Capítulo 3: O interior da mansão.

1503 Words
O saguão da mansão não era uma entrada. Era uma declaração de guerra em mármore e sombra. A luz da lua não banhava o espaço; ela era escoltada por ele, filtrando-se pelas altas janelas como um intruso cauteloso, para cair em lascas frias sobre o chão polido. O lustre de cristal pendia como uma carcaça de diamante gelado. As pinturas nas paredes não eram ornamentos; eram testemunhas silenciosas de conquistas sangrentas, paisagens idílicas que, se você olhasse tempo suficiente, revelavam formas retorcidas escondidas nas árvores. O ar cheirava a madeira envernizada, cera antiga e ao vazio caro do poder absoluto. Aquela opulência não me confortava. Ela me validava. Cada centavo gasto, cada obra de arte roubada, era um osso a mais no esqueleto do meu império. Caminhei até o aparador, onde garrafas reluziam como poções em um laboratório alquímico. Servi-me de um Bordeaux tão escuro que parecia sangue velho. O gole não trouxe prazer; trouxe um foco ácido. O álcool era apenas um líquido em minha veia híbrida, mas o ritual — a frieza do cristal, o peso do líquido — acalmava a parte humana o suficiente para a Criatura observar com clareza calculista. Meu escritório era o oposto do salão: um núcleo de utilitariedade sombria. Madeira de ébano, couro n***o, uma única pintura abstrata que lembrava uma víscera espatifada. Atrás da monumental escrivaninha, as janelas revelavam apenas a escuridão compacta da Floresta Proibida. Mal havia me sentado, afundando no couro que já tinha o formato do meu corpo — do corpo de ambos, o homem e a fera —, quando as batidas soaram. — Entre. Dylan entrou, trazendo consigo o cheiro do pátio — vento noturno e tensão — e algo mais: a agulha fina da notícia r**m. Ele fechou a porta, isolando-nos naquele vácuo. — Sebastian. — Poupe-me das formalidades, Dylan. — Meus dedos tamborilaram sobre a pilha de documentos, um som seco de unhas contra papel. — Os ratos foram encontrados? Ele hesitou. Um microssegundo. Foi o suficiente. A Criatura dentro de mim endireitou-se nas sombras da minha mente. — Encontramos dois. O rastreamento levou a um armazém no porto. Eles tentaram negociar informações em troca de passagem. — Negociar. — A palavra saiu como um cuspe. Uma risada seca e sem humor escapou dos meus lábios. Ergui-me, não com um salto, mas com a fluidez sinuosa de uma serpente saindo de sua toca. A luz do abajur de mesa capturou meus olhos, e sei que Dylan viu o brilho âmbar pairando sobre as íris. — Eles ainda pensam que este é um jogo com regras. Que interessante. — Caminhei até a janela, encarando a escuridão. — Onde estão? — Em uma das salas seguras, no subsolo. Mas, Sebastian… talvez devêssemos interrogar com mais cautela. Eles podem ter aliados… Eu me virei. Não rápido. Devagar. O movimento foi mais assustador do que qualquer ataque. — Dylan. — Minha voz era um fio de aço prestes a arrebentar. — Você acha que eu quero aliados? Eu quero sangue. Eu quero osso triturado. Eu quero que cada homem, mulher e criança nesta cidade ouça o grito deles em seus pesadelos e saiba: trair Sebastian Stewart é assinar um contrato com a agonia. Cautela é o que você tem com uma obra de arte frágil. Isto aqui… — fiz um gesto amplo, abarcando a sala, a mansão, o império — é uma operação de desinfecção. Ele engoliu em seco. O som foi como uma nota musical no silêncio. — Traga-os para a sala de interrogatórios. Não a comum. A outra. — Meus olhos devem ter brilhado ao mencionar "a outra", porque Dylan empalideceu visivelmente. Era uma sala revestida de aço, drenos no chão, e onde a Criatura podia… brincar sem se preocupar em sujar o mármore. — Sebastian, o protocolo… — O PROTOCOLO SOU EU! — O rugido não veio apenas da minha garganta. Veio das paredes. Veio das fundações da mansão. Foi um som que não era humano, um estrondo de fúria pura que fez os cristais do aparador tremerem. A raiva não era descontrolada; era um rio de lava sendo direcionado. — Você questiona minhas ordens de novo, Dylan, e juro por tudo que é sombrio, você vai se juntar a eles para demonstrar o que acontece com a hesitação. Agora. Some. Dylan não disse uma palavra. Virou-se e saiu, a porta fechando-se com um clique suave que soou como um suspiro de alívio no vácuo da minha ira. A porta se fechou, deixando para trás o eco do meu próprio rugido. O silêncio que se instalou não era pacífico; era o silêncio de um vulcão prestes a entrar em erupção. Sozinho, senti a armadura de controle rachar. Minha respiração perdeu o ritmo, tornando-se um vaivém errático e profundo. O peito ardia, como se o coração tentasse escapar da gaiola das costelas. Era a Criatura, esfregando-se contra as paredes da minha mente, exigindo passagem. A raiva pelo desvio, a traição dentro da minha própria casa, era combustível puro para ela. — Malditos... — o murmúrio escapou dos meus lábios, mas já não era apenas minha voz. Era um sibilo rouco, mesclado com um rosnado de fundo. Então, a dor chegou. Não era externa, mas de dentro para fora. Como se cada osso estivesse sendo torcido no lugar, cada músculo esticado além do limite. Um grito abafado rasgou minha garganta. Agarrei a borda da escrivaninha, e o ébano sólido estalou sob meus dedos, lascas afiadas penetrando minha pele — uma dor insignificante perto do turbilhão interno. Olhei para minhas mãos. As unhas já não eram unhas. Eram pontas negras e curvas, alongando-se, cravejando a madeira. Senti o alongamento canino das minhas presas pressionando contra o lábio inferior, um gosto metálico de sangue antigo enchendo minha boca. No reflexo embaçado de um fragmento de vidro no chão, meus olhos brilhavam como duas moedas incandescentes, dourado e vermelho fundidos em um turbilhão predatório. Uma risada escapou. Baixa, gutural, cheia de dentes. — Hahaha... Eles pensam que estão jogando xadrez... — a voz era um arrasto áspero, a voz da Criatura emprestando seus tons à minha. — ...mas trouxeram carne para o abatedouro. O riso se transformou. Tornou-se um rugido que encheu o cômodo, fez o lustre tremer e poeira cair do teto. A raiva não era mais um sentimento; era uma força física que precisava de saída. Minha mão, agora uma pata com garras, arremessou a cadeira de couro contra a parede. Ela não se despedaçou — explodiu em uma nuvem de estofamento e madeira rachada. Não foi suficiente. Um arco largo do meu braço varreu as prateleiras. Livros raros, edições únicas, voaram como pássaros atingidos, páginas rasgadas dançando no ar. Um quadro a óleo de algum antepassado severo foi arrancado da parede e esmagado sob meus pés, a tela rasgando com um som satisfatório. A escrivaninha monumental, aquele símbolo do meu poder terreno, foi a próxima. Meu punho, inchado e deformado, atravessou-a como se fosse papelão. A madeira estilhaçou-se com um estrondo seco. Ainda não era suficiente. A fúria precisava de mais. Precisava de destruição total. — AAAAAAHHHHH! O grito era de dois seres ao mesmo tempo. Homem e b***a, indignação e instinto, tudo fundido em um único clarão de violência pura. Socos após socos atingiram as paredes de estuque, deixando crateras. Um chute lançou o sofá contra a lareira, tijolos se soltando. O mundo se reduziu ao som do impacto, ao cheiro da poeira e da madeira quebrada, ao gosto selvagem da liberação. Com um último e titânico esforço, ergui o que restava de uma poltrona e a esmaguei contra o chão de mármore. O baque foi seguido por um estalo profundo e reticente — uma rachadura serpenteando pelo piso como um relâmpago n***o, da minha base até a porta. E então, silêncio. Um silêncio pesado, poeirento, cheio de ecos. Ofegante, eu me ergui no centro do apocalipse que havia criado. Meu escritório, outrora uma câmara de comando impecável, agora parecia ter sido atingido por uma bomba. Entulho, fragmentos, destroços. A luz do abajur, milagrosamente intacto, iluminava a fumaça de poeira que dançava no ar e, nela, meus olhos ainda brilhavam como brasas m*l contidas. Lambi meus lábios, sentindo o corte afiado das presas, o gosto do meu próprio sangue — humano e quente — misturado com a poeira da destruição. A respiração foi lentamente se acalmando. Os músculos relaxaram. As garras retraíram-se, deixando para trás apenas mãos humanas, ensanguentadas e com estilhaços de madeira. A Criatura, satisfeita com o banquete de fúria, recuou para as profundezas. Não adormecida. Saciada, por enquanto. Um sorriso frio, totalmente humano e calculista, substituiu o riso bestial. — Eles vão se arrepender — disse, minha voz agora limpa, clara e mais perigosa do que nunca. Porque a tempestade havia passado, deixando para trás não um homem arrependido, mas um predador que havia relembrado seu próprio poder absoluto. E, desta vez... não haveria protocolos. Não haveria interrogações cautelosas. Haveria apenas a sala "outra". E a Criatura, agora com o apetite aguçado, ansiava por sua verdadeira refeição.
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