11

4996 Words
CAPÍTULO 11 — MIRELLA Eu sempre imaginei que, quando conseguisse entrar na faculdade, sentiria que finalmente estava com a vida nos trilhos. Pensava que acordaria todos os dias feliz, que entraria na sala de aula com um sorriso no rosto e que, mesmo diante das dificuldades, teria aquela sensação gostosa de estar realizando um sonho. E eu sentia tudo isso, sim. Só não imaginava que realizar um sonho também pudesse cansar tanto. Desde que descobri que tinha conseguido a bolsa para cursar Arquitetura e Urbanismo, meus dias pareciam ter ficado menores. As vinte e quatro horas já não eram suficientes para tudo o que eu precisava fazer. Eu acordava cedo, me arrumava correndo, organizava minhas coisas, trabalhava, resolvia as pendências da faculdade e, quando finalmente chegava em casa, ainda precisava estudar. Às vezes, eu sentia que estava vivendo com o relógio grudado na mão, contando os minutos para não me atrasar para o próximo compromisso. Naquela manhã, por exemplo, meu despertador tocou às cinco e meia, mas eu já estava acordada havia alguns minutos. Tinha dormido tarde na noite anterior, tentando terminar a leitura de um material que a faculdade disponibilizara, e meu corpo parecia implorar por mais algumas horas de descanso. Mesmo assim, fiquei de pé. Desliguei o alarme, dobrei a coberta e arrumei a cama antes de seguir para o banheiro. — Vamos lá, Mirella — murmurei para mim mesma enquanto prendia o cabelo diante do espelho. — Você quis tanto essa oportunidade. Agora precisa fazer valer a pena. Lavei o rosto, escovei os dentes e tomei um banho rápido. Depois, vesti uma calça jeans simples, uma blusa confortável e meu tênis mais conservado. Separei os cadernos, conferi os documentos que precisava levar e coloquei tudo na bolsa. Antes de sair, passei pela cozinha e preparei um café preto. Não tinha muita coisa para comer, então peguei um pedaço de pão que havia sobrado do dia anterior e o dividi em duas partes. Uma comi ali mesmo; a outra guardei para mais tarde. Eu precisava aprender a organizar até a comida. Não podia gastar o dinheiro que ganhava de qualquer jeito, porque havia contas para pagar, material para comprar e despesas que apareceriam quando eu menos esperasse. A bolsa cobria meus estudos conforme as condições estabelecidas pela faculdade, mas não colocava comida na minha mesa nem pagava a luz da minha casa. Essas responsabilidades continuavam sendo minhas. Peguei a bolsa, tranquei a porta e segui para mais um dia de luta. O primeiro compromisso era um serviço de faxina que eu já havia combinado com seu Roberto. Desde que comecei a trabalhar para ele, sempre procurei fazer tudo da melhor maneira possível. Não gostava de deixar um canto sujo, uma louça esquecida ou uma tarefa pela metade. Para mim, trabalhar honestamente era motivo de orgulho, independentemente de quem fosse o dono da casa que eu estava limpando. Naquele dia, passei boa parte da manhã cuidando de uma residência onde precisava limpar os quartos, lavar os banheiros, organizar a cozinha e deixar a sala impecável. Coloquei os fones de ouvido por alguns minutos enquanto limpava os móveis, mas precisei interromper a música quando o celular começou a vibrar dentro do bolso. Era uma mensagem de Camila. Camila: Bom dia, mulher! Tá viva ou a faculdade já te matou? Sorri sozinha. Eu: Bom dia, doida. Tô viva, só tô correndo igual uma condenada. Camila: Eu sabia! Você vai acabar dormindo em pé. Eu: Não exagera. Só preciso de umas trinta horas a mais por dia. Camila: KKKKKKKKKK. Trinta horas não resolvem quando a pessoa quer fazer tudo ao mesmo tempo. Eu: Eu não quero fazer tudo. Só quero estudar, trabalhar, pagar minhas contas, comer e dormir. Camila: Ah, então é pouca coisa mesmo. Balancei a cabeça, rindo, e guardei o celular. Camila tinha esse jeito de arrancar um sorriso de mim mesmo quando eu estava cansada demais para conversar. Desde que minha mãe morreu, ela vinha tentando me ajudar a não me fechar completamente dentro de mim. Eu sabia que ela também sentia falta da minha mãe, mas nunca me pressionava a falar sobre o assunto quando percebia que eu não estava pronta. Terminei a limpeza, conferi cada cômodo e guardei os produtos nos lugares certos. Depois de lavar as mãos, peguei minha bolsa e olhei o horário. Precisava sair dali e resolver uma pendência na faculdade antes de seguir para outro compromisso de trabalho. A sensação era de estar sempre atrasada, mesmo quando eu fazia tudo dentro do tempo planejado. No caminho, aproveitei para revisar algumas anotações no celular. Eu ainda estava me acostumando com a linguagem dos professores, com a quantidade de materiais disponibilizados e com a responsabilidade de acompanhar as disciplinas sem deixar nenhuma acumular. Havia assuntos que me deixavam tão empolgada que eu esquecia o cansaço. Quando começávamos a falar sobre espaços, construções, projetos e a maneira como a arquitetura podia transformar a vida das pessoas, eu me lembrava de por que tinha escolhido aquele curso. Eu queria aprender a desenhar espaços que fossem bonitos, funcionais e acessíveis. Queria entender como uma casa podia oferecer segurança e dignidade, como um ambiente podia acolher alguém e como uma construção bem planejada podia fazer diferença na vida de uma família. Talvez porque eu soubesse como era morar em uma casa simples, onde cada coisa precisava ser aproveitada ao máximo. Talvez porque eu tivesse crescido vendo minha mãe se esforçar para tornar nosso lar aconchegante, mesmo quando o dinheiro m*l dava para as necessidades básicas. Minha mãe não tinha muito, mas fazia questão de que nossa casa tivesse vida. Eu ainda conseguia me lembrar do jeito como ela arrumava a mesa, das plantas que tentava manter perto da janela e das pequenas mudanças que fazia para deixar os cômodos mais bonitos. Às vezes, ela dizia que, se eu virasse arquiteta, deveria projetar uma casa para ela descansar sem se preocupar com nada. Eu tinha prometido que faria isso. E, embora não pudesse mais cumprir aquela promessa da maneira como sonhei, continuava querendo construir um futuro que me permitisse olhar para trás sem sentir que tinha desistido de tudo. Quando cheguei à faculdade, fui diretamente ao setor responsável pela minha matrícula. Precisava confirmar uma informação sobre os horários e verificar se havia algum material obrigatório que ainda não tinha conseguido acessar. A funcionária me atendeu com educação, consultou meu cadastro e explicou o que faltava. Anotei tudo cuidadosamente. — Mais alguma dúvida, Mirella? — ela perguntou. — Por enquanto, não. Muito obrigada pela atenção. Saí dali com a lista de pendências praticamente resolvida e fui até um espaço próximo à biblioteca para organizar minha agenda. Abri o caderno, escrevi os horários das aulas e comecei a distribuir os compromissos da semana. Foi quando percebi o tamanho do desafio. Além das aulas e dos estudos, eu precisava continuar trabalhando. Não podia simplesmente recusar as diárias que já tinha combinado, porque aquele dinheiro fazia diferença no meu orçamento. Ao mesmo tempo, seu Roberto havia me oferecido um serviço regular na casa do filho dele, às terças e quintas-feiras, com possibilidade de acrescentar um terceiro dia. Eu tinha demonstrado interesse, mas ainda precisava encaixar tudo sem comprometer a faculdade. Passei o dedo pelas linhas do caderno, tentando encontrar uma solução. — Segunda-feira, aula, trabalho e estudo… Terça, trabalho na casa do seu Roberto… Quarta, aula e serviço… Quinta, de novo na casa dele… — murmurei. — Meu Deus, eu vou precisar de uma agenda para organizar a agenda. Uma menina sentada perto de mim soltou uma risadinha. Olhei para ela, sem graça, e acabei rindo também. Talvez eu estivesse exagerando um pouco, mas não era fácil. Eu não tinha uma família com dinheiro para me sustentar enquanto eu estudava. Não podia abrir mão do trabalho e esperar que tudo se resolvesse sozinho. Cada escolha precisava ser calculada, e cada oportunidade tinha um peso enorme. Guardei o caderno quando percebi que estava na hora de seguir para o próximo serviço. O restante do dia passou depressa. Limpei mais uma casa, voltei para a minha e precisei lavar algumas roupas que estavam acumuladas. Quando terminei, meus braços estavam cansados e minhas costas doíam. Sentei na beirada da cama por alguns minutos, com a sensação de que, se fechasse os olhos, dormiria ali mesmo. Mas ainda havia comida para preparar e material da faculdade para revisar. Levantei novamente. Na cozinha, preparei algo simples para comer e deixei uma porção separada para o dia seguinte. Depois, lavei a louça, limpei a bancada e finalmente me permiti sentar à mesa com meus cadernos. Tentei estudar por quase uma hora, mas percebi que estava relendo o mesmo parágrafo sem absorver muita coisa. Apoiei a caneta sobre o papel e esfreguei os olhos. — Não adianta, Mirella. Se você não descansar, amanhã não vai conseguir fazer nada direito. Olhei para o relógio. Ainda tinha algumas páginas para ler, mas decidi marcar o trecho e continuar na manhã seguinte. Não gostava de deixar as coisas incompletas, só que precisava aprender a respeitar meus próprios limites. Eu queria muito realizar meus sonhos, mas não adiantaria me destruir no processo. Antes de me deitar, conferi o celular. Havia outra mensagem de Camila. Camila: Amanhã você vai sair comigo. Franzi a testa e respondi. Eu: Isso foi um convite ou uma ordem? Camila: Uma ordem disfarçada de convite. Eu: Camila, eu tenho coisa para fazer. Camila: Você sempre tem coisa para fazer. Vai passar a vida inteira trabalhando e estudando sem respirar? Fiquei olhando para a tela. Eu: Não é isso. Camila: Então amanhã a gente vai comer um espetinho. Só um pouquinho. Você merece sentar, conversar e comer alguma coisa sem olhar para o relógio a cada trinta segundos. Sorri, porque conhecia minha amiga. Quando colocava uma coisa na cabeça, era difícil fazê-la desistir. Eu: Tá bom. Mas não vou ficar até tarde. Camila: Fechado! Vou cobrar. Deixei o celular de lado e me deitei. Antes de dormir, pensei na minha mãe, como acontecia quase todas as noites. Às vezes, eu ainda tinha vontade de pegar o telefone e contar tudo o que estava acontecendo, como se ela fosse atender do outro lado e me ouvir reclamar da correria. Eu queria contar que tinha conseguido a bolsa. Queria falar sobre as aulas, sobre as oportunidades que estavam surgindo e sobre como eu estava tentando construir uma vida diferente. Queria ouvir a voz dela dizendo que estava orgulhosa de mim. Mas o silêncio era tudo o que eu tinha. Fechei os olhos, respirei fundo e tentei me agarrar à parte boa da saudade: a certeza de que, enquanto esteve comigo, minha mãe acreditou nos meus sonhos. E eu não queria decepcioná-la desistindo deles por medo ou cansaço. Eu conseguiria encontrar um jeito. Precisava conseguir. No dia seguinte, acordei com os braços doloridos e uma vontade absurda de continuar deitada. Por alguns segundos, fiquei olhando para o teto, negociando comigo mesma mais cinco minutos de sono. Depois me lembrei dos compromissos e me levantei de uma vez. A rotina não esperaria por mim. Tomei banho, preparei café e organizei a bolsa. Antes de sair, conferi se tinha levado o caderno, a carteira e os documentos. Estava tudo ali. Tranquei a porta e segui para o trabalho. A manhã foi movimentada. Uma cliente havia solicitado que eu desse atenção especial à cozinha, e o serviço acabou levando mais tempo do que eu esperava. Quando terminei, precisei correr para resolver uma questão relacionada ao acesso aos materiais da faculdade. Passei alguns minutos tentando entrar na plataforma, pedi ajuda e finalmente consegui. Cada pequena pendência resolvida me dava a sensação de que eu estava colocando uma peça no lugar certo. Ainda assim, quando cheguei em casa no meio da tarde, estava tão cansada que fiquei parada na porta por alguns segundos, sem vontade de fazer absolutamente nada. Larguei a bolsa no sofá e me sentei. — Só cinco minutos — falei para o cômodo vazio. Dessa vez, cumpri a promessa. Não peguei o celular, não abri o caderno e não comecei a pensar em todas as tarefas que ainda precisava realizar. Apenas fiquei sentada, ouvindo os sons da comunidade pela janela e deixando meu corpo descansar. Foi quando percebi que eu quase nunca fazia aquilo. Eu estava tão preocupada em não perder nenhuma oportunidade que havia começado a tratar o descanso como se fosse uma espécie de culpa. Se parava, pensava no que poderia estar fazendo. Se dormia mais cedo, imaginava que estava ficando para trás. Se aceitava sair com Camila, sentia que deveria estar estudando. Não podia continuar assim. Eu precisava de dinheiro, precisava estudar e precisava construir meu futuro. Mas também precisava continuar sendo uma pessoa, não uma máquina que só funcionava quando havia alguma tarefa para cumprir. Peguei o celular e mandei uma mensagem para Camila. Eu: Ainda tá de pé aquele espetinho? A resposta chegou em segundos. Camila: Mulher, eu já tava escolhendo a roupa! Eu: Então se arruma, porque eu vou. Mas é rapidinho. Camila: Claro, dona Mirella. Rapidinho. Vou até colocar um cronômetro. Ri sozinha e fui me arrumar. Escolhi uma roupa simples, passei um creme no cabelo e prendi algumas mechas para não ficarem caindo no rosto. Não queria nada elaborado. Só precisava sair de casa, conversar com minha amiga e lembrar que ainda havia espaço para coisas boas no meio da correria. Quando cheguei ao lugar combinado, Camila já estava me esperando perto de uma mesa. Assim que me viu, abriu os braços. — Até que enfim! Eu já estava pensando em ir buscar você pelo braço. — Boa noite para você também, querida. Ela me abraçou e se afastou para me examinar. — Você tá com uma cara de cansada que chega a dar pena. — Obrigada. Você é uma amiga maravilhosa. — Eu sou sincera. É diferente. Sentei diante dela, e Camila chamou o rapaz que estava atendendo para fazermos o pedido. Escolhemos nossos espetinhos e uma bebida para dividir. Quando ficamos sozinhas novamente, ela apoiou os cotovelos na mesa e me observou com uma expressão mais séria. — Agora me conta. Como você tá de verdade? Peguei o guardanapo e comecei a dobrar uma das pontas. — Tô bem. — Mirella. Suspirei. — Tô cansada, Camila. Muito cansada. Mas tô bem. — Você está conseguindo conciliar tudo? — Estou tentando. Tem dia em que parece que não vou conseguir, mas, quando penso em desistir de alguma coisa, lembro do quanto eu queria estar na faculdade. Aí levanto e continuo. Camila assentiu devagar. — Eu tenho muito orgulho de você, sabia? Meu peito apertou um pouco. — Obrigada. — E não estou falando só porque você conseguiu a bolsa. Estou falando porque sei o quanto você batalhou para chegar até aqui. Você perdeu sua mãe, teve que continuar trabalhando, ficou com um monte de responsabilidade nas costas e, mesmo assim, não abandonou seu sonho. Baixei os olhos, sentindo a garganta apertar. — Às vezes, eu queria que ela estivesse aqui. — Eu sei, amiga. — Queria contar tudo. Queria que ela visse minha primeira semana de faculdade, que reclamasse comigo porque eu estou trabalhando demais e depois me mandasse comer alguma coisa. — Soltei uma risada fraca, limpando discretamente o canto dos olhos. — Ela sempre dizia que eu precisava parar de querer carregar o mundo nas costas. Camila estendeu a mão por cima da mesa e segurou a minha. — Então tenta ouvir o conselho dela, mesmo que não possa mais escutar a voz. Você não precisa resolver tudo de uma vez. Fiquei alguns segundos olhando para nossas mãos. — Eu tenho medo de não conseguir sustentar essa rotina por muito tempo — confessei. — Tenho medo de ficar tão cansada que minhas notas caiam, de perder algum trabalho, de não conseguir pagar as coisas. A bolsa foi uma conquista enorme, mas eu sei que preciso cumprir as condições dela. Não posso simplesmente relaxar e achar que está tudo garantido. — E você não vai relaxar completamente, porque eu conheço você. Mas também não pode viver esperando que alguma coisa dê errado. — É difícil não pensar nisso. — Eu sei. Só não quero ver você desistindo de viver enquanto tenta construir a vida que deseja. A comida chegou, e fizemos uma pausa para comer. Eu estava com tanta fome que a primeira mordida pareceu a melhor coisa que tinha provado naquela semana. Camila percebeu e começou a rir. — Meu Deus, mulher! Você estava passando fome? — Não, sua exagerada. Só não tive tempo de comer direito hoje. Ela parou de rir. — Isso não é muito melhor, sabia? — Eu sei. — Promete que vai levar alguma coisa na bolsa? Uma fruta, um sanduíche, qualquer coisa. Não precisa gastar dinheiro comprando lanche na rua, mas também não pode ficar o dia inteiro sem comer. — Prometo. — E vai parar de aceitar serviço em cima de serviço sem olhar sua agenda primeiro. — Tá bom, mãe. Camila estreitou os olhos. — Não me chama de mãe, não, que eu vou te dar uma bronca de verdade. Nós duas caímos na gargalhada. Por alguns minutos, consegui esquecer as contas, os horários e as responsabilidades. Comemos, conversamos sobre a faculdade e falamos sobre algumas pessoas que Camila havia conhecido recentemente. Ela contou uma história absurda sobre uma cliente que tinha reclamado de uma coisa sem sentido no trabalho, e eu quase engasguei de tanto rir. Foi bom. Mais do que eu esperava. Quando terminamos de comer, Camila apoiou o queixo na mão e me lançou um olhar suspeito. — Agora vamos falar de um assunto importante. — Lá vem você. — Sua vida amorosa. Soltei um gemido de protesto. — Ah, não. Eu sabia que esse momento ia chegar. — Que momento? Você acha que eu vou deixar você passar o resto da vida namorando caderno e apostila? — Eu não namoro caderno. — Não? Porque você passa mais tempo com eles do que com qualquer pessoa. — Camila, eu estou tentando estudar e trabalhar. Não tenho tempo para ficar pensando em homem. — Ninguém falou para você casar amanhã. Estou perguntando se você nunca sente curiosidade de viver um romance. Peguei o copo e tomei um gole antes de responder. — Curiosidade, talvez. Mas isso não significa que eu precise me envolver com alguém agora. — E se aparecer um cara legal? — Aí eu vejo. Ela me encarou como se eu tivesse acabado de contar a maior mentira do mundo. — Você sempre fala isso. — Porque é verdade. — Mirella, você nunca dá oportunidade a ninguém. Se um homem olha para você por mais de três segundos, você já fica desconfiada. — Eu não fico desconfiada de todo mundo. — Fica, sim! Outro dia, aquele rapaz da padaria perguntou se você queria ajuda para carregar a sacola, e você agradeceu como se ele estivesse tentando roubar sua carteira. Eu comecei a rir. — Porque eu conseguia carregar a sacola sozinha! — Não é esse o ponto. — Então qual é o ponto? Camila abriu os braços. — O ponto é que você pode ser independente e ainda assim deixar alguém se aproximar. Uma coisa não anula a outra. Fiquei em silêncio por um momento, pensando no que ela dizia. Eu sabia que minha amiga não queria me pressionar. Ela só desejava que eu tivesse experiências boas, que conhecesse alguém que me tratasse com carinho e que não precisasse passar a vida inteira resolvendo tudo sozinha. Mas eu também sabia o que não queria. Não queria um homem que me tratasse como alguém incapaz. Não queria alguém que tentasse decidir por mim, que diminuísse meus sonhos ou que achasse que poderia comprar meu afeto. Muito menos queria entrar em um relacionamento apenas porque as pessoas ao meu redor acreditavam que estava na hora. Eu tinha visto coisas demais para aceitar qualquer coisa só para não ficar sozinha. — Eu não tenho nada contra romance — falei por fim. — Só não quero me envolver com alguém por pressão. Se um dia eu gostar de alguém, vai ser porque eu realmente quero estar com aquela pessoa, não porque todo mundo acha que eu preciso de um namorado. Camila assentiu, mais tranquila. — Isso eu concordo. Você não precisa ficar com ninguém só para agradar os outros. Mas também não precisa fechar a porta antes de saber quem está do outro lado. Olhei para ela, sorrindo de leve. — Você ensaiou essa frase? — Claro. Passei a tarde inteira preparando meu discurso. — i****a. — Sua i****a favorita. Estendi a mão e apertei a dela. — Minha i****a favorita. Continuamos conversando por mais alguns minutos. Depois, como eu havia prometido, não ficamos até tarde. Camila me acompanhou até uma parte do caminho e se despediu com um abraço apertado. — E amanhã você vai comer direito — ela avisou. — Sim, senhora. — E vai descansar. — Vou tentar. — Não, Mirella. Vai descansar. Ri e me afastei. — Boa noite, mandona! — Boa noite, trabalhadora escravizada pela própria ambição! — Vai se ferrar! Ouvi a gargalhada dela enquanto seguia para casa. A noite estava agradável, e caminhei devagar, aproveitando aquele pequeno intervalo em que não precisava correr para lugar nenhum. Quando cheguei, tranquei a porta e deixei a bolsa sobre a cadeira. A casa estava silenciosa. Era um silêncio diferente daquele que me acompanhava desde a morte da minha mãe. Ainda doía chegar e não encontrar sua voz, seus passos ou alguma pergunta sobre como tinha sido meu dia. Mas eu estava aprendendo que sentir saudade não significava que precisava permanecer parada naquele momento para sempre. Acendi a luz da cozinha, lavei as mãos e abri o armário. Eu não tinha muitos ingredientes, mas havia o suficiente para preparar uma das coisas que mais gostava de comer quando precisava de um conforto. Brigadeiro de panela. Peguei o leite condensado, o chocolate em pó e um pouco de manteiga. Coloquei tudo na panela e levei ao fogo baixo, mexendo devagar. O cheiro doce começou a se espalhar pela cozinha, e uma lembrança da minha mãe veio tão forte que precisei parar por alguns segundos. Ela costumava fazer brigadeiro quando eu tinha um dia r**m. Às vezes, nem perguntava o que tinha acontecido. Apenas colocava a panela no fogão, me entregava uma colher e ficava ao meu lado até eu começar a falar. Eu costumava reclamar que ela colocava pouco chocolate. Ela respondia que, se eu quisesse mais, teria que aprender a fazer sozinha. Agora eu sabia preparar o brigadeiro exatamente do jeito que gostava, mas daria qualquer coisa para ter minha mãe sentada naquela cozinha, reclamando que eu estava comendo direto da panela. Mexi a mistura até chegar ao ponto certo e desliguei o fogo. Peguei uma colher, sentei à mesa e provei um pouco. Fechei os olhos por um instante. Era engraçado como certas coisas tão simples conseguiam trazer uma sensação de conforto. O sabor doce, o cheiro da cozinha, o silêncio da casa… tudo me lembrava que, apesar de tantas dificuldades, ainda havia pequenos momentos que pertenciam somente a mim. Não precisava ser um dia perfeito para que eu pudesse sentir alguma felicidade. Peguei meu caderno e o coloquei sobre a mesa, mas não comecei a estudar imediatamente. Primeiro, abri uma página em branco e escrevi algumas coisas que precisava organizar para o restante da semana: horários de aula, serviços de faxina, materiais que deveria revisar e despesas que não podia esquecer. Depois, acrescentei uma frase no final da página. Eu não preciso conseguir tudo hoje. Só preciso continuar caminhando. Reli aquelas palavras e sorri discretamente. Talvez parecessem simples demais, mas eu precisava me lembrar disso. Eu tinha passado tanto tempo tentando sobreviver a cada dificuldade que, às vezes, esquecia que também merecia comemorar as pequenas conquistas. Consegui a bolsa. Entrei na faculdade. Continuei trabalhando. Estava aprendendo a construir uma rotina que, embora difícil, me aproximava da vida que eu desejava. E isso já era muita coisa. Comi mais uma colherada do brigadeiro, lavei a panela e organizei a cozinha. Depois, voltei para a mesa e estudei por mais algum tempo. Dessa vez, consegui me concentrar melhor. Fiz anotações, revisei os materiais e marquei as dúvidas que precisaria esclarecer nas próximas aulas. Quando terminei, já era tarde. Guardei os cadernos, preparei a bolsa para o dia seguinte e deixei uma fruta separada para levar comigo, lembrando da bronca que Camila havia me dado. Antes de dormir, conferi o celular. Havia uma mensagem de seu Roberto. Seu Roberto: Boa noite, Mirella. Espero que esteja tudo bem. Gostaria de confirmar com você os dias de trabalho na casa do meu filho e conversar sobre a organização das próximas semanas. Quando tiver os horários definitivos da faculdade, me avise para ajustarmos tudo da melhor forma. Respondi que estava tudo bem e que enviaria os horários assim que conseguisse organizar a agenda. Ele agradeceu e desejou uma boa noite. Eu gostava de trabalhar para seu Roberto porque ele sempre me tratava com respeito. Não fazia exigências absurdas, pagava o combinado e compreendia que eu precisava conciliar o serviço com os estudos. A oportunidade de trabalhar regularmente na casa do filho dele poderia me ajudar bastante, principalmente porque eu precisava de uma renda mais previsível. Ainda assim, eu teria que ter cuidado para não aceitar mais do que conseguiria cumprir. Abri a agenda mais uma vez e comecei a reorganizar os compromissos. Eu estava prestes a guardar o celular quando outra notificação apareceu na tela. Dessa vez, era um e-mail da faculdade. O remetente era a coordenação acadêmica. Meu coração acelerou um pouco. Desde a conversa com Patrícia e Daniela, eu aguardava uma resposta sobre a possibilidade de participar do programa de acompanhamento. A remuneração, caso a oportunidade se concretizasse, poderia me ajudar a aliviar algumas despesas sem que eu precisasse abandonar os trabalhos de faxina. Abri o e-mail imediatamente. A mensagem informava que meu desempenho acadêmico havia sido considerado adequado para que eu continuasse no processo de seleção. A coordenação queria conversar comigo sobre a possibilidade de acompanhar individualmente um estudante que apresentava dificuldades em Estatística. Li o trecho duas vezes, tentando controlar a empolgação. Eu ainda não tinha sido oficialmente designada para a função, e a mensagem deixava claro que precisávamos avaliar a disponibilidade, as exigências e os horários antes de qualquer confirmação. Mesmo assim, era uma possibilidade real. A faculdade estava considerando meu nome, e isso significava que meu esforço começava a ser reconhecido de outra maneira. Senti um sorriso nascer no meu rosto. — Meu Deus… será que vai dar certo? Levantei da cadeira e caminhei pela cozinha, segurando o celular. Eu queria contar a Camila, mas estava tarde, e sabia que ela provavelmente me mandaria uma sequência de mensagens comemorando antes mesmo de entender todos os detalhes. Então respirei fundo e voltei a ler o e-mail. A coordenação solicitava que eu comparecesse para uma conversa presencial, na qual seriam explicadas as responsabilidades da função, os horários possíveis e o perfil acadêmico do estudante que poderia receber acompanhamento. Também precisava confirmar se eu teria condições de manter o compromisso sem prejudicar minhas próprias aulas. Aquela última parte me fez parar. Eu queria muito a oportunidade, mas não poderia aceitar sem pensar. Se assumisse uma responsabilidade nova, precisaria cumpri-la direito. Não queria prejudicar meus estudos, decepcionar a coordenação ou deixar meus trabalhos de faxina acumularem. Sentei novamente e abri a agenda. Comecei a comparar os horários, fazendo pequenas anotações nas margens. Talvez fosse possível organizar tudo, desde que eu tivesse disciplina e aprendesse a aproveitar melhor os intervalos entre um compromisso e outro. Não seria fácil, mas também não parecia impossível. Apertei o celular contra o peito por alguns segundos. Eu estava com medo, sim. Medo de não dar conta, de me cansar demais, de perder o controle da rotina e de acabar precisando abrir mão de alguma coisa importante. Mas havia uma diferença entre ter medo e desistir por causa dele. Eu não tinha chegado até ali para fugir da primeira oportunidade que exigisse mais de mim. Se a coordenação acreditava que eu poderia ajudar outro estudante, eu queria pelo menos ouvir a proposta, entender o que seria esperado e descobrir se conseguiria encaixar aquilo na minha vida. Voltei ao e-mail e confirmei que compareceria à conversa no horário sugerido. Assim que enviei a resposta, senti uma mistura de ansiedade e esperança. Eu ainda não sabia quem era o estudante. Não conhecia suas dificuldades, sua personalidade ou o motivo pelo qual precisava de acompanhamento. Sabia apenas que seria uma responsabilidade nova e que, se tudo desse certo, poderia representar uma ajuda importante para mim também. Guardei o celular, apaguei a luz da cozinha e segui para o quarto. Antes de deitar, olhei para a fotografia da minha mãe que mantinha sobre a mesinha. Passei os dedos pela moldura e sorri com saudade. — Eu estou tentando, mãe — sussurrei. — Um dia de cada vez. Vou conseguir construir a vida que eu prometi. Coloquei a fotografia no lugar e me deitei. Naquela noite, adormeci pensando nas possibilidades que começavam a surgir. Eu não sabia o que encontraria naquela conversa com a coordenação, muito menos quem seria o estudante que talvez precisasse da minha ajuda. Mas estava disposta a escutar, fazer perguntas e avaliar tudo com responsabilidade. O que eu ainda não imaginava era que aquela oportunidade, que parecia apenas mais uma maneira de organizar minha vida financeira, acabaria me colocando diante de alguém que representava quase tudo aquilo de que eu sempre quis manter distância. Mas essa era uma história que eu ainda não conhecia. Naquela noite, eu só sabia que precisava acordar cedo, trabalhar, estudar e continuar seguindo em frente. E, pela primeira vez em muito tempo, fui dormir sentindo que, apesar de todos os meus medos, alguma coisa boa ainda poderia acontecer. Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙❤️ Mirella está cada vez mais perto de uma nova oportunidade ❤️‍🔥
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD