São Pietro era uma cidade cinza como se estivesse presa em um filme antigo, um preto e branco que combinava com o seu humor e com suas roupas, adequadas para ir falar com um advogado de renome.
Alessandra olhava pela janela, os prédios eram tão altos que sumiam nas nuvens. Seria impressionante se não fossem nuvens de poluição, devido aos milhões de habitantes usando seus carros todos os dias.
Cada vez que pensava sobre aquele lugar, mais ele parecia inadequado para viver e formar uma família. Incrível como um único acontecimento, inesperado e doloroso, mudava sua concepção sobre tudo. William Abner não era sua família, era um hóspede da sua então casa que em breve estaria fora da sua vida.
Richard, o advogado que ela confiaria sua separação, seria o único que não veria o seu teatro. E isso a assustava. Desde aquela manhã em que flagrou seu marido traindo, tinha medo de tirar sua máscara e se revelar de verdade. Talvez tudo o que pudesse fazer seria chorar.
O escritório de Richard ficava localizado nas alturas de um desses gigantes de aço e concreto, enfeitados de belos espelhos. Lá, Alessandra ergueria sua bandeira invisível e começaria uma guerra silenciosa contra o homem que a enganava.
Entrando no lugar, pela primeira vez dois, sentiu-se acolhida em um ambiente. A atmosfera do local carregava seriedade em cada canto em que seus olhos passavam.
Richard Schneider era um homem alto de cabelos grisalhos, barba completamente aparada, elegante e com olhos gentis por trás de óculos de armação fina. Ele a esperou pessoalmente e a conduziu até sua mesa de mogno.
O homem iniciou a conversa com formalidades, no entanto, Alessandra não foi até ali para isso. Portanto, foi direto ao ponto.
— Richard, agradeço do fundo do coração por ter aberto um espaço na sua agenda apertada para mim tão cedo — ela disse, tentando manter a voz neutra. — O que tenho a mostrar é bastante sério e quero manter só entre a gente por enquanto. Incluindo essa conversa.
— Alessandra, eu estarei sempre à sua disposição — ele a olhou com um semblante sério, quase paternal. — Diante da sua mensagem, eu percebia que era algo grave. Então faremos assim, mostre tudo o que precisar mostrar. Estou aqui para ajudá-la.
— Perfeito, Richard. Eu sabia que podia contar com você.
Alessandra pegou sua bolsa de grife da sua própria marca Boreal, desbloqueou a galeria e mostrou a Richard todas as provas que conseguira, entre fotos e vídeos. William beijando outra mulher na rua como se fosse um coroa solteiro.
O advogado pegou o celular e observou as imagens, sua expressão indo de surpresa para preocupação.
— Alessandra… — ele começou, mas ela o interrompeu.
— Eu o segui uma manhã, enquanto ele ia correr, as malditas corridas que ele dizia que amava, e tirei essas fotos. Tenho tudo guardado na nuvem, em uma pasta segura com senha e tudo, caso ele desconfie de mim, descubra e tente apagar. Não me casei por dinheiro, você sabe. O império do meu pai é maior do que o desse cretino, e a Boreal é um sucesso, entre roupas e acessórios. Estou aqui, Richard, porque quero me divorciar desse traste. E quero que ele pague por tudo o que fez comigo, por cada vez que me enganou para ficar com essazinha aí.
Alessandra terminou de falar com o nó de raiva na garganta quase a sufocando. Richard a olhou, avaliando não apenas as provas, mas a garra da sua cliente.
— Com esse tanto de evidências, você tem uma causa sólida para divórcio litigioso. A traição dele e o fato de que ele não pensou em um acordo pré-nupcial, uma grande arrogância da parte dele, dá toda a vantagem que você precisa. Vamos pedir um acordo que force o William a dar uma parte realmente considerável da fortuna dele para você. É algo que ele não está esperando. Se optar por isso, podemos fazer tudo de forma discreta para não causar um escândalo. Nada de ir parar nas manchetes de jornais.
O que Richard parecia estar prometendo era um divórcio dos sonhos, algo que poderia ocupar o lugar do melhor dia da sua vida facilmente se bem executado. E dependendo daquele advogado, com certeza seria.
Quando a conversa começava a animá-la, entretanto, um enjoo repentino, que ela já vinha sentindo há vários dias, a atingiu com força. O escritório começou a girar, sua mente nublando um pouco
O cheiro do café na mesa de Richard, a tinta dos livros sobre a legislação, o seu perfume caro, tudo se tornou insuportável, forte demais. Alessandra se levantou pálida, dizendo apenas que ia ao banheiro.
Curvando-se sobre o vaso sanitário, ela tentou controlar a respiração. Toda a raiva que havia se acumulado no seu íntimo pareceu se transformar em medo. Ela deu descarga no vaso sanitário uma última vez e tentou se levantar, mas permaneceu no lugar quando a náusea ameaçou voltar.
O barulho da porta se abrindo soou e ela olhou para trás, a secretária de Richard, uma mulher mais ou menos da sua idade, entrou com um copo de água na mão.
— Nossa — disse ela. — Você está parecendo um fantasma. Comeu alguma coisa estragada?
Alice, como tinha no seu crachá, entregou um papel toalha para Alessandra limpar o rosto.
— Obrigada, eu acho — respondeu ela. — E não, eu cuido muito bem da minha alimentação. É só a minha ansiedade atacando.
— Certeza? — Alice a olhou bem. — Minha ansiedade me faz chorar e me tremer como um pinscher. Começou hoje ou já tem alguns dias?
— Desde que eu descobri que meu marido está me traindo — Alessandra confessou.
— Isso é pesado. Pelo menos você vai sair mais rica depois disso — Alice ofereceu a mão para ela se levantar.
Alessandra respirou mais um pouco e aceitou a ajuda.
— Agradeço.
— De nada. Só faz um teste de gravidez para ver se esses enjoos têm alguma explicação.
A secretária se retirou do banheiro com um aceno, mas foi como se tivesse acertado um soco no seu estômago. Todas as peças se encaixaram de forma aterrorizante. Ela estava grávida do homem contra o qual preparava sua vingança.