Alessandra Mendonça se retirou do banheiro do escritório de Richard Schneider sem saber o que estava mais revirado: seu estômago ou sua cabeça. A possibilidade de estar grávida de William Abner era uma virada inesperada, o que a fazia pensar no que deveria fazer a seguir.
O mais óbvio era seguir a ideia de Alice, correr até a farmácia mais próxima e realizar um teste gravidez relâmpago. Se é que tal coisa existia, felizmente nunca teve que pensar nessas coisas, seus métodos contraceptivos sempre deram conta. Pelo menos até então.
Ela não perdeu tempo inventando desculpinhas para deixar o escritório de Richard, apenas disse que tinha uma emergência pessoal, uma da qual o advogado não poderia ajudar. Ou seria o que veriam depois.
Vendo a mulher agitada, Richard apenas assentiu com a cabeça e a deixou ir sem mais perguntas. Alessandra tentou manter a postura de uma mulher decidida e firma, mas o pânico escapa pelo seu suor. E como ela estava suando tanto nesses últimos dias, quase não se reconhecia.
Uma chuva fina caía sobre São Pietro quando ela alcançou a rua lá fora. O céu nublado como sua mente.
— Para casa, senhora? — Indagou o motorista quando ela entrou no carro.
— Não — sua voz conseguiu sair, apesar do aperto na garganta. Ela pediu quase em um sussurro: — Para a farmácia mais perto daqui, por favor.
Ela torceu para que Elton não fizesse perguntas. Como sempre, um homem reservado e de poucas palavras, o motorista apenas dirigiu.
O caminhou até a farmácia foi realmente curto, não chegando a percorrer cinco minutos, mas pareceu durar uma eternidade. Sua ansiedade a sufocava com mãos que não podia afastar, a náusea voltou, como uma ferida que latejava sempre mais forte.
Alessandra fechou os olhos e respirou fundo, tentando acalmar seus sintomas. Como uma mulher que comandava a Boreal, uma marca internacional de milhões, conseguia ficar tão apavorada com a possibilidade de uma gravidez?
Ela era a esposa de um dos CEOs mais ricos do mundo. Sua vida era bem controlada, toda regrada como ela gostava. Como tudo podia ter virado por causa das merdas de outra pessoa? Uma vida previsível de repente se tornou um furacão de reviravolta. E ela estava no centro, sufocando com tudo girando ao redor.
Chegando enfim na farmácia, tentou agir como se estivesse comprando qualquer coisa. Sua mente era uma tela em branco, ou aquelas em que o nome DVD fica batendo nos cantos da tela sem nenhum destino específico.
Quando a balconista a perguntou se ela precisava da sua assistência, Alessandra travou, sentindo as bochechas ficando vermelhas. Ela não nasceu para fazer aquilo, nunca nem havia comprado uma camisinha, seus parceiros que o faziam. Ela não estava prepara para dizer que fazia sexo para uma estranha.
Engolindo a vergonha, ela falou antes que parecesse uma deficiente mental.
— Eu... preciso de um teste de gravidez.
A balconista, sem falar mais nada, andou até a prateleira em que havia o teste e entregou a caixa para Alessandra. Ela, por sua vez, sentiu que segurava uma bomba-relógio prestes a explodir. Balançou a cabeça como se não entendesse como havia chegado naquela situação.
Alessandra voltou para o carro e enfrentou outro inferno que foi o ter que esperar até chegar em casa para saber se a suposição da secretária de Richard, que agora era sua própria suposição também, era verdadeira ou uma história que a faria rir e dormir mais tranquila.
Ao chegar em casa, o apartamento de luxo estava silencioso. William ainda não havia voltado do trabalho. Ou talvez estivesse... ela não completou o pensamento. Não seria mais da sua conta muito em breve.
Alessandra subiu correndo para o banheiro da sua suíte, trancou a porta e abriu a caixa. As instruções eram simples, mas o peso daquele momento era imenso. Ela seguiu as etapas quase de forma mecânica, com as mãos tremendo, e colocou o pequeno bastão na bancada de mármore.
Esperar, como sempre, foi a parte mais difícil para ela. Sentou-se na beirada da banheira e ligou a torneira, deixando-a encher até cobrir os seus pés, a água gelada a acalmaria se fosse uma circunstância diferente.
Alessandra pensou nos últimos meses do seu casamento, nos momentos de paixão que agora pareciam sujos, contaminados pela traição de William. A vingança, que antes parecia um caminho claro, agora estava enevoado, sua determinação oscilava a cada curva estranha da sua vida.
Quando o resultado veio, não foi de forma dramática, apenas duas linhas deram a resposta para ela. Duas linhas que a fizeram abrir a boca de surpresa, embora soubesse que o choque era injustificável, de certa forma, ela já esperava. Sabia que Alice acertara na sua suposição, mas a negou para si mesma por escolha própria.
Alessandra Mendonça estava grávida de William Abner, o homem que a traiu, um ator que fingia tão bem que ela continuaria sendo enganada se não tivesse saído para caminhar naquela manhã infeliz. Ou manhã alegre, pois a livraria de um traste imundo.
Em meio ao medo da confirmação da gravidez, no entanto, uma nova emoção nasceu: o amor de mãe. Uma fúria protetora que a faria garantir um futuro agradável para o seu filho, longe daquele homem falso que havia estragado a família que ela tinha sonhado que construiriam juntos.
Decidida, pegou o celular, com as mãos firmes dessa vez, e ligou para o escritório de Richard Schneider.
— Por favor, Alice — falou quando a secretária atendeu —, diga ao Richard que é a Alessandra Abner e que é urgente.
— Mas agora...
— Eu não ligo. Passa para ele, não pode ser adiado.
— Então tá.
Ela jurou que sentiu a secretária dando de ombros através da ligação. Segundos depois, Richard atendeu, a voz séria.
— Alessandra, o que aconteceu?
— Richard — Alessandra falou, a voz carregada de emoção e uma nova determinação. Seus olhos chegaram a lacrimejar. — Eu vou ter um filho.