CAPÍTULO 3 — VICENTE
Eu já estava de saco cheio daquela faculdade.
Não que eu não gostasse de estudar. Na real, eu sabia muito bem que tinha capacidade para terminar Engenharia Civil e, se quisesse, ainda conseguiria me destacar entre os melhores alunos. Matemática nunca tinha sido um problema para mim. Os números faziam sentido, as contas fechavam e, quando eu colocava alguma coisa na cabeça, dificilmente deixava pela metade. O problema era que eu simplesmente não tinha paciência para certas matérias, principalmente Estatística, que parecia ter sido inventada por algum filho da p**a que não tinha mais nada para fazer da vida.
Eu estava sentado no fundo da sala, com a caneta girando entre os dedos e o olhar preso na janela, enquanto o professor explicava alguma coisa sobre cálculos e probabilidades. Ao meu lado, Jorge lutava contra o sono, apoiando o queixo na mão e piscando lentamente, como se estivesse prestes a apagar ali mesmo. Na fileira da frente, dois dos nossos amigos trocavam mensagens escondidos debaixo da mesa. Eu não precisava nem olhar para saber que, assim que aquela aula acabasse, os dois começariam a falar de festa, bebida e mulher.
Era sempre a mesma coisa.
E, sinceramente, eu não reclamava.
Minha vida já tinha responsabilidades demais fora daquele lugar. Eu precisava lidar com cobranças, dinheiro, assuntos do morro e com a expectativa do meu pai de que eu me tornasse um homem capaz de assumir responsabilidades ainda maiores no futuro. Portanto, quando tinha a oportunidade de esquecer um pouco essa merda toda, eu aproveitava sem pensar duas vezes.
— p***a, irmão, se esse professor falar mais cinco minutos, eu vou começar a enxergar número até no teto — Jorge murmurou, inclinando-se na minha direção.
Segurei o riso e continuei olhando para a frente.
— Cala a boca, maluco. O homem vai ouvir.
— Que ouça, c*****o. Vai mudar alguma coisa na minha vida? Eu já tô quase formando e ainda não entendi metade dessa matéria.
— Tu não entende porque passa mais tempo olhando foto de mulher do que prestando atenção na aula.
— E tu presta atenção por acaso, desgraçado?
Virei o rosto lentamente para ele.
— Eu pelo menos sei fingir melhor.
Jorge soltou uma risada abafada e precisou cobrir a boca quando o professor olhou em nossa direção. Fiz uma expressão séria, ajeitei a postura e peguei a caneta, fingindo que estava acompanhando cada palavra daquela explicação. O professor voltou a escrever no quadro e Jorge se aproximou novamente.
— Hoje nós vamos fazer alguma coisa, né? — perguntou baixinho.
— Depende.
— Depende de quê, p***a? Tu tá com essa cara de quem quer mandar alguém tomar no cu desde cedo.
— Porque eu tô de saco cheio.
— Então melhor ainda. Vamos sair, beber alguma coisa, arrumar umas mulheres e esquecer essa merda de faculdade por umas horas.
Olhei para ele de lado.
— Tu só pensa nisso, né?
— Claro, irmão. Estudar é importante, mas ninguém merece viver só de livro, cálculo e professor enchendo o saco. A vida é uma só, c*****o.
— Filosofou agora, foi?
— Vai se f***r, Vicente.
Dessa vez, não consegui segurar a risada.
Jorge era um dos poucos caras que conseguiam me fazer rir sem precisar ficar puxando meu saco. A gente se conhecia havia anos, e ele sabia perfeitamente que eu não tinha paciência para falsidade, bajulação ou gente que se aproximava de mim só por causa do meu sobrenome. Com ele, as coisas eram diferentes. Jorge falava o que pensava, me zoava quando tinha oportunidade e não se intimidava só porque eu era filho do homem que comandava a Rocinha.
Talvez fosse justamente por isso que nossa amizade funcionava tão bem.
O professor continuou a explicação por mais alguns minutos, até finalmente anunciar o fim da aula. Assim que ele fechou o material, a sala inteira começou a se movimentar. Guardei minhas coisas na mochila, coloquei o celular no bolso e me levantei.
— Graças a Deus! — Jorge exclamou, jogando a mochila sobre um dos ombros. — Eu já tava pensando em fingir um desmaio para sair dessa p***a.
— Tu não consegue fingir nem que é inteligente, imagina um desmaio.
— Vai tomar no cu, irmão!
Saímos da sala rindo, acompanhados pelos nossos amigos. O corredor estava cheio de estudantes conversando, alguns apressados para chegar à próxima aula, outros parados perto das janelas ou encostados nas paredes. Eu caminhava tranquilamente, sem prestar muita atenção ao movimento, até ouvir uma voz feminina me chamando.
— Vicente!
Virei o rosto e encontrei Sara vindo na nossa direção.
Ela estava bonita, como sempre. Usava uma roupa que valorizava o corpo, os cabelos bem arrumados e aquele sorriso que costumava aparecer sempre que me via. Sara sabia chamar atenção e gostava disso. Não era uma mulher tímida, muito menos ingênua. Sabia o que queria e não tinha vergonha de demonstrar.
O problema era que, ultimamente, ela parecia querer um pouco mais de mim do que eu estava disposto a oferecer.
— Oi, gostoso — ela disse, aproximando-se para me dar um beijo.
Segurei sua cintura e correspondi ao beijo rapidamente. Quando nos afastamos, ela continuou com as mãos apoiadas nos meus ombros.
— Pensei que você fosse sair sem falar comigo.
— A gente se viu mais cedo, Sara.
— Eu sei, mas isso não significa que eu não possa falar com você de novo.
— Não falei que não podia.
Ela me observou por alguns segundos, provavelmente tentando descobrir se eu estava de bom humor ou se era melhor não insistir em determinados assuntos.
Jorge, que estava ao meu lado, soltou uma risadinha.
— Ih, c*****o! Vou deixar vocês dois conversando antes que eu vire vela nessa p***a.
— Vai procurar o que fazer, Jorge — Sara respondeu, revirando os olhos.
— Tô procurando, princesa. Só não sabia que precisava da tua autorização.
— Jorge — avisei, lançando-lhe um olhar de advertência.
Ele ergueu as mãos, fingindo inocência.
— Tá bom, patrão. Já entendi. Vou deixar o casal em paz.
— Casal é o c*****o — respondi automaticamente.
Jorge caiu na gargalhada.
Sara ficou séria por uma fração de segundo, mas logo disfarçou, ajeitando uma mecha do cabelo atrás da orelha. Eu percebi. Claro que percebi. Só não fiz questão de comentar.
Eu nunca tinha prometido namoro a Sara. Desde o começo, deixei claro que não queria compromisso, que não estava procurando uma mulher para construir uma vida ao meu lado e que não pretendia mudar minha rotina por causa de ninguém. Ela tinha aceitado as condições, e eu não via motivo para me sentir culpado por continuar vivendo do jeito que sempre vivi.
Gostava da companhia dela, gostava dos beijos e gostava da facilidade com que conseguíamos nos entender quando não havia cobranças envolvidas. Mas gostar de ficar com alguém era completamente diferente de querer entregar a própria vida a essa pessoa.
E eu não pretendia entregar a minha a mulher nenhuma.
— Você vai embora agora? — Sara perguntou.
— Vou resolver umas coisas com os moleques.
— Ah.
O jeito como ela respondeu deixou evidente que não gostou da resposta.
— Qual foi? — perguntei.
— Nada, Vicente. Só perguntei.
— Então tá.
Ela apertou os lábios, parecendo segurar alguma coisa que gostaria de dizer. Depois se aproximou novamente e me deu um beijo rápido.
— Me manda mensagem depois.
— Se eu tiver tempo.
— Você sempre tem tempo para todo mundo, menos para mim.
Soltei o ar pelo nariz, já perdendo a paciência.
— Sara, não começa.
— Eu não comecei nada.
— Então não transforma uma pergunta simples numa discussão.
Ela ficou me olhando, contrariada. Por alguns segundos, achei que fosse insistir, mas Sara apenas balançou a cabeça.
— Tá bom. Vai lá fazer suas coisas.
Dei um beijo em sua testa, mais por costume do que por qualquer outra coisa, e me afastei.
— A gente se fala.
— Aham.
Continuei andando com os moleques, deixando Sara para trás. Não precisava ser nenhum gênio para perceber que ela estava incomodada, mas eu não tinha intenção de ficar ali discutindo por causa de uma mensagem ou de algumas horas sem atenção.
Eu tinha sido sincero desde o início.
Se ela estava começando a querer algo diferente, precisaria decidir se aceitava a situação ou se preferia cair fora. O que eu não faria era fingir sentimentos que não existiam só para manter uma mulher satisfeita.
— Tu é muito filho da p**a, sabia? — Jorge comentou quando já estávamos longe o suficiente.
Olhei para ele.
— Começou, p***a?
— Não comecei nada. Só tô falando a verdade. A mina quer tua atenção e tu trata a coitada como se ela tivesse pedido a senha da tua conta bancária.
— Ela sabe como as coisas funcionam entre nós.
— Sabe hoje. Amanhã, se apaixona, começa a cobrar namoro, quer conhecer teu pai, escolher a cor das cortinas da tua casa e, quando tu vê, tá comprando aliança.
— Tá maluco? — ri, incrédulo. — Tá vendo muito filme romântico, Jorge.
— Eu tô é vendo o futuro, meu parceiro.
— Então aproveita essa tua visão e vê se descobre os números da Mega-Sena.
Os moleques começaram a rir, e Jorge me mostrou o dedo do meio.
Seguimos em direção ao estacionamento, conversando sobre o que poderíamos fazer naquela tarde. Um dos caras sugeriu irmos a um bar, enquanto o outro já estava pesquisando uma festa que aconteceria naquela noite. Eu não tinha preferência. Desde que houvesse bebida, música e nenhuma obrigação de ficar ouvindo reclamação, qualquer lugar servia.
Meu celular vibrou no bolso, mas ignorei. Achei que fosse alguma mensagem dos homens que trabalhavam comigo ou algum assunto relacionado à movimentação do morro. Eu verificaria depois. Naquele momento, queria apenas aproveitar algumas horas de tranquilidade.
Entrei no carro, joguei a mochila no banco do passageiro e liguei o motor. Jorge entrou ao meu lado, enquanto os outros dois seguiram no veículo deles.
— Bora, desgraçado! — ele disse, colocando o cinto. — Hoje eu quero beber até esquecer que existe Estatística.
— Tu não precisa beber para esquecer. Tu já não lembra de nada mesmo.
— Vai se f***r, Vicente!
Arranquei do estacionamento rindo, mas não chegamos a sair da faculdade.
Meu celular começou a tocar.
Olhei rapidamente para a tela e vi o nome do meu pai.
A expressão no meu rosto mudou na mesma hora.
Jorge percebeu.
— Deu merda?
— Ainda não sei.
Atendi pelo viva-voz, mantendo os olhos no movimento à nossa frente.
— Fala, pai.
A voz de Vitor surgiu do outro lado, firme e direta.
— Onde você está?
— Na faculdade. Tô saindo agora.
— Preciso de você na Rocinha.
Franzi a testa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Temos uma reunião hoje, e quero você presente.
Olhei para o relógio no painel.
— Agora?
— Sim, Vicente. Agora.
Meu pai não costumava me chamar sem motivo. Se estava pedindo que eu voltasse imediatamente, era porque havia alguma coisa importante para resolver.
— Qual é o assunto?
— Conversamos quando você chegar.
A resposta não me agradou nem um pouco.
— Pai, eu tinha combinado de sair com os moleques.
— Então desfaça o combinado.
Apertei o volante.
— p***a, pai…
— Vicente.
Bastou ouvir o tom de voz dele para eu entender que não adiantaria discutir.
Meu pai podia ser paciente comigo em muitas situações, mas existiam assuntos nos quais não aceitava questionamentos. Eu conhecia aquela voz desde criança e sabia quando era melhor parar de insistir.
Soltei o ar devagar.
— Tá. Tô indo.
— Não demore.
A ligação terminou.
Fiquei alguns segundos olhando para a tela do celular antes de jogá-lo no console do carro.
— c*****o, lá se foi nosso rolê — Jorge resmungou.
— Parece que sim.
— Tu sabe o que aconteceu?
— Não. Meu pai não quis falar pelo telefone.
Jorge endireitou o corpo no banco.
— Então deve ser alguma coisa importante.
— Provavelmente.
— Quer que eu vá contigo?
Olhei para ele.
— Não precisa. Se meu pai quisesse você na reunião, teria te chamado.
— Justo.
Virei o volante e comecei a fazer o caminho de volta. A animação que eu sentia minutos antes tinha desaparecido completamente. Quando meu pai me convocava daquela maneira, eu sabia que não estava sendo chamado apenas como filho. Estava sendo chamado porque precisava aprender, ouvir e participar de decisões que faziam parte da realidade em que eu tinha nascido.
Eu podia reclamar da faculdade, das cobranças e das responsabilidades, mas não era i****a a ponto de fingir que minha vida era igual à dos outros caras da minha idade.
Enquanto muitos estudantes estavam preocupados com provas, estágios e festas, eu precisava dividir meu tempo entre a faculdade e os assuntos da minha família. Era uma realidade que eu conhecia desde moleque, e, por mais que às vezes quisesse mandar tudo para a p**a que pariu, sabia que não podia simplesmente ignorá-la.
— Me deixa aqui na esquina — Jorge pediu quando nos aproximamos de uma rua movimentada. — Vou encontrar os outros e ver o que a gente faz mais tarde.
— Fechou.
Estacionei por alguns segundos, e ele abriu a porta, mas antes de sair se inclinou na minha direção.
— E vê se não mata ninguém nessa reunião, beleza? Tu tá com uma cara de poucos amigos do c*****o.
— Sai do meu carro, Jorge.
Ele riu alto.
— Te amo, irmão!
— Vai tomar no cu!
Jorge bateu a porta gargalhando, e eu voltei a acelerar.
Meu celular vibrou novamente.
Dessa vez, quando olhei para a tela, vi uma mensagem de Sara.
Sara: Já tô com saudade, gostoso. ❤️
Passei a língua pelos lábios, pensando no que responder. Não estava com disposição para conversar naquele momento, mas sabia que, se ignorasse a mensagem, provavelmente receberia outra em seguida.
Eu: Tô resolvendo umas paradas agora. Depois falo contigo.
A resposta dela chegou pouco depois.
Sara: Você vai demorar muito?
Suspirei.
Eu: Não sei, Sara. Tô indo pra Rocinha resolver um assunto com meu pai.
Ela visualizou a mensagem, mas não respondeu imediatamente. Aproveitei para guardar o celular e prestar atenção no trânsito.
Eu estava quase chegando à entrada da comunidade quando o aparelho voltou a tocar. O nome dela apareceu novamente na tela.
Atendi usando o viva-voz.
— Fala.
— Nossa, que animação! — Sara respondeu, com uma ironia evidente na voz.
— Qual foi agora?
— Nada. Só queria saber se você já estava indo embora mesmo.
— Tô no caminho.
— Ah, entendi.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, esperando que ela dissesse logo o que queria.
— Você tá onde? — perguntei.
— No shopping, perto da entrada principal. Vim dar uma volta com a Rafaela, mas ela foi olhar umas lojas e eu fiquei esperando.
— E daí?
— E daí que eu queria te ver.
Olhei para a rua à minha frente e depois para o relógio.
Eu tinha uma reunião para a qual meu pai havia exigido minha presença, mas ainda havia algum tempo antes de chegar ao lugar combinado. O shopping não ficava tão longe do meu caminho, e encontrar Sara por alguns minutos não significaria abandonar minhas responsabilidades.
Além disso, eu não estava com vontade de começar outra discussão por telefone.
— Tô passando aí rapidinho — avisei. — Mas não posso ficar muito tempo.
A voz dela mudou imediatamente.
— Sério?
— Sério, p***a. Só uns minutos.
— Tá bom! Vou ficar te esperando aqui.
Encerrei a ligação e fiz o desvio necessário.
Quando cheguei ao shopping, encontrei uma vaga próxima à entrada. Estacionei o carro e mandei uma mensagem avisando que já estava ali. Pouco depois, vi Sara saindo pela porta de vidro, olhando ao redor até me encontrar.
Ela veio na minha direção com um sorriso satisfeito, abriu a porta do passageiro e entrou.
— Pensei que você não fosse aparecer — disse, ajeitando a bolsa no colo.
— Eu falei que passaria.
— Você também fala um monte de coisas e depois desaparece.
Virei o rosto para ela.
— Sara, eu acabei de chegar. Não começa com essa merda.
Ela me encarou por um instante, depois soltou um suspiro e se aproximou.
— Tá bom. Não vou brigar com você.
— Ótimo.
— Só quero aproveitar um pouquinho.
Antes que eu respondesse, Sara colocou a mão na minha nuca e me beijou.
Correspondia ao beijo quando ela se aproximava, e não havia nada de errado nisso. Gostava do corpo dela junto ao meu, do perfume que usava e da maneira como me puxava para perto quando queria minha atenção. Era uma atração física, direta, sem grandes complicações — pelo menos enquanto nenhum dos dois tentasse transformar aquilo em algo que nunca prometemos ser.
Segurei sua cintura e a trouxe para mais perto. Ela sorriu contra minha boca, passando os dedos pelos meus cabelos antes de voltar a me beijar.
— Tava com saudade de você — murmurou, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos meus olhos.
— A gente se viu hoje, Sara.
— E daí? Posso sentir saudade mesmo assim.
Soltei uma risada baixa.
— Tu é insistente, hein?
— E você é insuportável.
— Mas tá aqui me beijando.
— Infelizmente, você é bonito demais para o seu próprio bem.
Ri novamente, e ela aproveitou para me dar outro beijo.
Por alguns minutos, ficamos ali, trocando beijos e carícias, aproveitando o pouco tempo que tínhamos antes de eu precisar ir embora. Sara parecia satisfeita por eu ter aparecido, e eu não tinha motivo para estragar aquele momento com uma discussão desnecessária.
Mas o celular vibrou no console, interrompendo o clima.
Olhei para a tela.
Uma mensagem do meu pai.
Vitor: Estou esperando você. Não se atrase.
Fechei os olhos por um instante e soltei o ar.
— Merda.
Sara afastou o rosto.
— O que foi?
— Preciso ir.
A expressão dela mudou.
— Já?
— Já. Meu pai tá me esperando.
— Você acabou de chegar!
— E fiquei mais tempo do que deveria.
Ela cruzou os braços, visivelmente contrariada.
— É sempre assim, Vicente. Você aparece, me beija, fica alguns minutos e depois vai embora como se eu fosse só mais uma coisa na sua agenda.
Passei a mão pelo rosto, tentando controlar a irritação.
— Sara, eu te avisei que não podia ficar. Você sabia disso antes de entrar no carro.
— Eu sei, mas…
— Mas o quê? — perguntei, encarando-a. — Eu vim porque você queria me ver. Poderia ter seguido direto para a Rocinha, mas fiz questão de passar aqui. Agora tenho um compromisso que não posso deixar esperando. Não vou discutir por causa disso.
Ela desviou os olhos para a janela.
Por alguns segundos, o silêncio tomou conta do carro.
Eu sabia que ela queria mais atenção. Talvez quisesse que eu cancelasse meus compromissos para ficar com ela, que mandasse mensagens durante o dia inteiro ou que começasse a tratá-la como uma namorada. Mas eu não era esse cara. Não naquele momento, não com ela e não com mulher nenhuma.
Minha vida já era complicada demais para eu assumir uma relação que não queria.
— Eu não quero brigar com você — Sara disse por fim, num tom mais baixo.
— Então não precisa.
Ela voltou a me olhar.
— Você vai me ligar depois?
Peguei o celular e guardei no bolso.
— Se eu conseguir.
Sara apertou os lábios, mas não respondeu.
Inclinei-me e dei um beijo rápido nela, encerrando aquele encontro antes que a conversa se transformasse em mais uma cobrança.
— Se cuida.
— Você também.
Abri a porta, saí do carro e dei a volta até o lado do passageiro para abrir espaço para ela sair. Sara desceu com a bolsa no ombro, ajeitou a roupa e ficou me olhando por alguns segundos.
— Tchau, Vicente.
— Tchau.
Ela se afastou em direção à entrada do shopping, e eu esperei até vê-la entrar antes de voltar para o carro.
Não me senti culpado.
Eu tinha sido claro desde o começo. Sara sabia que não existia compromisso entre nós e que eu não estava procurando um relacionamento. Se, com o passar do tempo, ela começou a desejar outra coisa, essa era uma questão que precisaria resolver consigo mesma.
Eu não podia oferecer aquilo que não sentia.
Liguei o motor, saí da vaga e retomei o caminho para a Rocinha.
Conforme me aproximava da comunidade, o movimento conhecido das ruas foi tomando conta da minha visão. As pessoas circulavam pelas vielas, os comerciantes atendiam seus clientes e o barulho das conversas se misturava ao som das motos e da música que vinha de algumas casas. Era um cenário que eu conhecia desde criança, um lugar onde meu sobrenome carregava um peso que eu nunca conseguiria ignorar completamente.
Ali, eu não era apenas Vicente, o estudante de Engenharia Civil que reclamava de Estatística e queria sair com os amigos.
Eu era filho de Vitor.
E, querendo ou não, isso significava muita coisa.
Estacionei na garagem da propriedade da minha família e desci do carro. Um dos homens que trabalhavam ali me cumprimentou com um movimento de cabeça, e eu respondi da mesma forma antes de seguir para dentro.
Minha casa sempre tinha sido grande demais para a quantidade de pessoas que realmente importavam. Depois que minha mãe morreu, os cômodos pareciam ter ficado ainda maiores, e o silêncio, muito mais difícil de suportar.
Isabel tinha sido o coração daquela casa.
Mesmo quando eu chegava tarde, depois de uma festa ou de passar horas fora, ela costumava estar acordada, perguntando se eu tinha comido, se estava tudo bem e se eu precisava conversar. Às vezes, eu respondia com poucas palavras, fingindo que estava com pressa. Em outras ocasiões, sentava ao lado dela e acabava contando coisas que não falaria para mais ninguém.
Ela era professora universitária, inteligente, firme e dona de uma paciência que eu nunca entendi como conseguia manter comigo.
Quando ela morreu, três anos atrás, alguma coisa em mim mudou de um jeito que nunca consegui explicar direito.
Eu não gostava de pensar nisso.
Não gostava de lembrar do hospital, dos dias difíceis, da sensação de impotência e, principalmente, do vazio que ficou depois que ela se foi. Meu pai também sofreu, embora raramente demonstrasse o que sentia. Cada um lidou com a perda à sua maneira, e a minha foi aprender a não ficar tempo demais em silêncio.
As festas ajudavam.
As mulheres ajudavam.
A bebida ajudava a preencher algumas horas.
Mas nada disso mudava o fato de que, em determinados momentos, eu ainda sentia falta de ouvir a voz da minha mãe me chamando para jantar.
Apertei a mandíbula e afastei aquelas lembranças.
Não era hora de pensar nisso.
Segui pelo corredor até a sala onde meu pai costumava receber as pessoas para conversas importantes. Antes de entrar, ouvi vozes masculinas vindas do interior. Reconheci algumas delas e entendi que a reunião já estava prestes a começar.
Respirei fundo, ajeitei a camisa e empurrei a porta.
Vitor estava sentado à cabeceira da mesa, com uma expressão séria. Ao redor dele, alguns homens conversavam em voz baixa, mas o assunto foi interrompido assim que entrei.
Meu pai ergueu os olhos na minha direção.
— Até que enfim, Vicente.
Olhei para o relógio.
— Ainda tô no horário.
— Está — ele respondeu, sem sorrir. — Sente-se. Precisamos conversar.
Puxei uma cadeira e me sentei, deixando o celular sobre a mesa.
Meu pai observou meu rosto por alguns segundos, como se estivesse avaliando minha disposição antes de começar. Eu conhecia aquele olhar. Vitor podia ser meu pai, mas também era um homem acostumado a comandar, e não costumava desperdiçar palavras quando havia algo sério em jogo.
— Quero que você preste atenção no que vai ser dito aqui — ele começou. — O assunto de hoje é importante para o futuro da nossa família e para a responsabilidade que, mais cedo ou mais tarde, vai cair sobre os seus ombros.
Apoiei os antebraços na mesa.
— Tô ouvindo.
Vitor entrelaçou os dedos e lançou um olhar aos homens presentes antes de voltar a atenção para mim.
— Então vamos começar.
A conversa que eu esperava ter naquela noite não seria sobre faculdade, festas ou qualquer uma das coisas que costumavam ocupar meus pensamentos. Meu pai havia me chamado porque queria que eu participasse de uma discussão que poderia mudar a maneira como eu enxergava as minhas responsabilidades dali em diante.
E, pelo jeito como ele me encarava, eu sabia que não seria uma reunião curta.
Fiquei em silêncio, esperando que ele continuasse.
Pela primeira vez naquele dia, deixei de pensar em Sara, nos meus amigos e na festa que provavelmente estava perdendo.
Agora, toda a minha atenção estava naquela mesa.
Eu só ainda não sabia o quanto aquela conversa mudaria os próximos dias da minha vida.
Mensagem da autora: Minhas lindas, deixem seus comentários e me contem o que acharam! 🥰 O que será que Vitor vai revelar nessa reunião? E será que essa noite vai mudar os planos de Vicente? 👀🔥 Não percam os próximos capítulos!