. — Também. Ela apoiou os braços sobre a mesa e me olhou com atenção. — Tu estudou pra caramba, Mirella. Eu vi o quanto tu se esforçou. Tu acordava cedo, chegava cansada e ainda ficava horas com a cara enfiada nos livros. Não tem como eu te prometer que tu passou, porque ninguém sabe o resultado ainda, mas eu acredito em ti. Engoli em seco. — E se eu não passar? — Tu vai tentar de novo. — É fácil falar. — Eu sei que é. Mas o que tu quer que eu diga? Que tua vida acabou se tu não conseguir essa bolsa? Porque não acabou, amiga. Abaixei os olhos para as minhas mãos. — Eu sei que não acabou. Só que eu queria muito que desse certo dessa vez. Não é só sobre estudar. É sobre conseguir alguma coisa que seja minha, sabe? Uma coisa que eu conquistei porque me esforcei, porque não desisti, porque fui atrás. Minha voz começou a falhar, e eu respirei fundo antes de continuar. — Eu quero poder ajudar a mim mesma. Quero ter meu dinheiro, construir minha vida, conseguir pagar minhas coisas sem precisar ficar desesperada toda vez que aparece uma conta diferente. Eu não quero passar o resto da vida contando moeda pra saber se posso comprar alguma coisa que tô com vontade de comer. Camila ficou quieta, deixando que eu falasse. — E eu queria tanto que minha mãe estivesse aqui — confessei, sentindo os olhos arderem. — Queria que ela pudesse ver que eu tô tentando. Às vezes, eu fico pensando no que ela diria se soubesse que eu consegui chegar até aqui. Camila estendeu a mão por cima da mesa e segurou a minha. — Ela teria muito orgulho de você. Uma lágrima escapou antes que eu conseguisse impedir. Limpei o rosto depressa, irritada comigo mesma por chorar num lugar público. — Desculpa. — Desculpa pelo quê, sua maluca? — Camila apertou meus dedos. — Tu não precisa pedir desculpa por sentir saudade da tua mãe. Soltei uma risada fraca, misturada ao choro. — Eu sei, mas tem dias em que parece que, se eu começar a chorar, não vou conseguir parar. — Então chora quando precisar. Não precisa bancar a mulher de ferro o tempo inteiro. Olhei para ela, sentindo um aperto no peito. — Se eu não for forte, quem vai ser por mim? Camila demorou um instante para responder. — Tu pode ser forte e ainda precisar de alguém, Mirella. Uma coisa não anula a outra. Eu tô aqui, p***a. Não vou resolver todos os teus problemas, porque m*l consigo resolver os meus, mas vou ficar do teu lado enquanto tu enfrenta essa merda toda. Dessa vez, ri de verdade. — Tu consegue estragar qualquer momento emocionante. — É meu dom natural. Agradeci em silêncio por ter aquela mulher na minha vida. Camila não podia pagar minhas contas, não podia me garantir a bolsa e muito menos apagar a saudade que eu sentia. Mas me lembrava de que eu não precisava atravessar tudo completamente sozinha. Comemos enquanto conversávamos sobre coisas mais leves. Ela me contou uma situação engraçada que tinha acontecido durante o dia, reclamou de uma pessoa que a havia irritado e fez planos para o fim de semana. Eu também consegui rir, esquecer um pouco as preocupações e aproveitar aquele pequeno intervalo. Quando terminamos, fiz questão de pagar minha parte. Camila tentou argumentar que eu poderia deixar para a próxima vez, mas não aceitei. — A gente dividiu, então eu pago o meu — falei, pegando o dinheiro na carteira. — Tu é teimosa demais. — Olha quem fala! Ela ergueu as mãos em rendição. — Tá bom, dona independência financeira. Paga essa merda logo antes que eu mude de ideia. Paguei e nos despedimos alguns minutos depois. Voltei para casa com o corpo cansado, mas o coração um pouco mais leve. Ao entrar, tirei os tênis perto da porta, guardei a bolsa e fui direto lavar as mãos. A casa estava silenciosa. Não havia ninguém perguntando como tinha sido meu dia, nem alguém me esperando para conversar. Por alguns segundos, aquele silêncio voltou a pesar. Respirei fundo e decidi que não deixaria a tristeza tomar conta de tudo naquela noite. Eu ainda tinha coisas para fazer. Peguei meus cadernos e me sentei à mesa. Estudei por quase uma hora, revisando alguns conteúdos e organizando as anotações que havia feito antes da prova. Mesmo sem saber o resultado, eu queria continuar aprendendo. Não fazia sentido abandonar os estudos enquanto esperava uma resposta. Em determinado momento, percebi que estava lendo a mesma linha pela terceira vez sem compreender nada. — Chega, Mirella. Teu cérebro já pediu demissão — murmurei. Fechei o caderno, alonguei os braços e me levantei. Foi então que olhei para a cozinha e me lembrei de uma coisa que não fazia havia alguns dias. Brigadeiro. Abri o armário e procurei os ingredientes. Ainda havia uma lata de leite condensado e um pouco de chocolate em pó. Não era algo que eu pudesse preparar toda noite, porque precisava economizar, mas naquela ocasião resolvi me permitir aquele pequeno prazer. Peguei uma panela, coloquei os ingredientes e comecei a mexer em fogo baixo. O cheiro doce logo tomou conta da cozinha. Eu gostava daquele momento. Gostava de acompanhar o chocolate se misturando ao leite condensado, de raspar as laterais da panela e de esperar até chegar ao ponto certo. Era uma coisa simples, quase boba, mas me dava uma sensação de conforto que eu não sabia explicar. Minha mãe costumava dizer que eu tinha uma relação séria demais com brigadeiro. — Tu ainda vai acabar comendo essa panela inteira sozinha, menina — ela reclamava quando me encontrava na cozinha. Eu respondia que não era culpa minha se o brigadeiro ficava bom demais. Lembrar daquela cena fez meu sorriso desaparecer aos poucos. Continuei mexendo o doce, tentando me concentrar no movimento da colher. Não queria chorar de novo, mas a lembrança dela estava muito viva naquela noite. Era como se eu pudesse ouvir sua risada atrás de mim, como se bastasse virar o rosto para encontrá-la encostada na porta, com os braços cruzados e aquele sorriso que eu daria tudo para ver mais uma vez. — Tu ia gostar de saber que eu tô tentando, mãe — sussurrei. Desliguei o fogo e coloquei o brigadeiro numa tigela pequena. Esperei esfriar um pouco antes de me sentar à mesa com uma colher. A primeira colherada foi suficiente para me arrancar um sorriso. — c*****o, ficou bom demais. Ri sozinha da minha própria reação e continuei comendo devagar, aproveitando cada pedacinho. Não precisava de um restaurante caro, de roupas novas ou de uma casa enorme para sentir um pouco de felicidade. Naquele momento, bastava o doce, o silêncio e a sensação de que eu ainda tinha forças para continuar. Quando terminei, lavei a panela e a colher, guardei os ingredientes e deixei a cozinha organizada. Depois, voltei ao quarto e separei as roupas que usaria no dia seguinte. Coloquei o celular para carregar, conferi o despertador e me sentei na cama. Meu olhar foi parar novamente no porta-retrato que eu havia levado para perto da mesinha. Peguei a fotografia com cuidado. — Eu queria tanto que tu estivesse aqui pra me dizer que vai dar tudo certo — falei baixinho. — Mas eu vou continuar tentando, tá? Mesmo quando eu tiver medo. Mesmo quando estiver cansada. Eu vou fazer o possível pra realizar esse sonho. Passei o polegar sobre a imagem da minha mãe e coloquei a fotografia de volta no lugar. Eu não sabia se conseguiria a bolsa. Não sabia quanto tempo levaria para me formar, se conseguiria um emprego melhor ou quando finalmente deixaria de viver preocupada com cada despesa. Mas sabia que não queria desistir. Aquela era a única coisa que eu podia prometer a mim mesma. Apaguei a luz e me deitei, puxando a coberta até a altura do peito. O cansaço finalmente começou a vencer a ansiedade, e eu estava quase pegando no sono quando senti o celular vibrar sobre a mesinha. Franzi a testa. Naquela hora? Estiquei o braço, peguei o aparelho e desbloqueei a tela. Havia uma notificação relacionada ao processo seletivo da bolsa de estudos. Meu coração disparou. Sentei na cama imediatamente, tentando entender o que estava vendo. A mensagem informava que o resultado seria disponibilizado na manhã seguinte e orientava os candidatos a consultar a plataforma oficial para verificar sua situação. Li o texto uma vez. Depois, li de novo. Era apenas um aviso. Eu ainda não sabia se tinha conseguido a bolsa, e a mensagem não revelava qualquer resultado. Mesmo assim, minhas mãos começaram a suar. — Meu Deus do céu… Abri o calendário, conferi o horário indicado e voltei à mensagem. Faltavam poucas horas para amanhecer. Eu poderia tentar dormir e conferir tudo pela manhã, mas sabia que seria difícil fechar os olhos com aquela expectativa martelando na minha cabeça. Coloquei o celular sobre o peito e respirei fundo. E se eu tivesse conseguido? E se todo aquele esforço finalmente começasse a dar resultado? Ou, pior, e se eu abrisse a página pela manhã e encontrasse uma resposta que me obrigasse a reorganizar todos os meus planos? Fechei os olhos, tentando afastar os pensamentos. Eu não tinha como mudar o resultado naquela noite, muito menos descobrir alguma coisa antes do horário previsto. Tudo o que podia fazer era esperar. Virei de lado, abracei o travesseiro e olhei uma última vez para a tela do celular. — Amanhã eu vou saber — sussurrei para mim mesma. Apaguei a tela e me deitei novamente, mas o sono parecia ter desaparecido por completo. Naquela noite, descobri que esperar por uma oportunidade também podia ser uma espécie de batalha. E, embora eu estivesse acostumada a lutar contra o cansaço, a falta de dinheiro e a saudade, ainda não sabia como controlar o medo de ter um sonho tão perto das mãos e, mesmo assim, correr o risco de perdê-lo. Eu só queria uma chance. Uma única chance de mostrar que era capaz de construir algo diferente para mim. E, quando o dia amanhecesse, eu finalmente descobriria se estava mais perto de conseguir. Mensagem da autora: Deixem o bilhete lunar e me contem nos comentários: vocês acham que a Mirella vai conseguir a bolsa? 🌙 No próximo capítulo, Vicente vai descobrir que fugir das responsabilidades não será tão fácil quanto imagina! ❤️
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