LAURA
Passei a noite inteira sem conseguir dormir direito.
Ficava repassando cada segundo daquele encontro com o Thalles. O jeito que ele me olhava... Nossa, aqueles olhos escuros pareciam ver através de mim. As palavras dele, todas carregadas de promessas perigosas, não saíam da minha cabeça. E pior ainda... a forma como meu corpo tinha reagido perto dele.
Era como se ele tivesse plantado uma semente venenosa na minha mente, algo que tava crescendo e se espalhando a cada hora que passava.
Mas não! Eu não ia deixar isso acontecer.
De manhã, depois de uma noite horrível, tomei uma decisão. Não importava o que eu tinha sentido naquele apartamento, não importava como meu coração disparava só de pensar nele. Thalles representava tudo que eu não queria pra minha vida. Violência, crime, um mundo onde mulher é tratada como troféu.
Eu não ia ser mais uma.
Foi por isso que, ao invés de ir direto pro trabalho, fiz o caminho inverso na favela. De volta pro território dele.
Dessa vez, os homens na entrada nem perguntaram nada. Só acenaram com a cabeça, como se minha chegada fosse esperada.
A ideia me irritou ainda mais.
Quando entrei, a porta abriu quase na hora. Thalles tava vestido dessa vez, uma regata preta que marcava o corpo atlético dele, mas aquele sorriso nos lábios era o mesmo de ontem.
— Bom dia, linda. Pensei que ia demorar mais pra...
— Vim aqui pra deixar uma coisa bem clara — interrompi ele, entrando no apartamento sem esperar convite. — Eu não quero nada com você.
Ele fechou a porta devagar, o sorriso ficando maior.
— É mesmo?
— É. — Me virei pra encarar ele, os punhos fechados. — Não quero sua proteção, não quero seus favores, e definitivamente não quero ser tratada como sua propriedade.
— Propriedade é uma palavra forte.
— É a palavra certa. — Dei um passo na direção dele, alimentada pela própria raiva. — Você acha que pode simplesmente decidir que eu sou sua? Que pode controlar minha vida, pagar minhas contas, me tratar como se eu fosse um objeto?
Thalles se encostou na parede, braços cruzados, me observando com uma expressão divertida que só me irritou mais ainda.
— Terminou?
— Não! — Senti o sangue ferver. — Eu trabalho desde os quinze anos. Sustento minha família, pago minhas contas, tomo minhas próprias decisões. Não preciso de bandido nenhum cuidando de mim como se eu fosse criança indefesa.
— Bandido?
O jeito que ele repetiu as palavras, o tom um pouco mais baixo, deveria ter me servido de aviso. Mas eu tava decidida demais pra perceber.
— É isso mesmo. Você pode ser o rei da favela pros outros, mas pra mim não passa de mais um criminoso que acha que pode ter tudo que quer só porque tem uma arma na cintura.
O silêncio que veio depois foi tenso, carregado de uma energia que fez todos os pelos do meu braço se arrepiarem. Thalles me encarou por longos segundos, a expressão mudando devagar de diversão pra algo muito mais perigoso.
— Mais um criminoso — ele repetiu, a voz baixa como o ronco de um predador. — Interessante.
Engoli seco, mas mantive o queixo erguido.
— É o que você é.
— É mesmo? — Ele se afastou da parede devagar, cada movimento calculado como um felino se aproximando da presa. — Então me explica uma coisa, princesa. Se eu sou só mais um bandido qualquer, por que esse bandido te afeta tanto?
— Você não me afeta.
— Não? — Ele parou bem na minha frente, tão perto que eu podia ver as pequenas cicatrizes no rosto dele, contar cada fio da barba por fazer.
— Você tá delirando.
— Será? — Ele ergueu a mão devagar, os dedos quase tocando meu rosto antes de recuar. — E esse coração disparado? Por que você não consegue me olhar nos olhos por mais de dois segundos?
Me forcei a encarar ele diretamente, a raiva me dando a coragem necessária.
— Porque você me dá nojo.
A mentira saiu mais convincente do que eu esperava, mas o efeito no Thalles foi imediato. O sorriso sumiu completamente, substituído por uma expressão que eu nunca tinha visto antes. Não era raiva exatamente. Era algo mais primitivo, mais perigoso.
— Nojo — ele repetiu devagar, como se tivesse experimentando o sabor da palavra. — É uma palavra interessante vindo de alguém que passou a noite inteira pensando em mim.
— Eu não...
— Passou sim. — Thalles começou a andar ao meu redor, como um predador estudando a presa. — Aposto que fechou os olhos e lembrou de como foi tá aqui ontem. Lembrou de como seu corpo reagiu quando eu me aproximei. Lembrou de como queria que eu te beijasse.
— Você tá louco!
Ele parou atrás de mim, tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dele nas minhas costas.
— Então por que você voltou?
A pergunta me atingiu como um soco no estômago. Por que eu tinha voltado mesmo? Podia ter simplesmente ignorado tudo, fingido que nada tinha acontecido.
— Eu voltei pra acabar com isso — sussurrei.
— Não. — A voz dele era um murmúrio quente perto do meu ouvido. — Você voltou porque não consegue parar de pensar em mim. Porque uma parte de você quer saber como seria se entregar pra alguém que tem poder suficiente pra te proteger de tudo.
— Eu não preciso de proteção.
— Todo mundo precisa, princesa. A diferença é que a maioria das pessoas não tem escolha sobre quem vai proteger elas. — Thalles voltou a ficar na minha frente, aqueles olhos escuros queimando de intensidade. — Você tem.
— Minha escolha é não escolher você.
— É mesmo? — O sorriso voltou pros lábios dele, mas dessa vez tinha algo predatório. — Então deixa eu te contar como isso vai funcionar.
Senti um frio percorrer minha espinha.
— Como o que vai funcionar?
— Sua rejeição. — Ele se aproximou mais um passo, me forçando a recuar até minhas costas tocarem a parede. — Você acha que pode simplesmente chegar aqui, me dizer que não me quer, e eu vou aceitar como um bom garoto?
— Você... você não tem escolha. Eu disse não.
— Ah, princesa. — Thalles apoiou as mãos na parede, uma de cada lado da minha cabeça, me aprisionando sem me tocar. — Você ainda não entendeu como as coisas funcionam no meu mundo.
Meu coração tava batendo tão forte que eu tinha certeza que ele podia ouvir.
— Eu não faço parte do seu mundo.
— Faz sim. Desde o momento que chamou minha atenção. — Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu. — Mas se você quer brincar de difícil, tudo bem. Eu gosto de desafios.
— Isso não é um jogo!
— Pra mim é. — A voz dele era puro perigo agora. — E eu sempre ganho meus jogos, Laura. Sempre.
— Você não pode me forçar a nada.
— Forçar? — Thalles riu, um som baixo que fez algo se mexer no meu estômago. — Princesa, quando eu terminar com você, você vai implorar pra ser minha. Não vou precisar forçar nada.
— Nunca!
— Nunca? — Ele se afastou da parede, mas aquele sorriso predatório continuou. — Vamos ver, Laurinha. Vamos ver.
— Você tá delirando se acha que...
— Eu tenho certeza — ele repetiu, caminhando até a porta e abrindo. — E quando você voltar, princesa, quando você vier me pedir pra te aceitar, o preço vai ser outro.
Senti as pernas bambas, mas me forcei a caminhar até a porta.
— Que preço?
Thalles se inclinou e sussurrou no meu ouvido:
— Tudo. Corpo, alma, coração. Sem reservas, sem condições. Você vai ser completamente minha.
Saí dali rápido.
"Você vai implorar pra ser minha."
Jamais.
Eu jamais ia voltar naquele lugar, jamais ia me render àquele homem perigoso que achava que podia ter tudo que quisesse.
Mas enquanto caminhava pro ponto de ônibus, tentando me recompor, uma parte traiçoeira da minha mente sussurrava uma pergunta que eu não queria responder:
E se ele tivesse certo?
E se, lá no fundo, eu realmente quisesse ser dele?
Balancei a cabeça com força, expulsando o pensamento. Não. Eu era mais forte que isso. Era independente, lutadora, não precisava de nenhum rei do crime pra validar minha existência.