Marcos Santiago
Cheguei ao Hospital Infantil Oncológico de São Paulo pouco depois das oito e meia da manhã.
A fachada já me era tão familiar quanto a minha própria casa, e a rotina começava antes mesmo de eu atravessar a porta principal: segurar o crachá contra o leitor magnético, cumprimentar a recepcionista com um sorriso cansado e seguir direto para a ala pediátrica.
Troquei o jaleco social que usava para sair de casa por um mais leve e limpo, com o nome Dr. M. Santiago bordado no bolso. Passei a mão pelos cabelos para domá-los, respirei fundo e fui para a primeira consulta do dia.
As manhãs no hospital eram sempre intensas, e hoje não foi diferente.
Passei em pelo menos quatro enfermarias antes mesmo do horário do café:
A primeira, para ver o Lucas, um garoto de nove anos que estava reagindo bem ao tratamento.
Depois fui ao quarto da Camila, de apenas cinco, que chorava com medo da medicação intravenosa; fiquei ao lado dela, mostrando o coelho de pelúcia que levava no bolso do jaleco para distraí-la.
Em seguida, atendi um adolescente de treze anos que se preparava para a terceira sessão de quimioterapia; conversamos sobre futebol, tentando afastar os medos.
Por último, passei na ala de isolamento, onde uma menininha carequinha me recebeu com um sorriso que me desmontou por dentro.
Cada rosto ali me lembrava por que eu escolhi essa profissão: não era só medicina, era humanidade.
A manhã passou tão rápido que só percebi a fome quando a secretária apareceu à porta da minha sala.
— Doutor, hora do almoço. Se não comer agora, não come mais. — avisou, sorrindo.
Saí do hospital quase uma hora da tarde e fui até um restaurante simples ali perto. Não era luxuoso, mas tinha a comida caseira que eu preferia: arroz, feijão, frango grelhado e salada.
Enquanto almoçava sozinho, aproveitei para revisar mentalmente as anotações dos pacientes e responder algumas mensagens do grupo médico no celular.
Por volta das duas e meia, já estava de volta ao hospital para mais visitas. Terminei os últimos atendimentos próximo das quatro e pedi ao motorista que me levasse até a escola da Cristal.
Ela saiu correndo pelo portão com a mochila balançando e os cabelos presos num r**o de cavalo meio desfeito.
Quando me viu, abriu os braços e sorriu daquele jeito que iluminava qualquer dia.
— Papai!
Ajoelhei-me para recebê-la no abraço e beijei sua testa.
— Como foi a aula, princesa?
— Foi ótima! A professora adorou meu desenho! — contou, animada.
O caminho de volta para casa foi preenchido pelas histórias da escola, de como ganhou um adesivo de estrelinha dourada por bom comportamento.
Quando chegamos, Cristal largou a mochila no sofá e correu para a sala onde Vanessa estava sentada na poltrona branca, folheando uma revista de moda. Ela usava um vestido bege justo, salto alto e o cabelo preso num coque impecável. Parecia saída de um editorial.
— Mamãe! — Cristal foi abraçá-la por trás da poltrona.
Vanessa nem ergueu os olhos da revista; afastou a filha com um movimento rápido da mão.
— Cristal, cuidado, vai amassar minha roupa.
Vi a mudança no semblante da minha filha, a animação dando lugar à tristeza. Ela mordeu o lábio inferior e baixou a cabeça.
— Desculpa, mamãe... — murmurou e, sem dizer mais nada, subiu as escadas devagar, carregando a mochila.
O som dos passinhos dela subindo a escada foi como um soco silencioso no meu peito.
Respirei fundo e tentei desfazer a tensão que ficou no ambiente.
— Ela só queria mostrar carinho, Vanessa. — comentei, tentando manter a voz neutra.
Vanessa ergueu os olhos da revista com um olhar impaciente.
— Marcos, você sabe que eu estava me arrumando para a reunião da boutique mais tarde. Não posso chegar toda amassada.
— Ela é só uma criança, Vanessa... precisa da mãe. — falei mais firme.
Ela deu de ombros, como se o assunto fosse irrelevante, e voltou a folhear a revista.
— É por isso que pedi à Lurdes uma babá. Não tenho tempo de ficar atrás dela o dia todo.
Arqueei a sobrancelha, cruzando os braços.
— Sobre isso... pensei que essas decisões a gente tomava junto.
— Não é nada demais, Marcos. — disse com um tom frio, quase sarcástico. — Você vive no hospital, eu preciso de ajuda com a Cristal. A babá é pra isso.
— Não era necessário sem conversar comigo antes. — retruquei, sentindo o peso da irritação subir.
Ela bufou, largando a revista no colo.
— Não começa, por favor. A última coisa que eu quero é brigar por causa de algo tão simples.
Fiquei alguns segundos encarando-a, mas percebi que não adiantava insistir. Qualquer tentativa de diálogo acabaria em discussão maior.
— Tá bem, Vanessa. — falei por fim, com a voz baixa. — Mas espero que trate a Cristal com o mínimo de carinho.
Peguei o jaleco que tinha deixado no sofá e subi as escadas. Precisava esfriar a cabeça.
No quarto, larguei o jaleco sobre a poltrona, soltei o nó da gravata e segui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro na água morna e deixei a água cair sobre a nuca, lavando não só o cansaço do dia mas também a frustração que eu sentia por aquela distância dentro de casa.
Quando saí do banho, vesti uma calça jeans escura e uma camisa polo cinza, deixando os pés descalços por enquanto. Senti os ombros relaxarem com a roupa casual.
Deitei por alguns minutos na cama, olhando para o teto, ouvindo os passos de Cristal correndo pelo corredor. Um dia longo, pensei. E algo me dizia que ainda estava só começando, e acabei dormindo.
Acordei com a claridade dourada do fim da tarde entrando pelo quarto. Levantei devagar, lavei o rosto no banheiro e desci as escadas com a sensação de que precisava estar presente.
Encontrei Lurdes organizando a mesa do lanche da Cristal. Ela ergueu os olhos assim que me viu.
— Doutor Marcos, ainda bem que desceu. — disse com um sorriso. — Queria avisar que a minha sobrinha já está a caminho. Vai chegar em alguns minutos.
Assenti, pegando uma das xícaras sobre a mesa.
— Ótimo, Lurdes. Quero conhecê-la assim que chegar.
Ela sorriu, visivelmente animada.
— Vai gostar dela, tenho certeza. A Sam é muito responsável e adora crianças.
Apenas balancei a cabeça, sem dizer nada, mas curioso para saber quem era a moça que estava prestes a entrar na nossa rotina.