— Você disse na última sessão que se sentiu um monstro após a briga com William — a voz da Dra. Arantes era calma, um convite, não uma acusação. — Mas você estava defendendo a mulher que ama. Por que essa reação tão forte? Gabriel, afundado na poltrona do consultório, encarou as próprias mãos. Mãos de um cirurgião. Mãos que salvavam vidas. Mãos que, duas vezes, haviam causado uma destruição irreparável. — Porque não foi a primeira vez — ele sussurrou, a confissão um peso que ele carregava há mais de uma década. A imagem, sempre presente no fundo de sua mente, veio à tona com uma clareza dolorosa. Ele tinha dezessete anos. O cheiro de álcool barato e medo impregnava o ar da pequena sala. Seu pai, um homem grande tornado grotesco pela bebida, gritava, a voz um trovão. Sua mãe chorava e

