A grande Escapada

1108 Words
Ele me soltou como se uma voz estivesse sussurrando em seu ouvido. O corpo de Danilo afundou na cama, pesado e imóvel, o sono do álcool finalmente o levou para longe de mim. A respiração dele era rouca, irregular, e eu permaneci ali, deitada ao seu lado, fingindo dormir até ter certeza de que ele não acordaria. Quando o ronco se tornou constante, me levantei em silêncio, evitando até mesmo chacoalhar os lençóis bruscamente. O meu corpo doía- os dedos dele ainda pareciam marcados no meu braço, e minha cabeça latejada de tanto chorar. Eu precisava de um analgésico. Ou melhor, precisava de uma desculpa para sair dali. Eu precisava respirar. Para lembrar que ainda existia um mundo fora daquela casa. Eu coloquei um casaco por cima do meu roupão, não tinha energia para me trocar. Eu peguei a bolsa e saí, fechando a porta com cuidado para não fazer barulho. O ar lá fora estava gelado, cortante, mas mesmo sentindo um frio absurdo eu estava aliviada por respirar ar puro. Era o mundo real, e ele não parecia tão horrível quanto o mundo dentro daquele apartamento. A farmácia ficava a três quadras da minha casa, caminhei rápido e de cabeça baixa. Eu temia que alguém percebesse as marcas que Danilo tinha deixado pelo meu corpo. Foi quando, ao virar a esquina esbarrei em alguém. - Perdão – Murmurei automaticamente, recuando sem nem levantar os olhos. - Não precisa se desculpar, está tudo bem? – Ele disse com a voz firma, tentando olhar em meus olhos. - Eu esbarrei em você o mínimo é pedir desculpas... O silêncio era constrangedor, ele ficou me olhando profundamente nos olhos assim que eu o fitei de volta, eu não aguentei deixar passar a oportunidade de saber de quem era aquela voz gutural. - Eu já vou... preciso... chegar à farmácia! - Eu vou perguntar de novo, sei que não é da minha conta, mas você está bem? Parece machucada! O meu maior temor se cumpriu ali bem diante dos meus olhos. Ele havia percebido e eu não era uma mentirosa tão boa para inventar uma história sobre o meu ferimento de forma tão rápida. - É complicado... Por isso preciso chegar até a farmácia, se você me dá licença. - Claro... – Disse ele dando passagem. Eu andei um pouco mais rápido, mas ainda com alguma dificuldade, eu não sei como eu estava me deixando incomodar por alguém que eu nem conhecia. Mas a pergunta me pegou de surpresa. Eu não esperava que alguém fosse perceber, achei que a penumbra da noite me protegeria da verdade. Os passos atrás de mim me davam arrepios, ele continuou andando, talvez fosse o seu caminho, mas a minha mente desconfiada não aceitava aquilo. Entrei rapidamente na farmácia e não o vi mais, foi um alívio. Eu peguei os remédios necessários e na hora de passar no caixa, Danilo havia ainda mais uma surpresa para mim. - Senhora, deu recusado! – Disse a atendente. - Ah, eu ... tenta de novo por favor? – Eu disse constrangida, vendo a fila atrás de mim crescer. Ela tentou novamente, mas nada feito, não havia um centavo na conta ou no crédito. Com quantas putas ele gastou o dinheiro do mês? O pensamento me invadiu muito rápido, saí da farmácia mais humilhada do que eu entrei. Eu me sentei no banco ao lado e fiquei observando o céu, me sentindo a pessoa mais infeliz do mundo. Como eu podia ter sido tão azarada? - Está aqui... Os remédios – Disse o estranho me entregando a sacola e se sentando ao meu lado. - Não precisava ter feito isso, eu nem te vi lá dentro – Eu disse com lágrimas nos olhos. - Quem foi o animal que fez isso com o seu rosto lindo? – Disse ele olhando nos meus olhos. Ele não desviou o olhar, o que deixava a situação ainda mais embaraçosa. Os olhos dele eram pretos como a noite, sua postura era quase militar. Os cabelos eram bem cortados e sua roupa remetia a dureza de suas expressões, era lindo, eu não podia negar. - Eu prefiro não falar sobre isso. Mas eu vou aceitar os remédios, eu preciso deles - Eu disse baixando um pouco a cabeça. - Você tem alguma conta separada? Algo que não esteja em nome dele? – Disse engolindo seco as palavras, estava visivelmente com raiva e mentir não me ajudava em nada. Era normal que ele sentisse pena da pobre mulher agredida, sem nenhum centavo nem para comprar um analgésico barato para aplacar suas dores. - Eu tenho sim – eu disse encarando-o diretamente. - Me passa ao dados, eu vou depositar um dinheiro para você. Suma daqui, vá encontrar sua família, ou qualquer pessoa na terra que consiga te proteger. - Eu não posso fazer isso, isso é loucura! Não precisa me dar dinheiro nenhum, eu não sou nenhuma mendiga. - Eu não disse isso, é só que você merece mais do que um homem que te bate. E eu estou fornecendo a boia para você não acabar se afogando de vez, aceita por favor... Eu deixei as lágrimas descerem pelos meus olhos sem pausa, não consegui controlar as minhas emoções. Porém, uma ponta de esperança invadiu o meu coração. E fazia tanto tempo que as esperanças haviam me abandonado que a sensação era boa. Eu passei os dados para ele, explodiu na minha tela de celular o valor, muito mais alto do que eu esperava. E o nome dele... Alex. - Eu não posso aceitar isso... Alex...- Eu disse sem jeito. - Eu vi a minha mãe apanhar do meu pai a vida inteira, eu não posso ver uma pessoa passando por isso e não fazer nada. Esse dinheiro não vai fazer nenhuma diferença para mim, mas para você fará. - Eu preciso ir, se eu quiser ter uma chance de permanecer viva. Assim que eu me levantei ele segurou a minha mão: - Nicole – ele com certeza viu o meu nome na hora de fazer sua caridade – Não demore para lutar pela sua vida, qualquer homem pintaria o céu de outra cor para ter você nos braços. Não perca tempo com alguém que te ofereça menos que isso. - Eu prometo que eu vou embora, eu só não sei como eu te agradeço... - Me agradeça vencendo isso. Eu fiz que sim com a cabeça e saí caminhando na noite, com o coração apertado, porém cheio de esperanças. Mas para onde eu iria realmente? Eu não tinha ninguém naquele mundo enorme, eu tinha algum dinheiro e uma vontade imensa de me soltar daquela gaiola.
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