Das sombras do outro lado da rua, dentro do conforto climatizado de seu carro com vidros escuros, Vitória observava. Pacientemente. Por dias, ela estudara a rotina de Gabriel Cruz. Os recursos do seu pai haviam lhe dado tudo: seus horários no hospital, o endereço do seu apartamento, seus lugares favoritos. Ela o observava como uma bióloga estuda sua presa, aprendendo seus hábitos, suas fraquezas. Ela o viu saindo do hospital, o cansaço nobre de um médico que salva vidas. Viu-o correndo no parque, a disciplina de um homem que cuida do corpo. Viu-o entrando e saindo de seu apartamento, sempre sozinho. A ordem de restrição do juiz fora um presente inesperado, uma arma que ela nem precisou forjar. Havia o isolado perfeitamente. Naquela tarde, ela o seguiu até um prédio comercial discreto.

