LAURA
"Rainha que nasceu para ser"... essas palavras não saíam da minha cabeça. Era como se tivessem grudado lá dentro, me provocando, me chamando... me seduzindo.
Cada vez que tentava focar no trabalho, lá vinham elas de novo. E eu ficava com aquele frio na barriga, sabe? Aquela sensação estranha que eu não sabia se era medo ou... outra coisa.
Mas eu não sou mulher de ficar esperando homem decidir as coisas por mim, não. Pode ser perigoso, pode ter todo o poder do mundo, mas eu ia até lá e deixar bem claro que não tava interessada em ser tratada como um objeto.
Foi por isso que, quando cheguei no morro, ao invés de ir direto pra casa, desviei o caminho.
Ia até o QG dele.
Meu coração já tava batendo mais forte só de pensar. Eu conhecia aquela parte da favela, claro, mas nunca tinha motivo pra passar por lá. Era território dele. Zona vermelha mesmo.
Dois caras armados me viram assim que virei a esquina. Um deles, magrelo com uma tatuagem de escorpião no braço, veio logo na minha direção.
— Ô gatinha, tá perdida?
Ergui o queixo, fingindo uma coragem que eu não tava sentindo nem um pouco.
— Não. Quero falar com o Thalles.
Os dois se entreolharam, surpresos.
— O chefe não recebe visita sem marcar — disse o outro, mais gordinho, com dentes dourados que brilhavam quando ele falava.
— Ele me conhece.
Respirei fundo, tentando parecer mais segura do que eu tava.
O magrelo sorriu de um jeito que me deu arrepios. Pelo sorriso dele, vi que pensou besteira.
— Espera aí.
Ele falou alguma coisa no rádio, umas palavras em código que eu não entendi nada. Depois de uns minutos que pareceram horas, ele recebeu uma resposta que fez as sobrancelhas dele subirem de surpresa.
— Pode entrar.
Quando cheguei na porta, hesitei. Ainda dava tempo de sair correndo, fingir que nada disso tava acontecendo...
Mas não. Eu não sou covarde.
Bati na porta.
— É a Laura — falei, e graças a Deus minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
A porta abriu na mesma hora, como se ele tivesse esperando do outro lado.
Thalles me olhou por uns segundos que pareceram uma eternidade. Aqueles olhos escuros percorreram meu rosto com uma intensidade que fez meu estômago dar cambalhotas.
Ele tava sem camisa... meu Deus. Só de bermuda jeans, e eu tive que fazer um esforço danado pra não ficar olhando pro peito dele todo tatuado e definido.
— Pensei que ia demorar mais pra aparecer — disse finalmente, se afastando pra eu entrar.
— Vim aqui pra acabar com essa palhaçada.
Ele riu. Um som baixo e perigoso que fez todos os pelos do meu braço arrepiarem.
— Que palhaçada?
Entrei no que parecia um apartamento completo no segundo andar da casa. Gente... a diferença pro resto da favela era gritante. Piso de porcelanato, móveis bonitos, ar condicionado, TV gigante. Até geladeira americana tinha numa cozinha pequena mas toda equipada.
— Isso aqui — fiz um gesto meio nervoso, tentando não mostrar como eu tava impressionada. — Os favores, o bilhete, ficar controlando minha vida sem eu pedir.
— Controlando? — Ele fechou a porta atrás de mim e se encostou nela, cruzando os braços.
Nossa... quando ele fez isso, os músculos dos braços dele contraíram, chamando atenção pras tatuagens.
— Eu te ajudei.
— Eu não pedi ajuda.
— Não precisava pedir. — Ele deu um passo na minha direção, e eu tive que lutar contra a vontade de recuar. — Um mulher como você não deveria se preocupar com conta de padaria.
— Um mulher como eu? — A raiva me deu a coragem que eu tava precisando. — Que tipo de mulher você acha que eu sou?
Ele me estudou por um momento, com a cabeça inclinada pro lado como se eu fosse um quebra-cabeça interessante.
— Corajosa. Leal. Bonita. — Cada palavra foi dita devagar, como se ele tivesse saboreando elas. — E orgulhosa demais.
— Orgulhosa porque não quero ser tratada como objeto?
— Objeto? — Ele riu de novo, mas dessa vez tinha algo mais perigoso no som. — Laura, se eu quisesse te tratar como objeto, você não taria aqui discutindo comigo. Estaria no meu quarto, fazendo o que eu mandasse.
O choque das palavras me atingiu que nem um soco. A forma casual como ele disse aquilo, como se fosse uma coisa normal da vida, fez meu sangue gelar.
— Você é um...
— Bandido? Criminoso? Monstro? — Ele deu outro passo na minha direção, e dessa vez eu recuei sem conseguir controlar. — Sou tudo isso, princesa. Mas também sou o cara que garantiu que você não precisasse se preocupar com dinheiro pra remédios da sua mãe.
— Eu não pedi...
— Não precisava pedir! — A voz dele subiu pela primeira vez, me fazendo pular de susto. — Você acha que eu faço isso pra qualquer uma? Que saio por aí pagando conta de mulher na favela?
— Então por que comigo?
Ele parou bem na minha frente, tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dele, o cheiro de sabonete misturado com algo indefinível mas totalmente masculino que fez minha cabeça girar.
— Porque você me impressionou. — A voz dele voltou pro tom baixo e controlado. — Porque quando vi você enfrentando aquele desgraçado, defendendo os seus, percebi que tinha achado algo raro, Laura.
— O quê?
— Uma rainha que não sabe que é rainha.
As palavras do bilhete... Senti minhas pernas ficarem fracas, mas me forcei a manter a postura.
— Eu não sou rainha de nada. Sou só uma faxineira.
— Você é o que eu disser que é. — A resposta veio rápida, sem hesitação, carregada de uma autoridade que fez algo se mexer no meu estômago.
— Você não manda em mim.
— Ainda.
Aquela palavra ficou no ar entre nós como uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo. Ele ergueu a mão e tocou meu rosto de leve, o polegar passando pela minha bochecha com uma suavidade que não combinava nada com a dureza das palavras dele.
— Laura — disse meu nome de um jeito diferente, como se fosse algo precioso. — Você pode ficar aí fingindo que não sente nada, mas eu vejo. Vejo como seus olhos brilham quando eu falo com você. Vejo como você treme quando eu me aproximo, linda.
— Eu tremo de medo.
— Também. — Ele sorriu, e pela primeira vez o sorriso chegou nos olhos. — Mas não só de medo.
Eu queria negar, queria empurrar a mão dele pra longe, queria sair correndo dali. Mas não conseguia me mexer. Tinha algo hipnótico naqueles olhos escuros, algo que me fazia querer me perder neles mesmo sabendo que era perigoso.
— O que você quer de mim? — sussurrei.
— Eu quero tudo o que você puder me dar.
A resposta simples, honesta, fez meu coração acelerar ainda mais.
— Eu não...
— Você não precisa decidir nada hoje. — Ele afastou a mão, mas não se afastou de mim. — Mas também não pode fingir que isso não tá acontecendo. Não pode fingir que não existe nada entre nós.
— Não existe nada entre nós.
— Existe. — Ele se inclinou, o rosto se aproximando do meu até eu conseguir sentir a respiração dele na minha pele. — E você sabe disso.
Por um momento terrível e maravilhoso, achei que ele fosse me beijar. Cada parte do meu corpo parecia estar esperando por isso, desejando isso, mesmo que minha mente gritasse pra eu sair dali correndo.
Mas ele não beijou. Ao invés disso, se afastou devagar, aquele sorriso voltando pros lábios que eu tava observando com muito mais atenção do que deveria.
— Você pode ir embora agora, se quiser — disse com a voz casual, como se não tivéssemos acabado de ter aquela conversa toda carregada. — Mas vai voltar.
— Não vou.
— Vai sim. — Ele caminhou até a geladeira e pegou uma garrafa d'água, bebendo sem pressa enquanto me observava. — Porque você é diferente das outras, princesa. E pessoas diferentes... não conseguem resistir a outras pessoas diferentes.
Forcei minhas pernas a se mexerem, caminhando até a porta com o que sobrava da minha dignidade.
— Fica longe de mim, Thalles.
— Não posso fazer isso.
Parei na porta, a mão na maçaneta.
— Por quê?
— Porque você já é minha, linda.
Saí sem responder, mas as palavras dele me seguiram escada abaixo, rua afora, até chegar em casa. E mesmo deitada na cama horas depois, ainda conseguia sentir o toque dos dedos dele no meu rosto, ainda conseguia ouvir a promessa perigosa na voz dele.
"Você já é minha."