CAPÍTULO 9 — MIRELLA
Acordei com o despertador tocando pela terceira vez e, por alguns segundos, considerei seriamente a possibilidade de fingir que não estava ouvindo. Meu corpo ainda estava cansado do dia anterior, minha cabeça já tinha começado a fazer contas antes mesmo de eu abrir os olhos e a lista de coisas que precisava resolver parecia crescer cada vez que eu respirava.
Faculdade, trabalho, matrícula, horários, dinheiro.
E agora aquela mensagem da coordenação.
Estiquei o braço, peguei o celular na mesinha e abri novamente o e-mail que havia recebido na noite anterior. A solicitação continuava ali, com as mesmas palavras, convidando-me para uma conversa sobre uma possível oportunidade de trabalho ligada às atividades acadêmicas.
Não era uma promessa de contratação, eu sabia. O funcionário com quem conversei na faculdade tinha explicado que existiam critérios, disponibilidade de vagas e uma avaliação antes de qualquer decisão. Mesmo assim, não conseguia deixar de pensar no quanto aquela oportunidade poderia me ajudar.
Eu precisava de dinheiro.
Não tinha vergonha de admitir isso, muito menos de trabalhar para conseguir o que precisava. Desde muito nova, aprendi que as contas não esperavam a gente estar bem emocionalmente para vencerem. O aluguel chegava, a comida acabava, a energia precisava ser paga e a vida continuava exigindo coisas mesmo quando a gente m*l tinha forças para sair da cama.
A diferença era que agora eu também precisava encontrar espaço para estudar.
E eu não pretendia abrir mão da faculdade depois de ter lutado tanto para conseguir a bolsa.
Sentei na cama e respondi à mensagem, confirmando minha disponibilidade para comparecer à coordenação naquela manhã. Depois, levantei, tomei banho e vesti uma calça jeans, uma blusa clara e o tênis que usava praticamente todos os dias. Prendi o cabelo, organizei os documentos na bolsa e conferi se estava levando o caderno.
Antes de sair do quarto, olhei para a fotografia da minha mãe sobre a cômoda.
— Vamos ver o que é isso, mãe — murmurei. — Se for uma oportunidade boa, vou tentar aproveitar.
Peguei a bolsa e saí.
No caminho, passei por uma padaria e comprei um pão para comer no ônibus. O dinheiro estava contado, então não havia espaço para gastar com qualquer coisa que não fosse necessária. Enquanto comia, conferi o saldo da minha conta e fiz uma pequena lista mental das despesas que ainda precisava pagar naquele mês.
Não era uma quantia grande, mas, para mim, cada real tinha destino.
Quando cheguei à faculdade, segui diretamente para a coordenação. O corredor estava movimentado, com estudantes entrando e saindo das salas, alguns carregando livros, outros reclamando de provas e trabalhos. Passei por eles em silêncio, sentindo aquele nervosismo familiar de quem ainda estava aprendendo a ocupar um espaço que, durante muito tempo, parecia distante demais.
Na recepção, uma funcionária pediu que eu aguardasse.
Sentei em uma das cadeiras e abri o caderno, tentando revisar as informações da matrícula enquanto esperava. Não consegui me concentrar muito. Minha atenção voltava para a porta da sala a cada pessoa que aparecia.
Eu precisava entender exatamente o que estavam oferecendo antes de aceitar qualquer coisa.
Não podia me dar ao luxo de abandonar meu trabalho atual por uma promessa incerta. Tampouco poderia assumir uma responsabilidade que me fizesse perder aulas ou prejudicasse meu desempenho acadêmico.
Eu tinha aprendido da pior maneira que uma decisão m*l calculada podia trazer consequências que demoravam meses para serem resolvidas.
— Mirella?
Levantei a cabeça.
Uma mulher de cabelos castanhos, usando uma camisa social e um crachá da instituição, estava parada diante de mim.
— Sou eu.
— Bom dia. Pode entrar, por favor. A coordenadora vai conversar com você.
Levantei imediatamente e a acompanhei.
A sala era simples, com uma mesa, três cadeiras, um computador e algumas pastas organizadas em um armário. Havia também uma janela que dava para uma área interna da faculdade, por onde entrava a claridade da manhã.
A coordenadora estava sentada diante do computador. Assim que me viu, sorriu e indicou a cadeira à sua frente.
— Bom dia, Mirella. Sente-se, por favor.
— Bom dia.
A mulher que me acompanhara fechou a porta e se sentou ao lado da coordenadora.
— Meu nome é Patrícia, sou responsável por parte dos programas de apoio acadêmico — explicou a coordenadora. — E esta é a Daniela, que trabalha conosco na organização das atividades estudantis.
Cumprimentei as duas e acomodei a bolsa no colo.
— Recebi a mensagem de vocês ontem à noite — comecei. — Fiquei interessada na oportunidade, mas gostaria de entender melhor como funciona.
Patrícia sorriu, como se já esperasse aquela pergunta.
— Claro. Antes de qualquer coisa, queremos parabenizá-la pelo resultado no processo seletivo. Sua pontuação foi muito boa, e isso chamou a atenção da equipe.
Senti minhas bochechas esquentarem.
— Obrigada. Eu estudei bastante para conseguir a bolsa.
— Isso é perceptível. E é justamente por esse motivo que seu nome foi considerado para uma possível atividade de apoio acadêmico.
Endireitei a postura.
— Que tipo de atividade?
Daniela abriu uma pasta e retirou algumas folhas.
— A faculdade possui um programa que busca aproximar estudantes com bom desempenho daqueles que precisam de apoio em determinadas disciplinas. Dependendo do perfil do aluno e dos critérios exigidos, podemos selecionar estudantes para auxiliar em revisões de conteúdo, organização de estudos e resolução de exercícios.
Fiquei atenta a cada palavra.
— Seria como uma monitoria?
— É parecido, mas existem algumas modalidades — explicou Patrícia. — Algumas funções são de monitoria formal, que exigem determinados requisitos acadêmicos. Outras envolvem acompanhamento individual ou em pequenos grupos. Cada atividade possui atribuições específicas, e a remuneração varia conforme a modalidade e a carga horária.
A informação sobre remuneração fez meu coração acelerar.
Eu não queria demonstrar que estava desesperada por dinheiro, mas também não fazia sentido fingir que aquele detalhe não era importante.
— E eu poderia participar mesmo estando no início do curso?
Patrícia consultou alguns documentos antes de responder.
— Depende da função. Não podemos colocá-la em uma atividade para a qual você ainda não tenha a formação acadêmica necessária. Entretanto, há possibilidades de apoio compatíveis com diferentes etapas do curso. Precisamos avaliar seu perfil e verificar quais vagas estão disponíveis.
Assenti devagar.
— Entendi. E os horários são fixos?
— Em geral, sim. Precisamos organizar os encontros de acordo com a disponibilidade dos estudantes envolvidos e com as necessidades acadêmicas. Em alguns casos, existe uma margem para ajustes, mas isso depende da atividade.
Apertei os dedos ao redor da alça da bolsa.
Era exatamente o que me preocupava.
— Eu gostaria muito de participar, mas preciso explicar uma coisa. Eu trabalho como faxineira e dependo desse dinheiro para pagar minhas contas. Não posso simplesmente deixar meu emprego, porque consegui uma bolsa para estudar, mas continuo precisando me sustentar.
As duas me olharam com atenção.
— Fez muito bem em explicar isso — respondeu Patrícia. — Não esperamos que você abandone uma fonte de renda sem conhecer as condições da atividade. A ideia é encontrar uma possibilidade que seja viável tanto para você quanto para a instituição.
Senti meus ombros relaxarem um pouco.
— Eu posso conciliar os dois, desde que consiga organizar os horários. Só não quero aceitar alguma coisa e depois descobrir que preciso faltar ao trabalho ou às aulas.
— Essa preocupação demonstra responsabilidade — comentou Daniela. — Muitos estudantes chegam até nós sem pensar nessa parte. Você está certa em perguntar antes de assumir qualquer compromisso.
Baixei os olhos para as folhas sobre a mesa.
Eu não estava acostumada a ouvir alguém dizer que fazia bem em pensar no próprio futuro. Durante muito tempo, precisei aceitar o que aparecia, porque não tinha a segurança de poder escolher. Agora, pela primeira vez, eu queria aprender a avaliar as oportunidades sem agir apenas por medo de ficar sem dinheiro.
— E como funciona a remuneração? — perguntei. — Existe um valor fixo por mês ou depende das horas trabalhadas?
Patrícia explicou que o pagamento variava de acordo com a modalidade, a carga horária e as regras do programa. Ainda não poderia me apresentar um valor definitivo, porque a equipe precisava confirmar qual atividade seria compatível com meu perfil.
Não era exatamente a resposta que eu esperava, mas preferia uma explicação honesta a uma promessa que não pudesse ser cumprida.
— Certo — respondi. — E, se eu for selecionada, posso continuar trabalhando nos outros dias?
— Essa é justamente uma das questões que precisamos avaliar — disse ela. — Antes de qualquer decisão, queremos entender sua disponibilidade, seu desempenho e os compromissos que você já possui.
Patrícia fez algumas perguntas sobre meus horários de trabalho, o tempo que eu levava para chegar à faculdade e a forma como pretendia organizar os estudos. Respondi com sinceridade.
Expliquei que trabalhava como faxineira, que tinha despesas fixas e que não contava com ajuda financeira de familiares. Também falei sobre a minha intenção de manter o emprego enquanto estudava.
Não entrei em detalhes sobre a morte da minha mãe. Ainda era doloroso demais transformar aquela perda em assunto de uma conversa profissional.
Quando terminei de responder, Patrícia anotou algumas informações.
— Mirella, pelo que você nos contou, acredito que vale a pena continuar avaliando seu perfil. Mas quero deixar claro que ainda não estamos oferecendo uma vaga. Estamos reunindo informações para identificar os estudantes que podem se encaixar nas oportunidades disponíveis.
— Eu entendo.
— Há uma possibilidade de acompanhamento individual em uma disciplina que exige atenção especial. O estudante precisa recuperar parte do conteúdo e melhorar o desempenho acadêmico. Estamos organizando a distribuição dos tutores e verificando quais candidatos atendem aos requisitos.
Fiquei pensativa.
— E qual seria a disciplina?
Daniela consultou a pasta.
— Estatística.
Meu coração deu um pequeno salto.
Eu gostava de números quando conseguia compreender a lógica por trás deles. Não era o tipo de pessoa que aprendia tudo de primeira, mas tinha facilidade para organizar informações, identificar padrões e explicar conteúdos de maneiras diferentes. Na época da escola, costumava ajudar alguns colegas com exercícios de matemática, especialmente quando eles ficavam nervosos diante de uma prova.
Ainda assim, sabia que ajudar alguém na faculdade seria diferente de explicar uma conta para um amigo.
— Eu precisaria passar por alguma avaliação? — perguntei.
— Sim — respondeu Patrícia. — Precisamos confirmar se você atende aos requisitos da atividade e se tem disponibilidade para cumprir os encontros. Também é importante verificar se a sua participação será compatível com o seu período acadêmico.
Assenti.
— Eu gostaria de tentar.
— Ótimo. Vamos registrar seu interesse. A equipe analisará as possibilidades e, caso seu perfil seja compatível com alguma delas, entraremos em contato.
A conversa continuou por mais alguns minutos. Recebi orientações sobre os documentos que poderia precisar apresentar e fui informada de que deveria acompanhar o e-mail cadastrado para não perder nenhuma comunicação.
Antes de sair, fiz mais uma pergunta:
— Se eu for selecionada, vou poder conhecer os horários antes de aceitar definitivamente?
— Sim. A proposta precisa ser compatível com sua rotina e com as exigências da atividade. Você terá acesso às informações necessárias para avaliar se consegue assumir esse compromisso.
Sorri, aliviada.
— Muito obrigada pela atenção. Eu realmente quero aproveitar as oportunidades que a faculdade oferece, mas preciso fazer tudo com responsabilidade.
Patrícia se levantou e apertou minha mão.
— Continue assim, Mirella. Você já demonstrou iniciativa ao procurar informações e cuidado ao avaliar suas possibilidades. Isso conta bastante.
Despedi-me das duas e saí da sala.
No corredor, parei perto de uma janela e respirei fundo.
Eu ainda não tinha uma vaga garantida. Não sabia quanto receberia, quantas horas precisaria dedicar à atividade ou se realmente seria escolhida para acompanhar algum estudante. Mesmo assim, saí daquela conversa com a sensação de que estava fazendo alguma coisa certa.
Pela primeira vez em muito tempo, não estava apenas tentando sobreviver ao mês seguinte. Estava procurando maneiras de construir uma rotina que me permitisse estudar, trabalhar e continuar caminhando em direção ao meu sonho.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Camila.
Eu: Acabei de sair da coordenação.
A resposta veio rapidamente.
Camila: E AÍ, MULHER? CONTA TUDO!
Sorri.
Eu: Eles estão avaliando a possibilidade de me colocar em um programa de apoio acadêmico. Talvez eu consiga uma atividade remunerada na faculdade.
Camila: AMIGA, ISSO É MARAVILHOSO!
Eu: Calma. Ainda não é uma vaga garantida.
Camila: Eu sei, criatura! Mas já é uma possibilidade. E você tem que tentar.
Eu: Estou com medo de não conseguir conciliar tudo.
Camila: Você vai organizar. E, se ficar muito pesado, a gente senta e pensa em uma solução. Só não vai desistir antes de saber se consegue.
Fiquei olhando para a mensagem por alguns segundos.
Eu: Obrigada por sempre acreditar em mim.
Camila: Alguém precisa acreditar nessa cabeça dura. Agora vai trabalhar, futura arquiteta, porque boleto não aceita declaração de amor.
Ri sozinha.
Eu: Infelizmente, né? Imagina se aceitasse.
Camila: Eu já tinha quitado metade das minhas contas mandando coraçãozinho.
Guardei o celular, ainda sorrindo, e segui para o trabalho.
O restante da manhã passou sem grandes acontecimentos. Eu me concentrei nas tarefas, organizei os produtos de limpeza e procurei terminar tudo dentro do horário combinado. A conversa na faculdade continuava voltando à minha cabeça, mas tentei não alimentar expectativas antes de receber uma resposta concreta.
Quando terminei o serviço, conferi as horas e me preparei para ir embora. Foi nesse momento que meu celular tocou.
O nome do meu patrão apareceu na tela.
Atendi imediatamente.
— Alô, seu Roberto? Boa tarde.
— Boa tarde, Mirella. Tudo bem com você?
— Tudo, sim. Aconteceu alguma coisa?
— Não, nada de errado. Na verdade, queria conversar sobre um serviço.
Endireitei a postura, segurando a bolsa com a outra mão.
— Pode falar.
Seu Roberto era o homem que me contratava para fazer faxinas em algumas residências. Ele sempre foi correto comigo, pagava o valor combinado e nunca me tratou com desrespeito. Por isso, quando ligava, eu costumava prestar bastante atenção ao que dizia.
— Você lembra que comentei sobre a casa do meu filho?
Franzi a testa, tentando me recordar.
— O senhor comentou que ele tinha uma residência que precisava de manutenção, não foi?
— Exatamente. A casa é grande e ele passa boa parte do tempo fora. Preciso de alguém de confiança para fazer a limpeza com regularidade, cuidar da organização e avisar caso encontre algum problema.
Olhei para a rua, calculando mentalmente quanto aquela possibilidade poderia ajudar nas minhas despesas.
— Seria quantas vezes por semana?
— A princípio, duas vezes. Talvez três, dependendo da necessidade. Quero combinar os dias com você para não atrapalhar os outros serviços.
Duas vezes por semana.
A proposta parecia boa, mas eu precisava entender todos os detalhes antes de aceitar.
— E o pagamento seria por diária, como nos outros serviços?
— Sim. Podemos manter o valor que já combinamos para as casas maiores. Se a frequência aumentar, conversamos novamente.
Fiz as contas mentalmente.
Aquele dinheiro faria diferença. Eu poderia reservar uma parte para alimentação, outra para as despesas da casa e ainda guardar um pouco para materiais da faculdade. Não seria suficiente para resolver todos os meus problemas, mas me daria um pouco mais de segurança.
— Eu tenho interesse, seu Roberto. Só preciso organizar meus horários por causa da faculdade.
— Claro. Você conseguiu a bolsa, não foi? Fiquei sabendo que estava esperando o resultado.
Sorri, surpresa por ele se lembrar.
— Consegui, sim. Estou resolvendo os detalhes da matrícula.
— Parabéns, Mirella. Fico feliz por você. Sei que se esforça bastante.
Aquelas palavras me fizeram sorrir de verdade.
— Muito obrigada.
— E não precisa se preocupar com isso agora. Quero combinar um horário que funcione para nós dois. A casa fica disponível durante boa parte do dia, então podemos ajustar as visitas.
Assenti, mesmo sabendo que ele não podia me ver.
— Certo. Posso continuar trabalhando nos outros lugares também?
— Claro. Não estou pedindo exclusividade. Só preciso que você cumpra os dias combinados e me avise com antecedência caso aconteça algum imprevisto.
— Pode deixar. Eu sempre aviso.
— Ótimo. Você já conhece o tipo de serviço que faço questão que seja realizado. É manter a casa limpa, cuidar da cozinha, dos banheiros, tirar o pó dos móveis e deixar tudo organizado. Não precisa mexer em documentos pessoais nem em objetos que não façam parte da limpeza.
— Entendi.
— Meu filho costuma ficar fora durante o dia, então provavelmente você terá a casa só para você. Se precisar de alguma coisa, pode me ligar.
Aquilo me pareceu perfeito. Eu gostava de trabalhar em ambientes tranquilos, onde pudesse cumprir minhas tarefas sem precisar me preocupar com conversas desnecessárias ou pessoas circulando pelos cômodos.
— Tudo bem, seu Roberto. Podemos combinar os dias.
— Vou conferir a agenda e te mando uma mensagem ainda hoje. Quero começar na próxima semana, se você puder.
— Posso, sim. Só preciso saber os dias e os horários para organizar tudo.
— Combinado. Obrigado, Mirella.
— Eu que agradeço pela oportunidade.
Encerramos a ligação, e fiquei parada por alguns segundos, olhando para o celular.
Mais um serviço.
Mais uma oportunidade de conseguir dinheiro sem abandonar meu emprego.
Mas também mais uma responsabilidade para encaixar em uma rotina que já começava a ficar apertada.
Soltei o ar devagar.
— Um passo de cada vez — murmurei para mim mesma.
Eu não podia recusar uma oportunidade importante por medo de ficar cansada. Ao mesmo tempo, não podia aceitar tudo sem pensar nas consequências. Precisava encontrar um equilíbrio, e aquilo exigiria organização.
Caminhei até o ponto de ônibus e mandei uma mensagem para Camila.
Eu: Acabei de receber outra proposta de trabalho.
Camila: OUTRA?!
Eu: Seu Roberto quer que eu cuide da limpeza da casa do filho dele duas vezes por semana.
Camila: Amiga, isso é ótimo! Vai entrar mais dinheiro.
Eu: Vai, mas eu ainda nem comecei as aulas direito. Estou com medo de me enrolar toda.
Camila: Então espera ele confirmar os dias e coloca tudo no papel. Você não precisa resolver o mês inteiro hoje.
Sorri ao ler a resposta.
Era fácil esquecer que eu não precisava ter todas as respostas imediatamente. Eu estava tão acostumada a viver preocupada com o próximo problema que, às vezes, nem conseguia aproveitar quando alguma coisa dava certo.
Eu: Vou fazer isso.
Camila: E, por favor, não inventa de ficar sem comer para economizar dinheiro. Se tiver que escolher entre comprar um caderno e comprar comida, me liga antes. A gente dá um jeito.
Meu sorriso diminuiu um pouco.
Camila sabia que eu era capaz de economizar até no que não devia quando as contas apertavam. Também sabia que eu detestava pedir ajuda.
Eu: Eu vou me cuidar, prometo.
Camila: Vou cobrar essa promessa, viu?
Guardei o celular e me concentrei no caminho de volta.
Quando cheguei em casa, deixei a bolsa sobre a cadeira e fui preparar alguma coisa para comer. Depois, lavei a louça, organizei os documentos da faculdade e abri o caderno onde tinha começado a montar minha rotina.
Na primeira página, escrevi os compromissos que já conhecia. Em seguida, deixei espaços para preencher os horários das aulas, os dias de trabalho e as possíveis sessões do programa acadêmico.
A folha começou a ficar cheia rapidamente.
Eu ainda nem tinha recebido a grade definitiva e já precisava planejar cada parte da semana.
Passei a mão pelo rosto e soltei uma risada cansada.
— Meu Deus, eu vou precisar de um calendário do tamanho dessa parede.
Mesmo assim, continuei.
Separei os compromissos fixos dos que poderiam ser ajustados, anotei o tempo de deslocamento entre os lugares e deixei uma margem para imprevistos. Não queria montar uma rotina tão apertada que qualquer atraso fosse suficiente para desorganizar tudo.
Também reservei algumas horas para estudar. Se conseguisse entrar no programa de apoio acadêmico, precisaria manter boas notas e demonstrar que estava preparada para a responsabilidade.
Eu não queria que alguém olhasse para mim e enxergasse apenas uma garota pobre que precisava de dinheiro.
Queria ser reconhecida pelo que sabia fazer, pela minha dedicação e pela capacidade de aprender.
Quando terminei a primeira versão da agenda, olhei para o relógio e percebi que já estava anoitecendo.
Peguei o celular para verificar se seu Roberto havia enviado os dias da faxina.
Havia uma mensagem nova.
Seu Roberto: Mirella, conferi minha agenda. Podemos combinar as limpezas da casa do meu filho às terças e quintas-feiras, durante o dia. Na próxima semana, você pode começar na terça, se estiver de acordo. Depois, ajustamos conforme a necessidade.
Li a mensagem com atenção.
Terça e quinta.
Anotei os dias no caderno e comecei a reorganizar os outros compromissos. A princípio, parecia possível, desde que as aulas não coincidissem com os horários de trabalho. Eu precisaria confirmar a grade da faculdade e talvez negociar algum ajuste com os outros clientes.
Respondi que tinha interesse e que confirmaria assim que recebesse todos os horários.
Seu Roberto enviou outra mensagem com o endereço da residência e algumas orientações sobre a entrada no imóvel. Salvei as informações e deixei o celular ao lado do caderno.
A casa do filho dele seria apenas mais um lugar para limpar. Eu não conhecia o proprietário, nunca havia conversado com ele e não tinha motivo para imaginar que aquela residência pudesse mudar alguma coisa na minha vida.
Para mim, era trabalho.
E trabalho significava dinheiro para pagar as contas, comprar os materiais da faculdade e continuar construindo o futuro que eu desejava.
Voltei a olhar para a agenda.
Terça-feira: limpeza na casa do filho do seu Roberto.
Quinta-feira: limpeza na casa do filho do seu Roberto.
Faculdade: horários a confirmar.
Programa de apoio acadêmico: aguardando avaliação.
Outros serviços: manter os compromissos já combinados.
Apertei os lábios ao perceber como a semana ficaria cheia.
Eu ainda precisaria encontrar tempo para estudar, preparar minhas refeições, cuidar da casa e descansar. Não queria chegar ao ponto de adoecer por excesso de trabalho, mas também não podia ignorar a realidade financeira em que vivia.
Fiquei alguns minutos pensando, até pegar a caneta novamente.
Ao lado da lista, escrevi:
Não desistir de mim mesma.
A frase parecia simples, mas significava muito.
Eu tinha passado tempo demais tentando sobreviver aos acontecimentos, reagindo a cada dificuldade conforme ela aparecia. Agora, precisava aprender a planejar, estabelecer limites e tomar decisões pensando não apenas no que eu precisava naquele dia, mas também na mulher que queria me tornar.
Fechei o caderno e me levantei para preparar o jantar.
Enquanto cortava os ingredientes, pensei na faculdade, na bolsa e na possibilidade de participar do programa acadêmico. Ainda não sabia se seria selecionada, mas queria estar preparada caso a oportunidade se concretizasse.
Talvez aquela fosse a chance de melhorar minha renda sem precisar abandonar os estudos.
Talvez eu conseguisse encontrar um equilíbrio entre as duas coisas.
Ou talvez enfrentasse semanas tão cansativas que precisaria rever meus planos.
Eu não tinha como saber.
Só podia fazer o melhor com as possibilidades que tinha.
Depois de jantar, lavei a louça e organizei as coisas para o dia seguinte. Coloquei os documentos na bolsa, separei uma roupa e conferi o despertador. Antes de dormir, ainda mandei uma mensagem para Camila, contando que seu Roberto havia confirmado os dias da faxina.
Ela respondeu com um áudio cheio de conselhos, brincadeiras e uma promessa de que me ajudaria a reorganizar a agenda se eu precisasse.
Sorri ao ouvir sua voz.
Ter Camila ao meu lado tornava tudo um pouco menos pesado.
Quando finalmente me deitei, o cansaço começou a vencer a ansiedade. Fechei os olhos e pensei no quanto minha vida havia mudado em tão pouco tempo.
Poucos dias antes, eu estava sentada diante de uma prova, torcendo para conseguir uma bolsa que talvez me permitisse estudar. Agora, tinha a matrícula encaminhada, uma possível oportunidade de trabalho na faculdade e mais uma residência para limpar.
Ainda não era a vida que eu sonhava.
Mas estava caminhando.
E, naquele momento, caminhar já era uma vitória.
Meu celular vibrou mais uma vez sobre a mesinha.
Abri os olhos, peguei o aparelho e vi uma notificação da faculdade.
A mensagem informava que a coordenação continuava avaliando os candidatos para o programa de acompanhamento acadêmico e que eu receberia uma resposta assim que a distribuição das atividades fosse concluída.
Soltei o ar devagar e coloquei o celular de volta no lugar.
— Tomara que dê certo — sussurrei.
Virei de lado, puxei o cobertor até os ombros e tentei afastar os pensamentos sobre o futuro.
Eu não sabia que tipo de estudante precisaria de ajuda, nem se seria escolhida para aquela função. Também não sabia que a casa que começaria a limpar na semana seguinte pertencia ao filho de seu Roberto, um homem que eu ainda não conhecia.
Para mim, eram apenas duas possibilidades de trabalho.
Duas oportunidades que poderiam me ajudar a permanecer na faculdade.
E eu estava disposta a fazer o que fosse necessário para não desperdiçá-las.
Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙❤️ Mirella está tentando abraçar o mundo sem desistir dos próprios sonhos. Será que ela vai conseguir conciliar tudo? E vocês já imaginam de quem é a casa que ela vai começar a limpar? 👀💕 No próximo capítulo, vamos voltar para Vicente, que está prestes a descobrir como será seu acompanhamento acadêmico!