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2079 Words
CAPÍTULO 14 — AQUELE METIDO Narradora: Mirella Eu estava havia dez minutos na sala de estudos quando comecei a me arrepender de não ter levado um café. Olhei para o relógio, depois para a porta, e soltei o ar pelo nariz. — Primeiro encontro e já começa assim? — murmurei, ajeitando meus cadernos sobre a mesa. Eu tinha revisado o conteúdo de Estatística na noite anterior, separado exercícios e preparado algumas explicações. Queria fazer um bom trabalho, mas não estava disposta a passar a tarde inteira esperando por alguém que nem sequer conhecia. Meu celular vibrou com uma mensagem de Camila. Camila: E aí, professora? Já conheceu seu aluno misterioso? Eu: Ainda não. O bonito está atrasado. Camila: Bonito? Ué, tu nem conhece o homem! Percebi meu erro e revirei os olhos, sozinha. Eu: Bonito no sentido de que pode ser. Sei lá. Cala a boca, Camila. Camila: KKKKKKKKKKKKKKKK. Já tô vendo que essa tutoria vai render. Guardei o celular antes que aquela criatura começasse a criar expectativas em cima de uma pessoa que eu nem tinha visto. Foi justamente nesse momento que a porta se abriu. E, por alguns segundos, esqueci completamente o que estava pensando. O homem que entrou parecia ter saído de uma propaganda de perfume caro. Era alto, tinha os braços fortes, tatuagens aparecendo sob as mangas da camiseta preta e um rosto bonito de um jeito irritante. O cabelo estava arrumado sem parecer que ele havia se esforçado demais, e o olhar escuro passeou pela sala como se estivesse procurando alguma coisa que não merecia sua atenção. O celular tocava na mão dele. Ele atendeu antes mesmo de fechar a porta. — Fala, p***a. Tô ocupado. Fez uma pausa, ouvindo a pessoa do outro lado. — Depois eu vejo isso, c*****o. Não dá pra resolver tudo agora, não? Encerrou a ligação, jogou o aparelho sobre a mesa e finalmente olhou para mim. — Tu é a tutora? Pis­quei, voltando a mim. — Depende. Você é o aluno que está atrasado? Um dos cantos da boca dele se ergueu. — Ih, já começou cobrando? — Não estou cobrando. Só confirmei uma informação. Ele puxou a cadeira à minha frente e se sentou, abrindo as pernas debaixo da mesa com uma tranquilidade absurda. — Vicente. — Mirella. — Só Mirella? Olhei para ele, confusa. — Você precisa do meu sobrenome para estudar Estatística? O sorriso dele aumentou um pouco. — Tu é sempre assim? — Assim como? — Cheia de resposta. — Só quando fazem perguntas desnecessárias. Vicente soltou uma risada curta, mas logo voltou a me observar com aquela expressão convencida. — A faculdade realmente me surpreendeu. Franzi a testa. — Por quê? Ele apontou para mim com o queixo. — Escolheram uma garota tão novinha pra me ensinar? Achei que mandariam alguém com mais experiência. Senti meu rosto esquentar, não de vergonha, mas de irritação. Ah, pronto. O bonito tinha chegado atrasado, m*l havia se apresentado e já estava questionando minha capacidade. Fechei a tampa da caneta com um estalo. — Você tem quantos anos? — Vinte e seis. Por quê? — E ainda precisa de ajuda em Estatística? O sorriso dele desapareceu por um segundo. Segurei a vontade de rir. — Pois é, Vicente. A idade não parece estar resolvendo o seu problema. Ele me encarou, surpreso. Depois inclinou a cabeça, como se estivesse tentando decidir se eu tinha acabado de enfrentá-lo de verdade. — Tu é abusada pra c*****o. — E você está atrasado. — c*****o, garota… — Mirella — corrigi. — O quê? — Meu nome é Mirella. Já que você está tão interessado em fazer comentários sobre mim, pelo menos aprende meu nome direito. Vicente passou a língua pelos lábios, segurando um sorriso que parecia querer escapar. — Tá bom, Mirella. Vamos ver se tu é boa mesmo ou se só sabe falar. Aquilo foi o suficiente para eu abrir o caderno e empurrar uma folha na direção dele. — Ótimo. Resolve essa questão. Ele olhou para o papel. Depois olhou para mim. — Agora? — Não, semana que vem. Claro que é agora! Vicente soltou uma gargalhada inesperada. — p**a que pariu! Tu não tem medo de mim, não? A pergunta me pegou desprevenida, mas mantive o olhar firme. — Eu deveria ter? Por um instante, o sorriso dele mudou. Ficou menor, mais difícil de interpretar. — Geralmente, as pessoas pensam um pouco antes de falar comigo desse jeito. — Então deve ser muito bom encontrar alguém que não faça isso. Ele recostou na cadeira e cruzou os braços. — Tu fala como se me conhecesse. — Não conheço. E, pelo que estou vendo, você também não me conhece. Então vamos fazer o seguinte: você para de tentar me diminuir, eu paro de perder tempo com suas provocações e nós dois fazemos o que viemos fazer. Vicente ficou me olhando por alguns segundos. Eu conseguia sentir o peso daquele olhar, mas me recusei a desviar primeiro. Ele tinha uma presença marcante, disso eu não podia negar. Era bonito, confiante e parecia acostumado a dominar qualquer ambiente em que entrasse. Só que eu não tinha chegado até ali para ser intimidada por um homem bonito. Muito menos por um que precisava de ajuda com uma matéria da faculdade. — Tá — ele respondeu, finalmente puxando o papel. — Vamos ver essa merda. A sessão começou. Nos primeiros minutos, Vicente tentou resolver o exercício de cabeça, sem ler direito o enunciado. Errou uma conta, riscou a resposta e soltou um palavrão. — Calma. Você pulou uma etapa — expliquei. — Eu sei fazer conta. — Não parece. Ele levantou os olhos lentamente. — Tu tá gostando de me irritar, né? — Estou gostando de tentar ensinar alguém que não me deixa terminar uma frase. — Tu fala demais. — E você presta atenção de menos. Vicente soltou uma risada pelo nariz, balançando a cabeça. — Tu é impossível. — E você ainda não resolveu a questão. Ele voltou ao papel, resmungando alguma coisa que preferi não perguntar. Dessa vez, prestou atenção às instruções e conseguiu avançar até a etapa seguinte. Apontei para o cálculo. — Aqui. Por que você escolheu esse caminho? Ele explicou o raciocínio. A resposta estava quase certa, mas havia um erro na interpretação dos dados. — Entendi — falei. — Você sabe fazer a conta. O problema é que está tentando chegar ao resultado antes de entender o que a questão está pedindo. Vicente olhou novamente para o enunciado. — Então é isso? — É. Você está com pressa de terminar e acaba errando o começo. Ele refez o cálculo. Dessa vez, acertou. — Pronto. Conferi a resposta. — Certo. — Viu? Não era tão difícil. — Não mesmo. Quando você resolve prestar atenção, até consegue. Ele ergueu as sobrancelhas. — Tu não sabe elogiar, não? — Acabei de dizer que você acertou. — Isso não foi um elogio. Foi uma constatação. — Quer um certificado também? Vicente riu de verdade dessa vez, e eu precisei desviar os olhos para o caderno antes que ele percebesse que aquele sorriso tinha mudado um pouco o rosto dele. Era irritante. Muito irritante. Porque, por trás da arrogância, ele tinha um sorriso capaz de deixar qualquer pessoa distraída. E eu não estava ali para ficar distraída. Continuei explicando o próximo exercício. Ele fez algumas perguntas, reclamou de uma fórmula e tentou argumentar que o professor complicava as coisas sem necessidade. Eu rebati, ele insistiu, e logo estávamos discutindo sobre a maneira mais simples de resolver o problema. Pelo menos, agora ele estava participando. Quando olhei para o relógio, percebi que já tínhamos passado do horário previsto para a primeira parte da sessão. Comecei a organizar as folhas. — Por hoje, vamos parar por aqui. Quero que você refaça esses exercícios sozinho antes do próximo encontro. Vicente nem se mexeu. — Já? — Sim. O encontro tem um horário, lembra? — Pensei que a gente fosse continuar. Olhei para ele, surpresa com a mudança. — Você acabou de reclamar durante quase uma hora. — Reclamar é diferente de querer ir embora. Não consegui evitar um pequeno sorriso. — Então você admite que a sessão não foi tão r**m? Ele apoiou os braços na mesa e se inclinou na minha direção. — Não exagera, professora. O movimento foi tão inesperado que fiquei imóvel por um instante. Vicente estava mais perto agora. Perto o suficiente para que eu percebesse o perfume amadeirado que vinha dele e os pequenos detalhes das tatuagens que desapareciam sob a manga da camiseta. Os olhos escuros se prenderam aos meus, e o sorriso debochado voltou ao rosto dele. — Tu sempre é tão mandona assim? Meu coração deu uma batida estranha. Uma única batida, forte o suficiente para me irritar comigo mesma. Porque não era justo que um homem tão convencido conseguisse me deixar momentaneamente sem resposta só por se aproximar daquela maneira. Recuperei a voz e ergui o queixo. — Só com aluno que não sabe respeitar horário. — E se eu respeitar? — Talvez eu seja menos mandona. — Talvez? — Não prometi nada. Vicente sorriu devagar. — Gostei de tu, Mirella. Meu estômago deu um pequeno salto, mas não deixei que isso chegasse ao meu rosto. — Que bom. Agora faça os exercícios. Ele soltou uma gargalhada, recostando-se na cadeira. — Tu acabou de estragar o momento. — Que momento? — Esquece, garota. Levantei, coloquei meus materiais na bolsa e entreguei a ele a lista de exercícios. — Próximo encontro, quero tudo resolvido. Se tiver dúvidas, anote. Não adianta chegar aqui e dizer que não entendeu nada porque passou a semana inteira sem abrir o caderno. Vicente recebeu a folha, ainda com aquele sorriso irritante. — Sim, senhora. — E nada de se atrasar. — Tá bom, mãe. Parei no meio do movimento e o encarei. — Se você me chamar de mãe outra vez, vou pedir para a coordenação trocar o tutor. O sorriso dele sumiu por um segundo. — Tu não faria isso. — Quer testar? Ele ficou me olhando, depois ergueu as mãos em rendição. — Tá bom, tá bom. Sem mãe. — Ótimo. Peguei a bolsa e caminhei até a porta. Antes de sair, ouvi a voz dele atrás de mim. — Mirella. Virei o rosto. — O quê? Ele girou a caneta entre os dedos, com uma expressão que misturava diversão e curiosidade. — Quinta-feira, no mesmo horário? — Se você chegar no horário, sim. — Vou tentar não decepcionar a professora. — Faça esse esforço. Saí da sala sem olhar para trás, mas não consegui impedir o sorriso que apareceu no meu rosto quando alcancei o corredor. Aquele homem era insuportável. Arrogante, provocador e convencido de que poderia falar qualquer coisa sem ouvir uma resposta à altura. Eu já sabia que os próximos encontros exigiriam paciência. Muita paciência. O que eu ainda não sabia era por que, mesmo depois de uma sessão cheia de provocações, uma parte de mim continuava lembrando do jeito como ele havia se inclinado sobre a mesa. Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento. — Nem começa, Mirella — murmurei para mim mesma. — Você está aqui para estudar, não para se meter em confusão. Meu celular vibrou assim que cheguei à saída do prédio. Camila: E AÍ??? CONTA TUDO! Parei perto da escada e respondi: Eu: Meu aluno é um metido insuportável. Camila: Mas é bonito? Revirei os olhos. Eu: Camila! Camila: ISSO NÃO É UMA RESPOSTA! Mordi o lábio para conter o riso. Eu: É bonito. Infelizmente. Camila: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK EU SABIA! Guardei o celular antes que ela começasse a planejar meu casamento. Eu tinha coisas mais importantes para fazer. Precisava trabalhar, estudar e cuidar da minha própria vida. Não estava procurando homem, muito menos alguém com aquele temperamento. Mas, enquanto caminhava para o ponto de ônibus, uma pergunta continuou rondando minha cabeça. Por que Vicente, depois de reclamar tanto, parecia tão disposto a prolongar nosso encontro? Talvez ele só gostasse de provocar. Talvez estivesse acostumado a conseguir atenção. Ou talvez eu tivesse despertado a curiosidade daquele homem tanto quanto ele havia despertado a minha. E isso, sinceramente, era a última coisa de que eu precisava. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙🔥 Mirella já descobriu que Vicente é um metido de primeira, mas será que vai conseguir resistir às provocações dele? No próximo capítulo, ele vai descobrir que essa garota não abaixa a cabeça para ninguém! ❤️
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