LAURA
Acordei com o coração batendo que nem tambor e suor frio escorrendo pela testa. O sonho tinha sido tão real que ainda dava pra sentir o peso daquele olhar escuro queimando minha pele.
Thalles.
Mesmo dormindo, não conseguia escapar da intensidade daqueles olhos que pareciam enxergar minha alma. No sonho, ele tava bem pertinho, sussurrando no meu ouvido com aquela voz rouca: "Você é minha agora, Laura."
Meu Deus! Até sonhando ele me deixava toda arrepiada!
— Que merda — murmurei, passando as mãos pelo rosto molhado de suor.
O despertador marcava cinco e meia da manhã. Ainda tinha meia hora antes de levantar pra mais um dia daqueles no escritório, mas sabia que não ia conseguir voltar a dormir. A imagem dele, o jeito que falou que eu tinha chamado a atenção dele, tudo continuava martelando na minha cabeça que nem música chiclete.
— Laura? — A voz sonolenta da mamãe veio do outro lado da parede fininha. — Tá tudo bem, filha?
— Tá sim, mãe. Volta a dormir.
Mentira descarada. Nada tava bem. Desde ontem à noite me sentia diferente, como se algo tivesse mudado pra sempre na minha vida. Como se uma porta tivesse se aberto e eu não conseguisse mais fechar.
Me levantei da cama e fui até a janeinha do quarto. Lá embaixo, o morro ainda tava dormindo no escurinho do amanhecer, mas eu sabia que em algum lugar dessas ruas ele tava acordado. Dizem que ele nunca dorme, sempre de olho no reino dele.
E agora, pelo jeito, de olho em mim também.
Só de pensar nisso senti um frio na barriga. Que tipo de "olho" era esse? E por que uma parte de mim tava curiosa pra descobrir?
* * *
— Amiga, você tá com cara de quem viu fantasma — comentou a Ayla assim que cheguei no ponto de ônibus.
A Ayla é minha melhor amiga desde pequena, três anos mais velha e com uma língua que corta. Trabalha numa loja de roupa no centro e sempre tem história pra contar sobre os "playboyzinhos" que tentam dar em cima dela.
— Não dormi direito — menti, ajeitando a bolsa no ombro.
— Foi por causa de ontem, né? — ela baixou a voz, olhando pros lados como se alguém pudesse tá escutando. — Todo mundo tá comentando que você desafiou o Cabo Mendes na frente do Thalles.
— Eu só defendi o João — falei, tentando parecer despreocupada.
— Garota... — Ayla balançou a cabeça, preocupada pra caramba. — Você não faz ideia do que fez, né?
O ônibus chegou bem nessa hora, me salvando de responder. Mas durante todo o caminho até o centro, a Ayla não tirou os olhos de mim. Dava pra ver que ela tava incomodada com alguma coisa.
Só quando descemos que ela finalmente soltou o verbo.
— Laura, me promete que você vai me escutar sem discutir?
— Depende do que você vai falar.
— O Thalles... ele não é qualquer um. — ela me puxou pra um cantinho da calçada. — Quando esse cara põe o olho numa mulher, ela vira propriedade dele. Entendeu?
Senti meu estômago gelar.
— Que papo é esse?
— Tô falando que você chamou atenção dele ontem. E isso não é coisa boa. — os olhos da Ayla brilharam de preocupação. — Lembra da Jéssica? Aquela menina linda que morava na rua de cima?
— Lembro. Ela sumiu uns meses atrás...
— Depois de ter se envolvido com o Thalles. — ela fez aspas no ar. — Agora ninguém sabe onde ela tá... nem se tá viva.
Meu sangue gelou na veia.
— Você tá inventando.
— Inventando nada! — Ayla apertou meu braço com força. — Laura, esse homem é perigoso. E ontem você chamou atenção dele do jeito errado.
— Do jeito errado como?
— Do jeito que faz ele querer te possuir.
A palavra "possuir" ecoou na minha cabeça. Era exatamente isso que eu tinha sentido no olhar dele ontem. Não era só interesse. Era fome. Como se eu fosse uma presa que ele tinha decidido caçar.
E o pior? Uma parte de mim se arrepiou toda só de imaginar ser "possuída" por ele.
Que pensamento louco era esse?!
— Tenho que ir trabalhar — murmurei, tentando me afastar.
— Laura! — Ayla me segurou de novo. — Me promete que vai tomar cuidado. Se ele se aproximar, não dá conversa. Finge que não viu, sai de perto, qualquer coisa. Mas não alimenta essa situação.
— Prometo — menti, porque no fundo sabia que se Thalles quisesse se aproximar, não ia ter lugar no morro onde eu pudesse me esconder.
E pior ainda: não tinha certeza se queria me esconder.
* * *
O dia no escritório passou voando, mas eu não conseguia me concentrar direito. Cada barulhinho me fazia pular, cada sombra na janela me deixava alerta. Era como se tivesse esperando ele aparecer a qualquer momento, mesmo sabendo que era impossível.
Doutor Alberto me chamou atenção duas vezes por causa de distrações bobas. Quase derrubei café na mesa dele, esqueci de limpar a sala de reunião... minha cabeça tava longe, muito longe dali.
Foi na volta pra casa que as coisas começaram a ficar estranhas.
Primeiro foi na padaria do Seu Miguel, onde sempre compro pão pro jantar.
— Oi, Seu Miguel. Me dá dois pão francês e quatro de açúcar.
O velho sorriu e embrulhou os pães, mas quando fui pagar, ele balançou a cabeça.
— Não, não. Já tá pago.
— Como assim, já tá pago?
— Passaram aqui... — Seu Miguel baixou a voz, olhando pros lados. — ...e disseram que você não precisava mais se preocupar com isso.
Meu estômago despencou lá embaixo.
— Quem passou aqui?
— Pessoal do Thalles — Seu Miguel deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Saí da padaria com as pernas tremendo. Por quê? O que ele queria em troca? Nada nessa vida é de graça, principalmente quando vem de homem perigoso.
A segunda estranheza aconteceu duas quadras depois.
— Oi, Laura! — Dona Fátima, da farmácia, acenou pra mim da porta. — Que bom que você passou! Tenho uma coisa pra você.
Me aproximei toda confusa.
— Uma coisa minha?
— Seus remédios. — ela entregou uma sacola cheia. — Vitamina, analgésico, tudo que você sempre compra quando sua mãe tá com dor nas costas. Já tá tudo pago, querida.
Minhas mãos tremeram na hora de pegar a sacola.
— Quem pagou, Dona Fátima?
— Um dos rapazes do Thalles. — a mulher sorriu toda animada. — Tá namorando o chefão, é?
— Ele não é meu namorado — consegui falar, a voz saindo estrangulada.
— Ah, é? Então é pretendente. E dos bons, pelo visto! — Dona Fátima piscou pra mim. — Aproveita, menina. Não seja boba!
Saí correndo dali, o coração disparado. Que diabos tava acontecendo? Como ele sabia o que eu comprava? Há quanto tempo tava sendo vigiada sem perceber?
Uma sensação estranha tomou conta de mim. Era medo? Era excitação? Não conseguia decidir.
* * *
Quando finalmente cheguei em casa, tranquei a porta do quarto e me joguei na cama, tentando entender o que tava rolando. Thalles tava mandando recado. Mostrando que podia cuidar de mim, que podia facilitar minha vida, que tinha poder suficiente pra resolver meus problemas sem eu nem pedir.
Mas qual era o preço?
Foi quando abri a bolsa que vi. Um papel dobradinho que com certeza não tava lá de manhã. Com as mãos tremendo, desdobrei o bilhete.
"Você me impressionou ontem. Merece ser cuidada como a rainha que nasceu para ser. - T"
Li o bilhete umas cinco vezes antes de conseguir processar direito as palavras. Rainha. Ele tinha me chamado de rainha.
Ninguém nunca tinha me chamado de rainha na vida! Sempre fui a Laura invisível, a faxineira, a filha que tinha que sustentar a casa...
Amassei o papel entre os dedos, mas não consegui jogar fora. Em vez disso, alissei de novo e fiquei olhando pra ele, o coração batendo descompassado.
Como ele tinha colocado isso na minha bolsa? Quando? Quem tava me vigiando tão de perto assim?
E por que isso me deixava mais excitada que assustada?
Laura, pelo amor de Deus, que pensamento é esse? O homem é perigoso!
Mas pela primeira vez na vida, alguém tava me vendo. Realmente vendo. Não como a faxineira invisível, não como a filha problemática, não como mais uma favelada que ninguém respeita.
Ele me via como uma rainha.
Fechei os olhos e tentei dormir, mas sabia que ia sonhar com ele de novo. Com aqueles olhos escuros que prometiam coisas que eu nem sabia que queria.
E dessa vez, não tinha certeza se queria acordar.