Lina correu por um tempo, a agilidade e velocidade de suas pernas de lobo revelavam a nova natureza imposta pela maldição. A magia que a envolvia parecia ter capturado a essência genuína de quem ela era. Seu coração pulsava descompassado, e ela só diminuiu a velocidade quando julgou estar longe o suficiente. Seu guia durante essa fuga noturna foi o céu estrelado.
Ao se deparar com uma cabana fechada, seus dentes rangiam em resposta ao medo que a acometeu. Subiu as escadas com hesitação, deparando-se com vestígios de sangue seco e lembranças do incidente que deixou sua perna latejante. A dor pulsava com intensidade, mas Lina seguiu adiante, guiada por uma determinação feroz.
Olhou para a lua brilhante, implorando em silêncio para que sua luz servisse como escudo contra Wolfgang, o alfa da matilha. Pedia para afastá-lo, para que ele não a encontrasse. Seus olhos refletiam uma súplica profunda, uma esperança de evitar o confronto inevitável.
O lobo, agora despojado da imponência da alcateia, caiu exausto na varanda da cabana velha, em uma parte afasta demais da floresta. A madrugada envolvia tudo em uma atmosfera silenciosa, e uma fina ameaça de chuva pairava no ar.
Encolhida, tremendo de medo e dor, Lina contemplava sua nova realidade. A maldição a transformara em uma criatura da noite, mas sua essência humana persistia, manifestando-se através do sofrimento e da vulnerabilidade. A chuva começou a cair suavemente, como se o céu chorasse em sintonia com o coração partido de Lina.
A cabana, agora silenciosa e imóvel, guardava as marcas da tragédia que ocorreu ali. Lina, encurvada na varanda, confrontava não apenas a dor física da mordida em sua pata, mas também a dor da traição e da solidão. A noite, que antes fora aliada e guia, transformara-se em um espectro ameaçador, pairando sobre ela como um lembrete constante de que sua busca por liberdade ainda estava longe do fim.
A lua, testemunha silenciosa da tragédia, continuava a brilhar, lançando sua luz sobre a figura vulnerável de Lina. Enquanto as lágrimas da chuva se misturavam às lágrimas de uma alma aflita, a noite carregava consigo o peso de segredos e desafios que moldariam o destino da mulher aprisionada na forma de um lobo.
Lina estava tão focada em afastar aquela névoa obscura da maldição e o que havia acontecido, que só percebeu que a porta da casa se abriu quando escutou um "clique" bem atrás da cabeça.
Ela não tinha mais energia pra correr. Usou toda que tinha pra fugir.
Quando ergueu o olhar, de cabeça baixa, teve a maior surpresa da sua vida.
Parecia que o destino dela estava nas mãos daquele olhar que imediatamente reconheceu.
"Acho melhor ficar calmo rapaz, as coisas não precisam terminar assim, a matilha está caçando você. O que faz na cidade?"
O homem resoluto é paciente mostrava determinação.
O senhor Colin se escondia nas montanhas quando o convívio ficava difícil. Sua vida nunca foi a mesma depois que sua primeira esposa morreu. Deixou um pedaço para trás, sua filha Stella, mas parecia faltar um pedaço.
Eliza era sua nova esposa, pensou que na época seria incrível alguém que parecia entender a dor dele. Mas não adiantou.
Por mais que tentasse, o buraco estava lá. Quando ficava muito grande, ele subia até a cabana. Afastando-se de tudo e todos.
Ele podia se lembrar de como Elizabete era incrível e como foi feliz com ela ali naquela cabeça.
Talvez, o encontro com o lobo ferido fosse algo que ele não esperava.
Lina reconheceu e foi se encolhendo, se entregou na mão dele. O rosto de Eliza, seu carrasco e dona daquela maldição apareceu.
Ela não entendeu o gesto do Senhor Colin quando ele abaixou a arma e os olhos escuros tomaram a cor azul.
Ele tentou se comunicar com o animal, se sentiu velho perto do pelo dele e da forma animal.
"Esta machucado, não é? Perdido?"
Lina, de alguma forma sentiu a cabeça balançar para o homem. Pela primeira vez alguém havia perguntado algo e ela conseguiu responder.
A mão do senhor Colin se ergueu e acariciou a cabeça do animal, por um segundo, ou a sentiu a a energia dele.
Seu rosto se ergueu e antes que pudesse ranger os dentes ou uivar pra ele, ele acariciou o fucinho dele.
O homem pareceu não reconhecer e não saber quem ela era.
"Você deixou muita gente zangada. Acho melhor não fazer barulho, não consigo me comunicar com você. De onde saiu?"
Colin era sagaz e um homem velho e experiente, a mão dele caçou a força vital do animal, assim como todo lobisomem podia fazer. Mas ele não sentiu nada.
"Grrrr!"
O burburinho vindo de Lina pareceu fazer ele tentar entender.
"Você também estava querendo fugir?"
Lina olhou nos olhos dele. Lembrou que o senhor Colin sempre foi gentil.
Com tudo parecendo perdido, ela preferiu arriscar com ele. Preferiu dar um voto de confiança.
Ela deixou o coração leve e não tentou lutar pra sair de dentro e nem controlar. Ela foi aquele lobo, entrou na pele onde foi aprisionada.
"Grrrr!"
"Vem pra dentro, algo me diz que você não é apenas um lobo qualquer. Está machucado, precisa melhorar garoto. Aqui temos um alfa, vai ter que se redimir se quiser ficar nas montanhas. Todo lobo é bem-vindo na nossa matilha."
Por que aquele homem estava sendo tão bom com ela?
Será que ele não sabia mesmo de nada?
Lina tinha um coração aberto, sua pata foi deslizando até a perna dele, pedindo ajuda para o machucado.
Estava fragilizada e só havia aquele homem.
Podia ser um erro banal, mas não tinha força pra correr.
"Vem pra dentro, sua perna pode piorar se não passar nada, mas não pode me atacar. Posso machucar você ainda mais, ouviu?"
Pela segunda vez, ele acariciou o pelo dela.
Lina sentiu a energia, mas não conseguiu entender.
Se ela soubesse que era parte da história dela, da fase que ela ainda era um bebê, ela entenderia a energia.
Mas Lina era um bebê trocado.
Aquele homem achava que Stella Colin era filha da sua falecida ex-mulher.
Mas não era.
Ele estava diante sua filha, agora amaldiçoada.
Mas nenhum dos dois sabiam de nada disso.
Nem mesmo imaginava.
O destino estava brincando com Lina.