Alessandra manteve seu papel de mulher do lar e preparou o café da manhã para o marido. Café sem açúcar e panquecas cobertas com mel de abelha. Ela o serviu enquanto o homem se sentava na cadeira com seu short suado e pegava o jornal da manhã para ler enquanto comia.
Os talheres eram de prata, mas ele comia com as mãos e lambuzava as páginas de esportes. As xícaras eram de porcelana cara que ela havia comprado em Paris, no entanto, William tomava o café e as batia com força sobre a mesa, manchando o mogno da China.
Tão descuidado, tão desatento. Ele não tinha medo de quebrar ou perder nada, parecia que sentia como se o dinheiro fosse infinito. E talvez tivesse pensamentos semelhantes em relação às mulheres. Por isso que a traíra, ele podia ter a mulher que quisesse, ele era um dos CEOs mais ricos do mundo.
Mas havia algo que ele sempre dava valor e considerava super importante: a sua empresa, de onde vinha todo o seu poder e luxo, a possibilidade de viver como um rei acima de todos que o cercava. Alessandra não começava a sentir nojo só pela traição, mas por tudo que seu amor a deixara cega.
Carência, resolveu dizer para si mesma, era a única razão para se encontrar com um traste daqueles. Sua ansiedade ainda atacava enquanto maquinava seus planos, os enjoos a deixavam preocupada, mas comeu à mesa com seu marido para ele não notar nada.
William fez alguns comentários sobre a economia, sempre coisas que ela não entendia e abocanhou duas panquecas de uma vez. Depois, começou a falar do seu maior orgulho da vida, sua empresa.
— Meu amor, você não vai acreditar nas novas parcerias que firmamos, as novas negociações... você não sabe o que está por vir.
Não. Alessandra realmente não sabia e não desejava saber. Ela quase dormia sempre que William começava a falar dessas coisas, por educação e respeito a ele, mantinha os olhos abertos e uma atenção forçada. E como ele a recompensou, enfeitando sua testa com um par de chifres.
A mulher observou o marido do outro lado da mesa, não sabia como ele conseguia fingir tão bem, mas iria aprender, ele seria seu próprio professor. E, em breve, ele provaria do próprio veneno, o CEO orgulhoso perderia no seu joguinho de teatro patético.
Então Alessandra viu a aliança de casamento no dedo dele e sentiu um vazio. Tudo que fizeram juntos, todos os planos, tudo havia sido jogado fora. Ela segurou as lágrimas antes que se derramassem. Felizmente, William não tirou os olhos do jornal por um segundo.
Ela olhou para o próprio anel que ele havia colocado no que ela considerava até então o melhor dia da vida dela. Era só uma haste sem valor, um tipo de ferro com um peso inútil que logo logo ela teria o maior prazer de se livrar. Mas nem tudo de William ela jogaria fora, por isso que a mulher disse:
— Que coisa boa, meu bem — sorriu. — Assim nosso império fica cada vez maior.
— É disso que eu estou falando, querida — o homem se levantou e beijou a testa dela.
Dessa vez, permitiu. Desviar pela segunda vez chamaria atenção e ele faria muitas perguntas. Detestava quando ele começava a falar, perguntar e resmungar demais. Os lábios dele encostando sua pele trouxe uma sensação asquerosa, por pouco não vomitou.
Felizmente, o celular de William tocou e ele não insistiu em dar mais beijos, podendo forçá-la até mesmo a beijar na boca, uma ideia que ela passou a detestar depois que tudo o que viu mais cedo na rua. Mas como escapar dos beijos dele por mais tempo? Ela encontraria uma desculpa.
William foi atender sua ligação no escritório, como costumava fazer. Quantas vezes ele fizera aquilo para atender sua amante? O sangue de Alessandra ferveu ao pensar em quantas vezes tinha sido enganada. Naquele segundo mesmo, ele poderia estar falando com a outra.
Em um impulso de raiva, Alessandra não perdeu mais tempo. Com seus dedos tremendo, ela pegou seu celular e colocou a senha para acessar sua galeria. Todas as fotos do p@u dele... ela as odiava, de vez em quando enviava umas de lingerie, mas não pedia para ele enviar nada.
Inclusive, mandava ele parar de importuná-la com tais fotos até que um dia cansou e apenas deixou elas se acumularem, nem abria mais. Ela passou um dedo em todas elas e as deletou. Seu interesse era outro.
Seus olhos percorreram as fotos e vídeos que tinha recordado do marido com a outra mulher. Ter aquelas provas de tudo o que havia testemunhado não era só um ato de vingança, mas também um ato de sobrevivência.
Alessandra criou uma pasta oculta e depois salvou tudo na nuvem, no seu e-mail pessoal que ele não tinha acesso. A pasta das fotos do casamento perdeu totalmente o valor, tudo o que ela precisava agora era da pasta “Evidências” e em breve sua vida ia dar uma virada.
Depois de garantir que não perderia tudo o que precisava para sua vingança, ela se sentou em frente ao notebook e começou a digitar tão rápido que as teclas poderiam sair do lugar ou grudar nos seus dedos.
Ela pesquisou por advogados. O nome Richard apareceu na tela, um homem competente que a ajudou de forma brilhante quando teve problemas com uma loja da sua marca. Ela ligou para o número do escritório dele, destacado embaixo da sua foto, e uma secretária atendeu.
Ela não precisou falar muito, deixou apenas um recado que Richard atenderia sem demora. Um tipo de trabalho que ele adoraria ter:
— É sobre o meu divórcio.
E depois desligou. Alessandra olhou para a foto do casal apaixonado sobre a mesa de centro. O homem mais velho, porém bem conservado e bem vestido, e a mulher de vinte e cinco anos, apaixonada e cheia de sonhos. Em seguida, abriu as fotos do seu marido beijando outra mulher novamente.
A sua vingança, Alessandra decidiu, seria a sua obra-prima.