Capítulo 4: Punição e consequência.

2204 Words
O silêncio pós-explosão era denso, carregado do pó de madeira esfacelada e da eletricidade estática da minha fúria. Foi nesse vácuo que os passos ecoaram — leves, despreocupados — uma profanação ao meu estado de sítio. Uma mão pousou no meu ombro — um toque que não era de solidariedade, mas de inspeção insolente. — Uau. Reforma expressa, Sebastian? — a voz de Adrian entrou no meu ouvido como fumaça tóxica. Ele assobiou baixo, passeando o olhar pelo escritório devastado. — Você realmente não poupou esforços. Achei que o estilo "furor descontrolado" fosse mais a minha praia. Eu não me virei. Sentia o sorriso dele nas minhas costas, aquele sorriso que sempre fez meus dentes afiados coçarem por dentro. A Criatura, ainda adormecida pela fadiga da raiva, mexeu-se, irritada pelo tom dele. — Alguém está roubando de nós, Adrian — disse, minha voz soando como grava raspando metal. Era um esforço para mantê-la humana. — "De nós"? Que comovente, irmão. — Ele deu a volta e se encostou na moldura da porta, cruzando os braços. Seu olhar era de puro entretenimento. — Pensei que o império fosse todo seu. O dinheiro, seu. A fúria… definitivamente sua. Eu só moro aqui. Cada palavra era um fósforo atirado em gasolina. Meus dedos se contraíram. — Dois já foram pegos — ele continuou, examinando as unhas com falso tédio. — Presos no porão, sujando suas celas com medo. Parece que seu cachorro de caça, o Dylan, é útil para alguma coisa além de tremer. Eu finalmente o encarei. Seus olhos brilhavam com uma luz que não era a mesma fúria dourada e vermelha da minha, mas algo mais líquido e venenoso, como mercúrio. — E você veio me contar isso por quê? — perguntei, a desconfiança tornando minha voz ainda mais áspera. — Para cobrar uma dívida de gratidão? — Para cobrar um espetáculo, Sebastian. — Ele se inclinou para frente, o sorriso agora amplo e vazio. — Você promete sangue, ossos triturados, lembra? Eu só quero um assento na primeira fila. Ou melhor… — seus olhos faiscaram com malícia genuína — quero segurar a câmera. Aquilo não era solidariedade. Era voyeurismo sádico. Era Adrian querendo se alimentar do meu descontrole, transformando minha vingança em seu entretenimento perverso. A Criatura dentro de mim rosnou, não pela traição, mas pela provocação. — Você acha isso uma brincadeira? — minha voz baixou para um sussurro perigoso. — Acho que é a única coisa que nos une, irmão. — Ele encolheu os ombros, a postura relaxada sendo o maior dos insultos. — Ódio por intrusos. Vontade de ver gente i*****l gritar. Aquele… brilho especial nos seus olhos quando você perde as estribeiras. É quase de família. Estávamos trancados num duelo de olhares quando os gritos irromperam no corredor. Não eram gritos de dor ainda — eram de desespero animal e raiva impotente. — ME SOLTEM, SEUS CÃES DE GUARDA! VOCÊS NÃO SABEM COM QUEM ESTÃO MEXENDO! Adrian riu, um som alegre e cristalino que contrastava grotescamente com a cena. — Ah, os convidados chegaram! E tão m*l-educados… A porta do escritório arrombada foi aberta à força. Dois homens — Noah e Emmett, eu reconheci seus rostos de relatórios de contabilidade — foram jogados dentro, cambaleando. O cheiro deles inundou o ambiente: suor azedo de pânico, mas também um resquício de ousadia estúpida. Adrian deu um passo à frente, um predador elegante diante da presa amedrontada. — Olhem só! — anunciou, com a voz de um mestre de cerimônias em um circo macabro. — Os arquitetos da própria desgraça. Acharam que o leão estava dormindo, é? Noah, o mais agressivo, cuspiu no chão. Seus olhos, injetados de sangue, pularam de Adrian para mim, e vi o exato momento em que seu medo se transformou em um ódio suicida. Ele viu Adrian como o elo mais fraco. — Cala a boca, seu playboy de merda! — Noah rugiu e, num movimento surpreendentemente rápido, lançou-se. Não foi para mim. Foi direto para Adrian, suas mãos fechando-se como uma garra em torno do pescoço do meu irmão, levantando-o do chão. O mundo desacelerou. Vi Adrian ser erguido, seus olhos arregalados não com medo, mas com surpresa indignada. Seus pés chutaram o ar. Um som de engasgo saiu de sua garganta. E algo dentro de mim estalou. Não foi proteção fraternal. Foi possessividade territorial. Ninguém toca no que é meu para odiar. Ninguém ousa desferir um golpe dentro do meu covil sem minha permissão. Foi um borrão. Eu não me movi — eu simplesmente me materializei ao lado de Noah. Meu chute não foi um golpe de luta; foi o balanço de um taco acertando um poste. O impacto sacudiu o ar. A sensação de costelas quebrando sob minha botina foi profundamente, primitivamente satisfatória. Noah voou, esmagando-se contra a parede com um baque úmido e desagradável, antes de cair em uma pilha gemebunda. Adrian desabou no chão, engasgando, uma mão na garganta. Ele olhou para mim, ofegante, e por uma fração de segundo vi algo além do sarcasmo em seus olhos: reconhecimento. Reconhecimento pela velocidade. Pelo poder bruto. Pelo fato de que, pela primeira vez, a violência da família Stewart havia sido usada a favor dele. Então, ele tossiu, e a máscara voltou. — Corajoso… — ele cuspiu, a voz rouca, dirigindo-se a Noah caído. — Ou estupidamente leal ao próprio suicídio. Noah, tossindo sangue, levantou-se com esforço. Seu ódio agora tinha um alvo único, cegador. — EU VOU ACABAR COM VOCÊ! — ele gritou, espumando, os olhos vidrados em Adrian. — SEU IRMÃO NÃO VAI ME IMPEDIR DESTA VEZ! — NOAH, NÃO! — Emmett gritou, a voz estridente com terror puro. — É UMA ARMADILHA! OLHE PARA ELE! "Ele" era eu. Eu não havia me movido desde o chute. Estava parado entre Adrian e Noah ensanguentado, minha respiração o único som regular na sala. A Criatura estava totalmente acordada agora, não pela traição ao negócio, mas pelo desafio ao meu território e ao meu sangue. Meus olhos não precisavam de um espelho para saber o que mostravam: um brilho baixo e pulsante, dourado como o fogo, vermelho como a ferida que eu faria em seguida. Olhei para Noah. Olhei para Adrian. E pela primeira vez naquela noite, um sorriso verdadeiro — não de triunfo, mas de reconhecimento horrendo — tocou meus lábios. O soco de Noah acertou o rosto de Adrian com um estalo seco e satisfatório. A cabeça do meu irmão girou com o impacto. Um fio de sangue escorreu do seu lábio, mas não foi o que me prendeu. Foi o brilho nos seus olhos. Não era dor. Nem medo. Era algo muito mais perigoso: diversão pura. Ele estava se divertindo. — ISSO É PELO SEU EGO INFLADO, SEU ARROGANTE! — Noah rugiu, erguendo o punho novamente, inchado por uma coragem suicida. Adrian cuspiu o sangue no chão, uma mancha rubra sobre o mármore. Seus olhos, normalmente claros e irônicos, escureceram por dentro. Não com a fúria dourada e descontrolada da minha Criatura, mas com uma escuridão profunda, gelada e concentrada — o oposto polar da minha tempestade. — Você... — sussurrou Adrian, e a palavra saiu enrolada em sangue, mas carregada de uma promessa que fez o ar tremer. — Você acabou de comprar uma passagem sem volta. — Então me mata, seu farsante! Vamos lá! — Noah avançou novamente, cego pela fúria. Adrian não se moveu para se defender. Em vez disso, sorriu. Um sorriso manchado de vermelho, íntimo e aterrorizante. — Vou fazer melhor — ele disse, sua voz agora limpa, afiada. — Vou te ensinar. Noah desferiu outro golpe. Desta vez, Adrian moveu-se. Não com a velocidade sobrenatural que eu usara, mas com uma precisão econômica e graciosa. Ele desviou por uma fração de milímetro, deixando o punho passar por seu rosto. Ao mesmo tempo, sua mão surgiu como a língua de uma cobra, agarrando o pulso de Noah. Houve um estalido seco. O som de um osso pequeno se deslocando. Noah gritou, mais de surpresa do que de dor. Adrian o puxou para perto, como um amante sussurrando um segredo. — Você me fez sangrar — murmurou Adrian, sua voz um mel venenoso no ouvido do homem. — Ninguém me faz sangrar no meu próprio salão. E então, a metamorfose aconteceu. Não foi a transformação bestial e caótica que me assombrava. Foi algo elegante e deliberado. As unhas de Adrian alongaram-se em garras finas e negras como obsidiana. Seus caninos afiaram-se, pontiagudos como agulhas, num sorriso que nada tinha de humano. O poder que emanava dele era frio, calculado, um veneno em vez de um incêndio. — Chega de showzinho, Adrian — disse eu, minha voz ecoando na sala. Não era um aviso, era um julgamento. — Está ficando teatral. Adrian olhou para mim por cima do ombro, seus olhos agora completamente negros, sem branco, refletindo a luz como poças de petróleo. — Toda arte é um pouco de teatro, irmão — ele respondeu, a voz ressonante com uma duplicidade sobrenatural. — Você só conhece o palco do m******e. Eu aprecio a… coreografia. Antes que eu pudesse retrucar, ele agiu. Não foi uma série de socos brutais. Foi um estudo de precisão sádica. Com a mão que segurava o pulso quebrado de Noah, ele o girou e o arremessou contra a parede com força suficiente para rachar o reboco. Antes que o corpo deslizasse até o chão, Adrian estava sobre ele. Seus movimentos eram um borrão de eficiência c***l: um joelho no peito para prender, as garras finas cravando-se nos ombros, não para dilacerar, mas para imobilizar. — Esta é a força de um Stewart — sussurrou Adrian, seu rosto a centímetros do de Noah, que arfava em pânico. — Não é barulho e fúria. É a certeza. A certeza de que cada respiração sua a partir de agora é um empréstimo… que eu vou cobrar. E então, ele começou. Não com golpes selvagens, mas com toques precisos. A garra do indicador traçou um corte raso na testa de Noah. O polegar afundou-se na bochecha, rasgando tecido com um som úmido. Cada movimento era lento, metódico, demonstrativo. Era uma aula de anatomia aplicada ao terror. — Dói? — Adrian perguntava entre um corte e outro, sua voz um murmúrio hipnótico. — Isso é o medo se transformando em sensação. Aprenda. Assuma. Noah tentou gritar, mas só saiu um gemido rouco. Emmett, imóvel no canto, vomitou silenciosamente. Eu observei. Meu desprezo inicial pela encenação de Adrian deu lugar a um reconhecimento gelado. Ele não estava perdendo o controle. Ele estava exibindo-o. Sua violência era um instrumento afiado, não uma força desgrenhada. Era, de uma forma perversa, impressionante. E isso me encheu de uma raiva ainda mais profunda. Quando Adrian finalmente parou, erguendo-se sobre o corpo contorcido e gemente de Noah, ele estava imaculado, exceto pelo sangue nos nós dos dedos. Ele olhou para as próprias garras, como um cirurgião inspecionando seus instrumentos, e então as retraiu. Os caninos recuaram. Seus olhos voltaram ao normal, deixando apenas um brilho de satisfação profunda e vazia. Ele se virou para mim, limpando o sangue dos dedos no paletó de Noah. — Satisfeito com o espetáculo, Sebastian? — ele perguntou, ofegante, mas não de cansaço físico — de êxtase contido. — Ou você ainda prefere o seu método de… demolição em massa? Eu me aproximei, os olhos fixos no trabalho de Adrian. A violência era meticulosa, mas o resultado não era menos horrível. — É um método — concedi, minha voz neutra. — Mas a mensagem é a mesma. — Ah, mas a entrega é tudo, irmão — ele disse, um sorriso voltando aos lábios. — Você os aterroriza com o monstro. Eu os aterrorizo com a mente por trás do monstro. No fim, eles se perguntam qual de nós é pior. Ele tinha um ponto. E essa revelação era mais ameaçadora do que qualquer ataque físico. — Agora — eu disse, desviando o olhar do corpo de Noah para Emmett, que tremia como uma folha. — O entretenimento acabou. É hora do trabalho pesado. Emmett começou a suplicar, seus gritos preenchendo o silêncio pós-violência. — NÃO, POR FAVOR! JÁ VI O QUE FIZERAM COM ELE! EU APRENDI! EU APRENDI! Adrian riu, um som leve e genuinamente divertido. — Oh, querido Emmett — disse ele, quase com pena. — Você não aprendeu nada ainda. Você só viu o prólogo. Eu fiz um sinal para os capangas na porta, que entraram hesitantes, seus olhos arregalados diante da cena. — Levem-nos para a sala de preparação — ordenei, usando o eufemismo sinistro que todos entendiam. — Quero que estejam… receptivos… para nossa conversa. Enquanto os gritos de Emmett eram abafados e arrastados para fora, Adrian se postou ao meu lado. O silêncio que ficou era denso, carregado do cheiro de sangue, medo e do estranho entendimento que se formara entre nós. Ele olhou para as próprias mãos, agora limpas, e depois para mim. — Sabe, Sebastian — ele disse, sua voz baixa, quase contemplativa. — Talvez se uníssemos nossos… estilos… ninguém neste mundo ousaria nem sussurrar nosso nome. Eu não respondi. Porque, pela primeira vez, a ideia não me pareceu absurda. Pareceu inevitável. E essa foi a parte mais perigosa de toda a noite.
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