LAURA
Era segunda-feira e naquele dia o ônibus tava mais cheio que o normal pra aquele horário. Consegui um lugar perto da janela e me acomodei, apoiando a cabeça no vidro e fechando os olhos. Talvez conseguisse cochilar um pouco no caminho, descansar a mente que não parava de funcionar.
Foi o grito do motorista que me acordou.
— Segura!
Abri os olhos bem na hora de ver o caminhão vindo na direção contrária, invadindo a pista do ônibus. O motorista virou o volante com força pra direita, tentando desviar, mas o movimento foi tão brusco que o ônibus derrapou no asfalto molhado da chuva que tinha caído mais cedo.
Fui arremessada contra a janela com força, a cabeça batendo no vidro com um som seco que ecoou através do meu crânio. Por um momento, tudo ficou branco. Depois, preto.
As últimas coisas que lembro eram os gritos dos outros passageiros, o barulho de vidro se quebrando, e uma dor lancinante na parte de trás da cabeça antes de tudo sumir.
* * *
A primeira coisa que notei quando acordei foi o cheiro - não cheiro de hospital, mas algo masculino e familiar. Algo que eu já conhecia...
A segunda coisa foi que eu não tava numa cama de hospital. Era uma cama grande, macia, com lençóis que pareciam caros demais pra eu tá tocando neles.
Abri os olhos devagar. Minha cabeça latejava como se alguém tivesse martelando dentro do crânio, mas eu conseguia ver claramente. Era um quarto que eu nunca tinha visto antes. Grande, bem decorado, mas definitivamente masculino. E definitivamente não era hospital nenhum.
Tentei me sentar e uma onda de tontura quase me derrubou de volta.
— Calma, não se mexa.
A voz veio do canto do quarto. Virei a cabeça devagar e vi um homem mais velho, de jaleco branco, guardando alguns instrumentos numa maleta de couro.
— Onde... onde eu tô? — minha voz saiu rouca.
— Em segurança — respondeu outra voz, uma que eu conhecia muito bem.
Thalles apareceu na porta do quarto, com uma expressão que eu nunca tinha visto antes. Preocupação misturada com algo que parecia... alívio?
— Você tá na minha casa — disse ele, entrando no quarto. — Doutor, ela tá bem?
O médico assentiu, fechando a maleta.
— Concussão leve. Ela vai ficar com dor de cabeça por uns dias, mas nada grave. Só precisa descansar. — Ele me olhou. — Sem esforço físico, sem muito movimento por pelo menos 48 horas.
— Eu preciso ir pra casa — falei, tentando me sentar de novo. — Minha mãe vai ficar preocupada...
— Sua mãe já sabe que você tá bem — Thalles disse, fazendo um sinal pro médico. — Valeu aí, doutor.
O homem saiu, deixando nós dois sozinhos. Eu olhei ao redor do quarto, tentando processar onde eu tava.
— Thalles, eu não posso ficar aqui.
— Pode e vai. — Ele puxou uma cadeira pra perto da cama e se sentou. — Você bateu a cabeça no acidente. Precisa de cuidados.
— No hospital...
— Hospital não. — A voz dele ficou mais dura. — Aqui.
— Você me trouxe pra sua casa — murmurei, meio pra mim mesma.
— Meus homens me avisaram do acidente. Te tiraram da ambulância antes de chegar no hospital público. — Ele falou como se fosse normal, como se sequestrar pessoas de ambulâncias fosse coisa do dia a dia.
— Você não pode simplesmente...
— Eu já fiz, princesa — Thalles se inclinou pra frente, aqueles olhos escuros me estudando. — O médico que veio aqui é o melhor da região, sabia?
Olhei pra ele, tentando processar tudo. Eu tava na casa dele. Na cama dele, pelos sinais.
— Por que você fez isso?
Thalles ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos em mim com aquela intensidade que sempre me fazia sentir exposta.
— Porque você quase morreu hoje.
A forma como ele disse isso, com uma dor crua na voz, me pegou de surpresa.
— Mas não morri.
— Por pouco. — Ele passou a mão pelos cabelos, e foi aí que notei que tavam mais bagunçados que o normal. — Quando meus homens me ligaram falando do acidente, falando que você tava ferida...
Ele parou, como se as palavras fossem difíceis demais.
— O que aconteceu comigo não é problema seu — falei baixinho.
— É sim. — Thalles se levantou bruscamente, começando a andar pelo quarto. — Tudo que acontece com você é problema meu agora.
— Desde quando?
— Desde o momento em que coloquei meus olhos em você, Laura.
— Eu não pedi por isso.
— E nem eu — Ele parou de andar e me encarou. — Mas aqui estamos nós.
Tinha algo na voz dele que me desarmou completamente.
— Você teve muita sorte — continuou ele, a voz mais baixa. — O médico disse que se tivesse batido a cabeça alguns centímetros mais pra esquerda...
— Mas não bati. — Tentei soar firme, mas minha própria voz tremeu. — Eu tô bem.
— Dessa vez.
— Como assim, dessa vez?
Thalles voltou pra cadeira, se sentando na beirada como se não conseguisse relaxar.
— Se você não trabalhasse...
— Eu preciso trabalhar e viver minha vida.
— Mas pode aceitar minha proteção.
— Sua "proteção" vem com preço, Thalles...
— Que preço?
— Minha liberdade.
— Descansa — disse ele, se levantando. — Você precisa se recuperar. Vou subir com comida daqui a pouco.
— Eu não posso ficar aqui.
— Pode e vai — Ele parou na porta e me olhou por cima do ombro. — E não tenta sair. A casa é vigiada 24 horas por dia.
— Tô sendo sua prisioneira então?
— Tá sendo cuidada, Laura. Cuidada.
Quando ele saiu, fechando a porta atrás dele, fiquei sozinha com meus pensamentos.
Eu tava na casa dele. Na cama dele.