GIULIA's POINT OF VIEW
23:45
─── Espera aí, Giu, me diz o que está acontecendo! ─── Manu diz no instante que me observa puxar as malas de cima do guarda-roupa.
Seguro o suspiro preso nos lábios, olhando Elena dormindo na minha cama e então sinalizo para que diminuísse o tom. Era tarde e eu sinceramente não queria vê-la acordando agora. Temia ter que fazê-la dormir novamente já que ela era elétrica demais para fazer isso com facilidade, então tinha que aproveitar o momento.
─── Eu vou ter que sair daqui por um tempo. Ainda não sei quanto, mas preciso. ─── murmuro. ─── Você não precisa se preocupar com minha parte no aluguel, no entanto. Amanhã de manhã eu vou deixar minha parte no lugar de sempre.
─── E pra onde você vai? Do que você precisa? ─── Senta-se na ponta da cama, encarando-me começar a jogar algumas peças de roupas na mala. ─── É por conta daquelas mensagens?
─── É, é sim. ─── Sento ao seu lado, sentindo meus olhos enchendo de lágrimas. ─── Mas não se preocupa, estou indo para um lugar seguro. Eu só... não posso ficar aqui.
A mulher de olhos azuis me encara em silêncio por um tempo. A linha na sua testa demonstrava a confusão que provavelmente passava na sua cabeça.
─── Por que estão te mandando essas coisas, amiga? E-eu não entendo...
Por quê? Ah, digamos por aí que eu meio que não só cresci junto com o atual chefe da família Rizzo, mas também quase me casei com ele e digamos também que talvez eles sejam a família mais influente de Chicago e todo o centro-oeste do país. E quando eu falo de influência e poder, não é apenas qualquer influência e qualquer poder, e sim sobre o domínio total de canta canto perverso do submundo que cobre a região de ponta à ponta, com pretensões de se alastrarem por outras regiões por meio de alianças.
─── É uma longa história. ─── Sorrio fraco. ─── Basicamente eu sou uma advogada com velhos inimigos na cola.
─── E você tem certeza que para onde está indo é seguro? Você precisa de alguma coisa? Por que não chama a polícia?
─── Chamar a polícia significaria chamar o perigo para mais perto. Nesse país dinheiro vem antes da segurança, Manu e eu não posso lutar contra isso.. ─── Termino uma parte, indo em direção aos acessórios. ─── Mas relaxa, vou ficar bem. Não existe um lugar melhor para ir, na verdade.
─── E o seu trabalho?
─── Vou continuar, só vou parar de circular mais um pouco. ─── Molho os lábios, só então lembrando das coisas no meu escritório que com certeza eu precisaria levar e que, definitivamente, sabia que não continuaria trabalhando. ─── Vou sair às oito amanhã de manhã, então não vou demorar em terminar tudo aqui. Você pode ir dormir se quiser.
─── Não quer ajuda?
Balanço a cabeça, negando. Manuela assente, sorrindo fraco e deixa um beijo na minha testa antes de sair. Espero o barulho da porta do seu quarto batendo soar no ambiente antes de enrolar mais algum tempo e finalmente ir até o local.
Antigamente o escritório era onde o quarto de Elena costumava a ficar. No entanto, por ter o hábito de dormir comigo ele m*l era usado, dando-me a ideia de transforma-lo em um mini escritório. Lá era onde eu estudava meus casos, arquivava e trabalhava quando não ia até o escritório. Era lá também onde eu escondia meu cofre, que possuía uma quantia em dinheiro que dentro desses três anos havia guardado apenas para usar se necessário e também algumas joias.
─── Aí estão vocês... ─── murmuro, contendo o sorriso de canto. Transfiro primeira as cédulas para minha bolsa, antes de puxar o meu porta-joias para conferir se estava tudo certinho. ─── E você, principalmente.
Mordo o lábio inferior, trazendo diante dos meus olhos anel solitário de ouro branco. Com mais de 50 pontos de diamantes, ele me dava a noção de que só ali existiam mais de dez mil dólares na minha mão disfarçados de jóia. Embora não fosse perto das outras que costumava possuir, era uma das mais significativas para mim, porque era o meu anel de noivado.
─── É bom te ver novamente.
Sinto a garganta apertar antes de balançar a cabeça e tentar esquecer sobre.
Guardo-o novamente, junto com a aliança que costumava acompanha-lo e jogo tudo dentro da minha bolsa, tentando não fazer barulho quando volto a fechar o local, escondendo-o atrás dos livros e finalmente vejo que estava tudo acabado.
Quando minutos mais tarde eu me deito na cama, sinto meu corpo se contorcendo em tensão, porém não consigo pregar os olhos por um minuto. É assim que passo a noite e, quando dá o horário, saio de casa junto com uma Elena sonolenta sem me despedir, prometendo a Manuela que contaria tudo quando pudesse.
(...)
Descer todas as malas com Elena no colo não é uma tarefa fácil, mas é algo que consigo depois de muita luta. Por isso que não posso deixar de respirar aliviada quando finalmente chego no hall do prédio e reconheço o carro estacionado do outro lado da rua, sinalizando para o motorista do portão para que ele pudesse me ajudar.
─── Bart, pensei que você iria viajar ontem a noite. ─── sorrio animada, feliz em poder ver um rosto conhecido antes de ir.
Como se não fosse um problema, vejo ele pegando as duas malas que estava levando sem problema algum.
─── O senhor Rizzo achou melhor que eu ficasse para poder ajudar a senhora. ─── assinto, rolando os olhos pelo tratamento.─── Precisa de ajuda com essa última?
─── Não, tudo bem. ─── Sorrio, abrindo a porta do carro antes que ele o fizesse, surpresa por já ter uma cadeirinha instalada ali onde coloco uma Elena sonolenta com cuidado. ─── Ainda nem tomei café. Tudo bem se pararmos em alguma lanchonete ou algo do tipo no caminho?
─── Tenho ordens para levá-las diretamente, Dona Giulia, e uma mesa está sendo posta para recebe-las.
Suspiro, assentindo.
─── Tudo bem, obrigada.
Puxo o cinto de segurança, encostando minha cabeça no banco do carro enquanto começavamos uma viagem silenciosa até o local. A casa era realmente distante, o que me dava um bom tempo para pensar no que faria pelos próximos dias.
A primeira decisão que faço é em pegar meu telefone e deixar uma mensagem para minha secretária avisando que faltaria nos próximos dois dias, mas que poderia me ligar em casos urgentes e que em três dias resolveria o problema das minhas faltas. Não tinha condições de deixar Elena sozinha e também não confiava em sair com ela para a empresa. Até que Alessio voltasse com alguma ideia, eu teria que dar um jeito de trabalhar em casa antes de ter que me demitir.
No mesmo momento meu celular vibra. Mais uma vez vindo de um número desconhecido, repenso antes de abrir a mensagem.
X
+****-****
DESCONHECIDO:
» fugindo tão cedo?
» Você costumava ser
mais corajosa antigamente
EU:
» "quem é você?"
DESCONHECIDO:
» alguém com uma dívida
atrasada para cobrar
» mas na hora certa, Giulia
» está na hora de
vocês pagarem por
tudo que vocês nos tiraram
» A propósito sua filha
é linda...
X
As próximas perguntas quem quer que seja a pessoa, não responde. Mando dezenas delas antes de ligar e ouvir a ligação indo direto para a caixa postal, mostrando-me mais uma vez que eu estava de mãos atadas. Solto o celular no colo frustrada, levando a mão para o rosto com aquele sentimento enorme de medo se estranhando no meu corpo e não gosto disso. Nem das minhas mãos trêmulas e geladas que indicavam que isso não era um bom sinal.
Dizem que há um instinto materno geralmenre em todas as mães que praticamente dá toda a coragem que precisam para defender a cria, porém não sabia dizer onde estava o meu. Na realidade, eu m*l conseguia pensar com calma.
─── Mamãe?
─── Olá, meu amor. Bom dia!
Toco o seu rostinho, vendo-a abrir os olhos lentamente antes de olhar em volta com cuidado.
─── Passear no paquinho?
─── Não, nós estamos indo viajar. ─── Suspiro, virando-me para Elena antes de sorrir fraco para o retrovisor. ─── Você lembra quando eu disse que faríamos isso?
─── Sim. E a titia Manu?
─── Ela não pôde vir dessa vez, mas da próxima quem sabe, certo? Vou fazer de tudo para que ela possa. ─── Pensando na minha amiga, quase me sinto culpada por sair sem me despedir, mas eu explicaria tudo a ela quanto tivesse chance. No momento quanto menos pessoas envolvidas tivessem, melhor. ─── Você vai adorar o lugar para onde iremos. Lá nós temos um lago, alguns animais e um quintal beeeeem grande para brincar.
─── Maior que a do paquinho?
Assinto, rindo pelo nariz.
─── Bem maior, amor. Tá vendo esse moço dirigindo aí? Ele mora lá e pode confirmar como é. Não é, Bart?
─── É sim. ─── O homem sorri, virando-se minimamente. ─── Nós temos uma piscina também e um pouco mais distante uma fazenda. Você gosta de animais?
─── Gosto. ─── Elena balança as perninhas, deitando a cabeça para o lado. ─── Tem vaca?
─── Uhum.
─── E cavalo?
─── Tem vários, inclusive o Argo. Sua mãe costumava cuidar dele antigamente.
Àquela menção me faz rir, principalmente porque Argo era o cavalo de Alessio. Ele costumava ser um alazão ranzinza, mas no fundo era só m*l compreendido.
─── Mamãe já foi?
─── Eu morava lá, pequena. Até um pouquinho antes de você nascer.
─── Lena vai poder brincar com eles?
Assinto, piscando-lhe um olho. Pego um copo de suco que havia trazido para que pudesse tomar e depois de ajeitar a tampa para ver se não ia escapar, entrego-lhe, junto com uma vasilha com biscoitos recheados.
─── Toma isso aqui. Nós vamos demorar um pouquinho, mas chegaremos já já, ok?
Elena concorda, dando de ombros e eu a observo comer, hora ou outra segurando o copo de suco ou a vasilha para que não caísse do colo. Geralmente eu não gostava de dar-lhe besteiras logo cedo, mas aquela era uma ocasião à parte. Como ainda não eram nem oito da manhã, às dez poderia dar alguma fruta ou algo do tipo para balancear.
─── A senhora se importa se eu ligar o rádio?
─── Não, tudo bem. ─── confiro as horas no celular. ─── Acha que conseguimos fazer o caminho em quantos minutos?
─── Quarenta mais ou menos. Pegaremos a rua principal em poucos quilômetros. A senhora quer que eu pare em algum lugar antes?
Nego.
─── Não, tudo bem. Faça como foi dito, Bart.
─── Certo.
Nossa viagem é longa pela propriedade estar longe do centro da cidade, porém consigo entreter bem a criança ao meu lado quando coloco alguns desenhos para assistir no telefone. Assim que passamos pelo condômino, a sensação que tenho é que realmente o tempo parecia não ter passado aqui e ela apenas piora quando passamos do portão principal.
Por mais que soubesse o quão enorme era o terreno, ainda não podia de me deixar ficar deslumbrada pela terra a perder de vista. A casa principal m*l parecia existir no meio de tanta terra. Aquela fazenda, definitivamente, era um dos meus lugares favoritos, embora não chegasse perto da residência principal dos Rizzo's em Chicago.
─── Uauuuu. ─── Começo a rir, vendo Elena encarar a janela abismada. ─── É tão grande, mamãe!
─── É sim, amor. ─── tiro os alguns fios de cabelos do seu rostinho, pensando que já era hora de cortar a franjinha que caia nos seus olhos. ─── Como todos têm estado por aqui, Bart?
─── Bem... ─── ri. ─── O senhor Rizzo não fica tanto tempo igual antes, mas os outros sim. Poucas coisas mudaram desde que a senhora foi emb-... Desde que a senhora se mudou.
Seu pigarreio instala um clima estranho no carro.
─── Pelo visto aqui continua sendo o esconderijo de todos então, certo?─── Tento quebra-lo, sorrindo quando vejo que funciona porquê logo ele está assentindo. ─── Bem, que bom então. Fico feliz que ninguém esteja preso.
Logo estacionamos em frente à casa, automaticamente tirando um suspiro pesado meu quando a encaro de frente. Desprendo Elena da cadeirinha, puxando-a para o meu colo antes que a porta fosse aberta por Bart e isso arrancasse um agradecimento baixinho meu.
Depois de quatro anos estar ali era estranho. Completamente sem jeito, espero o senhor tirar minhas malas do carro afim de prolongar a entrada. Faço menção de pegá-las quando finalmente são postas no chão, sentindo Elena agarrando a minha mão direita com força.
─── Pode deixá-las aqui, Dona Giulia, iremos subi-las para o quarto já já.
─── Para com isso de "Dona" ou "Senhora Bart, por favor! Desse jeito vou começar a me sentir como uma mesmo. ─── Digo divertidamente. ─── Bem, então vamos lá não é, meu amor?
Subimos a escadinha, com Elena olhando para todos os cantos em sinal de curiosidade e isso me faz sorrir. Abro a porta com cuidado, franzindo os lábios ao notar a casa mais escura do que o costume.
─── Por que as cortidas estão fechadas se há um sol lindo lá fora? ─── Assim que chego na sala de jantar, questiono para uma das mulheres que colocavam a mesa. m*l posso segurar o riso quando uma delas me encara, arregalando os olhos em completa surpresa. ─── Oi, Maria! Como a senhora está?
─── Oh, Giu! ─── Ela vem até mim, limpando as mãos e assim que está perto o suficiente me dá um abraço caloroso. ─── Você está aqui mesmo, meu Deus! Quando Bart disse ontem que você viria eu não acreditei!
Balanço a cabeça em entendimento, erguendo os lábios ao sentir seu olhar descendo até a pessoinha ao meu lado que nos encarava veemente.
─── É, eu meio que... tenho uns assuntos para tratar.─── Agacho, ajeitando a roupa de Elena antes de me aproximar do seu rostinho e apontar para a mulher à minha frente. ─── Amore, lembra do senhor que veio nos deixar aqui? Essa é a Maria, esposa dele. Diga Olá, para ela!
─── Ciao, buongiorno!
─── Ora, vejo que você tem passado bem o seu costume a diante, sim? ─── Ela me encara sorrindo antes de olhar para Elena. ─── Che bel sorriso! Come ti chiami, piccola?
─── Lena? ─── seu olhar de dúvida me faz assentir, mostrando-lhe que ela havia entendido bem a frase.
─── Eu tenho ensina-la aos poucos, mas o básico ela já sabe. ─── Sorrio.
─── Elena como a tataravó? ─── concordo. ─── É um nome lindo. Já é quase uma italiana, Lena!
Embora tivéssemos nascido nos Estados Unidos, a tradição italiana da minha família era muito forte porque boa parte dela ainda era italiana. Alessio, no entanto, era italiano, mas tinha vindo morar nos Estados Unidos muito cedo, já que os negócios da família prosperavam à todo vapor aqui e seu pais precisava do seu primogenito por perto. Aprender italiano havia sido bastante útil à mim que sempre estive por perto de tanta influência e sempre tentei incluir Elena nisso porque, no fundo, algo sempre me disse que seria necessário. Pois bem....
Desde pequenininha ela havia sido criada aprendendo as duas línguas, então embora fossem dois vocabulários difíceis, era nessas horas que mostrava-se esperta por não ter problemas além do normal com qualquer um.
─── Bem, vocês devem estar com fone, certo? Preparamos uma mesa para vocês. O menino Alessio deixou ordens explícitas para que fizessem o que vocês queriam.
─── Menino Alessio!─── Rolo os olhos, sentando-me e pegando a criança logo em seguida. ─── Ele já é um homem crescido e você sempre o chamará assim.
Ela ri, sentando-se do outro lado. Maria, junto com Bart, tinham nos visto crescer e as vezes eu quase via nela uma mãe para mim nos momentos difíceis. Eu gostava da forma como independente de tudo ela sempre nos via como duas crianças.
─── Vocês nunca vão crescer para mim. ─── murmurou. ─── É inacreditável que tenham até uma filha juntos agora, mas-
Arregalo os olhos, indicando que Elena ainda não sabia sobre isso e ela suspira, assentindo.
─── O tempo parece não ter passado desde que você se foi. ─── Sirvo-me com uma xícara de café, abaixando o olhar. ─── Mas filha, sinceramente, eu entendo o porquê agora. Foi uma decisão difícil, mas você sabia o que estava fazendo. Espero que não se culpe por isso.
─── Não há como não me culpar, mas também não há como me arrepender. ─── mordo o lábio inferior. ─── O quê está feito, está feito. Onde estão os outros?
─── Os meninos? Lucca viajou com Alessio porém os outros devem estar pelo campo. Dificilmente os vejo em casa, exceto pelo...
─── Quem?
No mesmo instante vejo alguém passar pelas portas. Encaro a criança entrando sem se importar com mais nada, jogando-se na cadeira ainda um pouco sonolenta.
─── Isso são modos, Marco? Você não reconhece mais os donos da casa?
Contenho o riso, negando para a última frase. Antes de sentir dois olhos em mim, arregalados.
─── Como vai, Marco? Você cresceu muito nos últimos anos!
─── Giulia? Nem ferrando! ─── Ele desvia do pano de prato que Maria lhe joga.─── p***a, o que você está fazendo aqui? O Rizzo já sabe? Você voltou de verdade?
Assinto para todas, piscando um olhos quando de mim, os seus descem até a criança no meu colo.
─── Eu vim resolver alguns probleminhas. Como está seu irmão?
─── E seu problema é essa mini cópia do Rizzo aí no seu colo? ─── Não preciso responder, porque aquilo já era autoexplicativo. ─── Caralh*o, eu não acredito nisso..
─── Para de xingar, menino. Não está vendo que tem criança na mesa? ─── Maria briga, fazendo-me rir. ─── Desculpa por isso, Giulia, essas crianças quando estão para virar adolescentes são assim.
─── Eu sei como é Maria e tudo bem.
Lembro-me finalmente de algo, puxando o celular do meu bolso antes de olha-lo mais uma vez.
─── Aliás Marco, seu irmão está por aí? Fiquei de entregar esse aparelho para que ele pudesse descobrir algumas coisas para mim.
─── Hum o quê? ─── estende a mão, interessado e eu pondero em entregar. ─── Eu posso olhar se você quiser. Eu sou quase tão bom quanto o meu irmão.
Recolho a mão, negando então.
─── É? Mas você não é novo demais para fazer o que seu irmão faz não?
─── Não. ─── da de ombros.
Encaro Maria, chocada e ela me devolve uma expressão de calma. Embora eu tivesse a mesma idade quando comecei a entender o que as pessoas aqui faziam, inclusive meu pai, era totalmente contra a algo tão precoce.
─── Não vou te envolver nisso. ─── Suspiro, sentindo-me até m*l. Não queria vê-lo seguindo a mesma vida que todos seguiam aqui. ─── E se permite o conselho de quem acabou de voltar... Não queira se envolver também. É para o seu próprio bem.
Sabia que não adiantaria nada, porém mesmo assim tento dizer. Eu odiava como tudo aqui parecia um futuro inevitável do qual eu evitaria Elena de ter a todo custo. Nem que eu precisasse dar minha vida para isso.
─── Então isso quer dizer que você não voltou por voltar, não é?
─── Não. ─── sussurro. ─── Voltei porque era preciso.
(...)
ALESSIO's POINT OF VIEW
O som da maldita goteira era irritante ao ponto de me fazer respirar fundo. Encarando a pessoa sentada à minha frente, ajeito-me melhor na cadeira, destravando a arma quando recebo mais um de seus sorrisos cínicos.
─── Você deve saber o porquê de estar aqui. ─── limpo a garganta, suspirando ao me encarar através do brilho do revólver. ─── Então eu não vou perguntar duas vezes. É simples, na verdade. Eu pergunto, você responde e eu te deixo viver.
Balanço as sobrancelhas, franzindo os lábios.
─── Onde Paolo está?
─── Eu já disse que não sei, p***a!
Balanço a cabeça, fechando os olhos. Não consigo segurar o suspiro, esfregando a testa com certa força porque além da maldit*a goteira, ainda tinha o fato de Giulia ter reaparecido após quatro anos com uma criança que dizia ser minha. Eu estava literalmente do outro lado do país firmando laços quando soube que uma mulher com a mesmas características dela havia aparecido em um dos nossos pontos. Claro que, inicialmente, a dúvida fez com que eu hesitasse, porém havia sinais que apenas a Giulia, a minha Giulia, sabia. E ainda tinha a menina... Porr*a, como que eu nem se quer imaginava que existia e, mais que isso, era minha? Porque claro que era e isso não restava dúvidas, na verdade. Não precisava olhar duas vezes para ver isso, mas mesmo assim... era confuso. Confuso pensar na mulher que tanto amei e confiei, com quem quase casei, me escondendo algo que nosso dessa forma. Porr*a era tão...
─── Resposta errada. ─── Pressiono o cano na sua coxa, querendo acabar logo aquilo, porém eu ainda precisava de informações e não sairia sem elas. ─── Vou te dar mais uma chance. Onde aquele filho da p**a está com o meu dinheiro?
Recebo o silêncio como resposta. O primeiro som de tiro que vem é disparado por mim, obviamente, mas eu não atiro onde a arma estava anteriormente, eu atiro no seu pé.
─── Você deve saber que eu sou um homem ocupado. Eu realmente estou cansado e não tenho tempo para ficar aqui enrolando. ─── murmuro. ─── Eu vou acha-lo de qualquer forma, saiba disso. Cedo ou tarde, enquanto ele estiver em território nacional ou por perto. Você pode simplesmente simplificar as coisas para você agora ao invés de morrer. Se eu te matar aqui não estarei perdendo nada...
Sorrio mais uma vez, voltando a me encostar no estofado ao tempo que seus olhos se contorciam em dor. Eu queria sentir pena de pessoas como ele, porém gente assim não era digna de pena nenhuma. Não que eu fosse ou que necessitasse de algo assim, porém era diferente em certos pontos. Eu jamais tocaria em uma mulher sem seu próprio consentimento ou jamais puniria quem não merecia tal coisa, por exemplos.
O mundo estava cheio de pessoas ruins por serem simplesmente ruins e embora eu também fosse, eu era apenas uma pessoa r**m que punia pessoas ruins.
─── E-eu não sei, j-juro. Não tenho notícias há m-muito tempo. A última vez que o v-vi ele disse que i-iria resolver alguns p-problemas.
─── Que tipos de problemas?
─── E-eu n-ão sei, s-senhor juro! ─── deitei a cabeça para o lado, vendo-o chorar deseperadamente. ─── Isso foi há m-mais ou m-menos um m-mês. Ele estava inv-investigando sobre uma criança.
Sinto meu corpo enrijecer. Aproximo-me mais franzindo a testa.
─── Que criança?
─── E-eu n-ão sei quem é, porém ele... ele estava animado. A-acho que e-ele está t-trabalhando c-com alguém.
Bufo irritado, com a cabeça trabalhando a mil só de pensar sobre, mesmo com algo em mim dizendo bem quem era a criança. No mesmo instante, lembrando de Giulia e Elena, engulo em seco.
Porr*a, mil vezes!
─── Tem certeza que ele está trabalhando para alguém?
─── S-sim, s-senhor. Por favor, não me mata!
Assinto para aquilo, levantando-me de onde estava. Limpo minhas mãos sujas pela pólvora com um lenço, negando com a cabeça.
─── Não vou. Não perco meu tempo com pessoas insignificantes como você. ─── murmuro, apontando com a cabeça para os homens atrás de mim. ─── Eles vão.
Posso ouvir seus gritos quando finalmente dou as costas, não podendo me importar menos com as súplicas quando finalmente ouço os disparos. Do lado de fora do galpão vejo Lucca encostado na parede despreocupadamente e então suspiro.
─── Ele não sabe de muito, porém não pode ficar por aí. Certifica se eles vão limpar tudo após terminar o trabalho. ─── Digo a ele, enquanto ia em direção ao meu carro. ─── Em três horas esteja no hotel. Vamos voltar hoje para a fazenda.
─── Mas isso não ia ser amanhã?
Dou de ombros, batendo a porta. Encaro-o através da janela com vidro abaixado, puxando a moeda em meu bolso antes de gira-la entre os dedos afim de me distrair um pouco.
─── Mudança de planos. Temos algo mais urgente para tratar por lá e eu preciso de você. Acha que consegue lidar com tudo aí?
─── É claro que consigo!
Aquilo me faz rir, balançando a cabeça. Aperto o objeto entre os dedos, antes de vê-lo se afastando e por fim subo o vidro, só então podendo respirar fundo com os olhos presos no desenho.
─── Quem deve ser essa pessoa?