GIULIA's POINT OF VIEW
Um silêncio toma o carro a ponto de poder escutar sua respiração pesada. Pego meu celular de volta quando vejo Alessio encarando a janela, sem dizer se quer uma palavra pelos próximos dois minutos.
─── Ela tem três anos e cinco meses e é a pessoa mais inteligente e esperta do mundo. ─── Rio fraco, buscando escolher as palavras com cuidado. ─── O nome dela é Elena porque é─
─── O nome da minha bisavó. ─── completa e eu não tenho outra opção além de concordar. ─── Por que você fez isso, Giulia?
Minha garganta parecia fechada quando puxo o ar, desviando o olhar quase dele quase no mesmo instante que eles param em mim.
─── Por que eu não faria? ─── Devolvo a pergunta, tentando segurar o sorriso irônico. ─── Eu tenho vivido nessa vida desde que tinha 5 anos de idade. Eu já vi as piores cenas que alguém poderia imaginar, inclusive minha mãe morrendo na minha frente. Já estive na mira de um revólver mais vezes do que estive em um tribunal. Desde pequena o que mais escutei foi que tudo que estava aprendendo era pra minha própria segurança e até mesmo a p***a da minha faculdade foi toda paga para que um dia eu pudesse ser a conselheira judicial da sua família, para estar ao seu lado. Por qual motivo eu iria querer essa mesma vida para minha filha? Por que eu arriscaria tanto por ela sabendo que isso nunca teria fim?
─── Porque ela é minha também, porr*a! ─── Ele esfrega as mãos no rosto, em sinal de irritação. ─── Que caralho...
─── E quem poderia garantir que ela ainda assim estaria segura, Alessio? Você tem um inimigo a cada esquina. Na primeira vez com certeza conseguiria proteger ela mas... e na segunda, terceira, quarta? Estamos falando de uma criança que poderia pagar por TUDO que nós fizemos e ela não tem culpa! ─── encolho-me no banco. ─── Você pode estar com raiva agora, mas tenta pensar no que eu fiz, no que tive que sacrificar por ela e, mais que isso, pode ter certeza que eu ainda não me arrependo de nada do que fiz. Se fiz foi na intenção de poupá-la, porque isso que nós vivemos desde então não é vida...
─── Mas é a única que nós temos. Ainda assim, após quatro anos se escondendo do outro lado do país adiantou de alguma coisa, Giulia? Você conseguiu se livrar de tudo?
Balanço a cabeça, sentindo uma irritação fora do comum ao ouvir aquele questionamento.
─── Pelo menos eu tentei. ─── Cerro os dentes, ─── E eu faria a mesma coisa se tivesse a oportunidade. Talvez você não saiba o que é querer largar tudo por alguém e fazer o impossível por aquela pessoa, mas-
─── Quem disse que eu não sei? ─── Ele ri sem humor algum. ─── Quem te disse, porr*a?
Olhando nos meus olhos, posso enxergar o tanto que estava se passando por aqueles castanhos. Alessio sempre foi o mais frio da relação, embora nunca tivesse poupado esforços para me mostrar o que sentia. Ele não era bom em esconder as emoções de mim, parecia que eu sempre estava no seu ponto mais fraco, ferindo-o.
─── Seus achismos sempre me preocuparam, Giulia, de verdade! Essa sua mania de achar que só você teve a p***a de uma vida difícil, só você não teve escolha, só você sente, também. ─── Gira a sua moeda entre os dedos, como sempre fazia quando estava pensando. Desde os quinze, quando tinha ganhado ela do pai, Alessio nunca mais havia deixado-a de lado. Ele costumava dizer que era para dar sorte. ─── Ainda que eu não pudesse fazer muito, que eu não pudesse livrá-la ou coisa do tipo, eu ainda assim tinha o direito de saber sobre ela.
─── Eu pensei que você descobriria. ─── murmuro. ─── Que iria atrás de mim no momento que decidi terminar e que me acharia de qualquer forma.
─── Você sumiu do mapa. ─── resmunga. ─── Você, simplesmente, desapareceu depois daquilo. Ninguém sabia sobre seu paradeiro ou se quer tinha visto. Não havia movimentações nas contas em seu nome, nos cartões e nada. Eu tinha prometido pro teu pai e me prometido também que eu jamais te faria ficar a menos que quisesse, mas mesmo assim quebrei minha promessa e revirei cada canto daquela região por você, mas você não estava em nenhum lugar. Nunca te obriguei a nada Giulia, por mais que quisesse te ter ao meu lado, eu sabia que não era justo te fazer enfrentar tudo por mim contra tua vontade, então eventualmente eu desisti. ─── deu de ombros. ─── Desisti porque entendi que quando você terminou aquela era sua vontade e por mais que ela ia contra a minha, eu tinha que respeitar isso. Sabe quantos homens fizeram isso em toda história da nossa família? ─── riu como se nem ele pudesse acreditar no que tinha feito. ─── Eu sempre respeitei você e o que você sentia e, na primeira oportunidade, você me fode*u. Você fod*eu com tudo!
Àquela era uma verdade inegável. O silêncio volta a nos cobrir e, agora, sentindo-me um pouco pior que antes, encarei a janela quando penso sobre, porém não por muito tempo.
Meu celular vibra, mostrando uma ligação e no mesmo instante eu atendo, vendo que era a Manu, uma das minhas melhores amigas.
─── Pizza ou Jap*a? ─── Pergunta, animada fazendo-me rir fraco.
─── Pode ser j**a. Como está Elena?
─── Está bem. Ela acabou de me convencer a pedir comida ao invés de fazê-la usando você como argumento. Sério, ela só tem trêss anos mesmo?
Sorrio com aquilo, mordendo o lábio inferior.
─── Ela tem a quem puxar. Não é atoa que é filha de uma advogada, certo? ─── minha amiga ri do outro lado, murmurando um "tem razão" como resposta. ─── Ela está por perto? Pode passar para ela por um instante?
─── Claro, espera aí. ─── ouço ela gritado, em seguida sons de passinhos correndo pelo piso. ─── Mamãe?
─── Ciao, piccola mia! ─── Sorrio. ─── Como você está?
─── Saudade. ─── Diz. ─── A mamãe já vem?
─── Sim, amor. Já estou indo. Pode obedecer a titia por alguns minutos a mais? Desculpa o atraso.
─── Simmmm!.─── fecho os olhos e tenho a sensação de qualquer que fosse o buraco no meu peito, só ela era capaz de preenche-lo completamente. ─── Eu jura de dedinho.
Rio. Elena era de outro mundo, sinceramente. Eu era capaz de tudo por ela, inclusive de passar por cima do meu próprio orgulho desde fosse fazê-la bem. Eu a amava desde o primeiro instante que tinha descoberto sobre sua existência e seguiria a amando mais do que a própria vida até o fim dela. Ela era o meu bem mais precioso.
─── Ótimo se jurou de dedinho eu confio em você. Comporte-se, por favor. Vou desligar agora, sim? Até daqui a pouco, tchau.
─── Xauu mamãe.
Desligo a ligação segurando o suspiro, antes de voltar brevemente minha atenção para Alessio e vê-lo sinalizando para Bart voltar. Antes que pudesse abrir a boca para dizer que precisava ir, ele é mais rápido:
─── Vou te deixar em casa. Amanhã você pega o seu carro.
Assinto, nem ao menos questionando sobre como ele sabia onde era porque, na verdade, isso não era um problema para ele agora que tinha me encontrado. Ele sempre sabia o que queria saber, não importa onde.
Ouço a porta do carro se abrindo e em seguida Bart está se sentando. Sorrio minimamente, espremendo o corpo entre o banco do motorista e o do carona, igual ao que costumava fazer quando mais nova e ele ia nos buscar no colégio.
─── E aí? O que achou do café?
─── É realmente muito bom. A senhora tem muito bom gosto.
Rolo os olhos, sorrindo.
─── Para com isso de senhora, Bart! Você me viu crescer.. ─── deito a cabeça no banco, encarando o senhor me devolver rapidamente o olhar divertido antes de prestar atenção na estrada. ─── Você faz eu me sentir uma velha falando assim. Ainda tenho vinte e seis!
─── Mas ainda assim, a senho-
─── Não, não sou. ─── até sei o que ele diria, por isso trato de cortá-lo. ─── Agora eu sou apenas 'você'. Pensei que tínhamos passado dessa fase de formalidades há muitos anos.
─── Tem razão, desculpe!
Dou de ombros, voltando a encostar no banco e quando olho para o homem ao meu lado, seu olhar ainda permanece na janela enquanto brincava com a moeda entre os dedos. O maxilar travado, o silêncio de quem nem parecia notar a nossa presença ali só mostrava que na sua cabeça devia estar passando um turbilhão de emoções e, no fundo, eu entendia. Ninguém agiria normal após acabar de descobrir ter um filho e Alessio principalmente. Ele estava puto, era perceptível.
─── Posso ligar a rádio? ─── pergunto para o motorista, vendo sua mão ir até lá, mas frear no mesmo momento.
─── Não, deixe desligada.
Cruzo os braços, rolando os olhos para Rizzo, antes de me virar para o senhor mais uma vez.
─── Ele ainda segue ranzinza assim, Bart? Como você ainda não pediu demissão? ─── Através do retrovisor vejo o homem segurar o sorriso, forçando-me a fazer o mesmo. ─── Ah é, esqueci que vocês não podem falar m*l do patrão com ele presente. Bart, se você estiver em perigo me manda um sinal. Pode piscar um olho ou batucar três vezes no volante.
Ouço um riso escapando do meu lado, mas quando olho para o lado Alessio ainda está encarando a janela. Sinto a atenção do motorista em nós dois através do retrovisor, com as sobrancelhas arqueadas em divertimento e volto a dar de ombros.
─── Eu acho que você está em perigo. Não se preocupe, se precisar de uma advogada, sabe que pode contar comigo, certo?
─── Vou tratar de me lembrar disso, sen- Giulia.─── balanço a cabeça amigavelmente, erguendo os polegares em aprovação. ─── Nós chegamos!
Observo o lado de fora atrás do vidros escuros, surpresa por ter sido tão rápido e puxo minha bolsa mais uma vez, concordando. Devia ter pelo menos visto a rota para fazer igual, pelo menos!
─── Bem, então eu vou indo. Foi um prazer te rever, Bart.
Pisco um olho, levando minha mão até a maçaneta, não esperando uma reação a mais de Alessio. Durante toda viagem ele tinha deixado perceptível que precisava de um tempo, então não iria forçá-lo a nada. Ainda assim, quebrando todas minhas expectativas, ele murmura:
─── Tenho um voo em duas horas e vou passar três dias fora. Volto na sexta à noite e tirarei esse tempo para pensar em algo. ─── Volto para o meu lugar, sacudindo em concordância. ─── Junta tuas coisas e a menina. Amanhã às sete da manhã um motorista vai estar esperando por vocês para levá-las até a minha casa aqui e depois disso nós iremos voltar para casa, em Chicago. Em alguns minutos mandarei um homem para fazer a segurança de vocês essa noite, ele ficará aqui fora. Mantenham-se seguras.
─── Mas eu não pos-
─── Você não tem escolha Giulia e eu também não. Ainda que tivesse, eu não vou deixar minha filha solta por aí, correndo perigo e isso não está em discussão. Ou você vem com ou fica sozinha, mas ela vem de qualquer jeito. Até que eu volte seu apartamento é a opção onde vocês ficam mais vulneráveis e minha casa é o lugar mais seguro, você sabe. Tenho alguns homens por lá que vão fazer a segurança de vocês em período integral, coisa que não tem aqui. Vou mandar preparar todo o restante da casa para recebê-las.
Encara o banco, voltando a colocar a moeda no bolso e, brevemente, me olhar de relance.
─── Assim que chegar lá entrega seu celular para um deles porque vamos dar um jeito de conseguir informações sobre quem mandou as mensagens. Vou deixar um novo em cima da sua cama e ele vai ter meu número salvo, então use-o para falar comigo caso precise e eu farei o mesmo se precisar. De qualquer forma, evita sair por qualquer motivo.
─── Eu ainda preciso trabalhar, Alessio.
─── Não te disse para parar, só disse para evitar sair se não tiver outra razão. Até que a gente descubra os nomes de quem mandou as mensagens, é melhor ter cuidado. Use esses três dias para resolver o que tiver e peça demissão em seguida. ─── suspira. ─── Preciso ir agora.
Olho-o por um tempo, antes de assentir e dando um último sorriso para Bart, eu desço do carro. Ouço-o arrancar só após me ver entrar no prédio e apenas quando estou no elevador, no entanto, é que posso respirar aliviada, sabendo que por mais que não quisesse voltar para a mesma vida de antes, entendia que não havia outra forma. Alessio era nossa maior segurança, embora nos tornasse um alvo mais explícito também. O poder que ele tinha era muito grande, então não existia ninguém no mundo capaz de nos manter mais seguras do que ele.
Sua casa aqui ficava praticamente escondida em uma área reservada. Por anos aquele havia sido o esconderijo da sua família que, aos poucos, foi conseguindo comprar as propriedades vizinhas para que se tornasse um lugar só. Existiam três etapas para ter acesso ao casarão sendo a primeira a do condomínio. Depois desse acesso ainda existiam quase cinco quilômetros a serem percorridos de carro já dentro da propriedade para que chegasse no portão principal, onde existia uma equipe de segurança próxima ao portão automático. A terceira era mais simples: só a porta de entrada comum mesmo, porém contava dezenas de câmeras escondidas por toda parte a fim de reconhecer ou não intrusos.
─── É, pelo visto vou ter que voltar para casa...
Vejo-me murmurando assim que o elevador para, abrindo as portas para que eu pudesse sair. Suspirando, puxo a chave do meu apartamento.
─── Mamãeeeeeee! ─── Sorrio. Entrando em casa, ouço passinhos apressados correrem na minha direção.
Elena não se importa muito em se jogar nos meus braços, gargalhando alto.
─── Oi, amore mio. Quanta saudades! ─── Pego-a no colo, sentindo os bracinhos rodeando meu pescoço com carinho. ─── Como passou o dia? Obedeceu a titia como eu pedi?
─── Simm! ─── balança a cabecinha. ─── Eu comi sovetti. A tia Nu deu!
─── Agora?
Finjo surpresa, arregalando os olhos, mesmo que estivesse vendo seu rosto sujo.
─── Sua pequena traidorazinha. Você prometeu que não diria!
Começo a rir, vendo Manu sair da cozinha com uma colher na mão e logo reconheço o cheiro de brigadeiro exalando pelo local.
─── Acabei de ser delatada na cara de p*u em frente a uma advogada. Lena, pensei que éramos parceiras de crime!
─── A mamãe disse que é feio mentir.
Franzo os lábios,concordando e tudo que a outra faz é levar a mão para o peito, fingindo mágoa.
─── Mas isso não é mentir, é omitir. Aí criança, você tem muito o que aprender.
─── Não tem não. ─── corto-a no mesmo instante. ─── Não escute a Manu, amor, ela não é uma boa influência, viu?
Os olhos castanhos me encaram com um brilho intenso e eu quase posso ver Alessio refletindo em cada movimento seu, principalmente quando concorda com um sorrisinho de canto na boca. Ela era sua cópia perfeita, por Deus!
─── Agora vamos comer. Teremos um longo dia amanhã e precisamos dormir cedo.
─── Longo? Por quê?
O questionamento me faz soltar um riso fraco. Por quê? Porque era hora de voltar para casa.