Episódio 4- A Primeira Impressão

1328 Words
Marcos Santiago O relógio da sala marcava pouco depois das seis da tarde quando ouvi o som do portão eletrônico se abrindo. O céu começava a ganhar tons alaranjados, e a luz suave da hora dourada atravessava as janelas da sala, deixando o ambiente com uma atmosfera inesperadamente acolhedora. Eu estava sentado no sofá, folheando alguns relatórios de pacientes que trouxera do hospital, mas confesso que estava mais curioso do que concentrado. Não sabia exatamente por quê — talvez porque aquela nova babá representasse mais uma decisão tomada por Vanessa sem me consultar. Lurdes surgiu pela porta da cozinha, enxugando as mãos no avental. — Doutor Marcos, acho que é ela. — disse com um sorriso discreto. Levantei-me, ajustei a gola da camisa polo e segui até o hall de entrada. A porta se abriu e Lurdes entrou acompanhada de uma jovem que segurava uma bolsa média de alça marrom. Por um segundo, fiquei sem palavras. Samantha Smith não era o que eu tinha imaginado. Devia ter uns vinte e quatro anos, estatura média, os cabelos castanhos ondulados caíam soltos pelos ombros. Usava uma calça jeans azul-escura e uma blusa de alça preta, simples e elegante, que realçava a pele clara. Estava sem maquiagem pesada — apenas um brilho natural nos lábios — e ainda assim parecia absurdamente bonita. Ela mantinha as mãos entrelaçadas à frente do corpo, levemente tensas, e os olhos, também castanhos, percorriam o ambiente com certo nervosismo. — Doutor Marcos, esta é a minha sobrinha, Samantha. — apresentou Lurdes, orgulhosa. — Sam, esse é o doutor Marcos Santiago. Samantha ergueu o rosto e sorriu, um sorriso tímido, mas sincero. — Boa tarde, senhor. — cumprimentou com a voz suave. — Boa tarde, Samantha. — respondi, oferecendo a mão. — Pode me chamar de Marcos, por favor. Seu aperto de mão foi leve, delicado. Senti que estava nervosa; dava para perceber pela forma como mordia discretamente o lábio inferior antes de soltar a mão. — Podemos sentar para conversar um pouco? — perguntei, indicando o sofá. Ela assentiu rapidamente. Sentamo-nos frente a frente, e Lurdes, sempre prestativa, trouxe uma jarra de suco e dois copos, depois se retirou para nos dar privacidade. Abri a entrevista de forma direta, mas com um tom gentil, para deixá-la à vontade: — Então, Samantha... me conte um pouco sobre você. Ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha antes de responder: — Bom... eu sou de Campinas. Me mudei pra São Paulo há pouco tempo. Trabalhei como cuidadora de duas crianças, mas era em tempo parcial. Resolvi aceitar a sugestão da tia Lurdes porque sempre gostei de lidar com crianças, e preciso de estabilidade. — Tem alguma formação na área? — perguntei. — Ainda não concluí a faculdade. Estou no quarto semestre de Pedagogia, mas tranquei pra trabalhar e juntar dinheiro. Pretendo voltar a estudar assim que possível. A sinceridade dela me arrancou um sorriso involuntário. — E por que quer esse trabalho especificamente? Ela hesitou por um instante, depois respondeu com simplicidade: — Gosto de crianças. Gosto de ensinar e brincar com elas. Preciso do emprego... mas também quero fazer diferença na vida da menina, ajudá-la no que eu puder. Enquanto ela falava, percebi que suas palavras não tinham ensaio: vinham de um lugar genuíno. Havia algo na postura dela — talvez o nervosismo misturado à sinceridade — que a tornava ainda mais interessante. Fiz mais algumas perguntas sobre horários, responsabilidades, noções básicas de primeiros socorros (que ela disse ter aprendido em um curso rápido) e referências, todas entregues de forma organizada. A entrevista foi interrompida pelo som de passos leves na escada. Quando olhei, vi Cristal descendo animada, usando um short de algodão e camiseta com estampa de unicórnio. Ela parou ao ver Samantha. — Papai, quem é? — perguntou com a curiosidade típica de criança. Levantei-me e estendi a mão para que ela viesse até nós. — Vem cá, princesa. Essa é a Samantha... ou Sam. Ela é a nova babá que vai te ajudar com as tarefas da escola e brincar com você. Cristal, que costumava ser tímida com estranhos, surpreendeu-me: abriu um sorriso enorme e foi direto até Sam. — Oi, Sam! — disse, estendendo a mãozinha. — Eu sou a Cristal. Sam sorriu de volta, os olhos brilhando de ternura, e apertou a mão da menina com delicadeza. — Oi, Cristal. Que nome lindo você tem. A menina riu, lisonjeada, e logo começou a contar sobre seu coelho de pelúcia e o desenho premiado na escola. Fiquei observando a cena em silêncio por um instante. Era a primeira vez em muito tempo que via Cristal tão à vontade com alguém logo de cara. — Parece que vocês duas vão se dar muito bem. — comentei, satisfeito. Cristal assentiu, animada: — Eu gostei dela, papai! Olhei para Samantha, que parecia aliviada pelo clima amigável. — Sam, preciso que saiba que o emprego inclui morar aqui conosco. A Cristal precisa de alguém por perto nas manhãs e noites, então a Lurdes vai organizar o quarto de hóspedes pra você ainda hoje. Tudo bem pra você? Ela ergueu os olhos, um pouco surpresa, mas sorriu: — Tudo bem, sim. Não tenho problema com isso. — Ótimo. — respondi, sincero. — Espero que se sinta em casa. Cristal correu para mostrar seu quarto à Sam, e as duas subiram juntas, conversando como se já fossem amigas de longa data. Fiquei parado na sala por alguns segundos, observando as escadas vazias, pensando que aquela jovem tinha chegado trazendo uma leveza que eu nem lembrava que existia naquela casa. (***) O sol já havia se escondido e a casa estava mergulhada na luz quente dos abajures quando ouvi a porta da frente se abrir. Vanessa entrou, trazendo consigo o perfume caro e a postura impecável que usava para qualquer reunião social. O salto ecoou pelo piso de mármore, chamando atenção de todos na sala. Ela usava um vestido bege justo, de corte elegante, maquiagem impecável e o coque firme, sem um fio de cabelo fora do lugar. A bolsa de grife pendia do antebraço, e o celular ainda na mão, como se estivesse pronta para outra chamada de negócios. Eu me levantei do sofá com a intenção de apresentar Samantha, que até então estava sentada com Cristal no tapete, ajudando-a a organizar os lápis de cor. — Vanessa — chamei, com um tom neutro. — Esta é a Samantha Smith, sobrinha da Lurdes. A nova babá da Cristal. Vanessa ergueu apenas os olhos, sem sequer diminuir o passo. Atravessou a sala até a escada, parou por um segundo e olhou para Sam com um sorriso curto demais para ser considerado simpático. — Espero que faça seu trabalho. E, por favor... não me incomode. — disse em tom frio, antes de continuar a subir os degraus. Samantha ficou paralisada, sem saber se respondia ou não. Cristal, que estava ao lado dela, franziu o nariz e baixou os olhos, incomodada com a cena. Percebendo o clima desconfortável, me adiantei: — Sam... não se preocupe com isso. A Vanessa anda sobrecarregada com a boutique, mas você vai ver que as coisas ficam mais tranquilas com o tempo. Ela sorriu de leve, meio constrangida. — Claro... eu entendo. — Ótimo. — forcei um sorriso também, tentando aliviar a tensão. — O importante é você se sentir à vontade aqui. A Cristal já adorou você, e isso é o que conta. Cristal, talvez para aliviar o clima, puxou a Sam pelo braço e disse: — Vem, Sam! Quero te mostrar minha coleção de unicórnios! As duas subiram correndo as escadas, e eu fiquei parado na sala por alguns segundos, observando Vanessa desaparecer no corredor do andar de cima sem ao menos olhar para trás. Suspirei, massageando a nuca, já prevendo que a convivência entre aquelas duas mulheres seria um desafio. Mas, por enquanto, eu só podia torcer para que Sam não se deixasse abalar pelo jeito gelado da Vanessa.
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