Chefe narrando...
Meu filho às vezes me tira do sério. Isso porque ele é um frouxo, se alguém me desse uma arma na mão com aquela idade e me mandasse atirar, eu atiraria. Eu já estava com três 121 nas costas quando tinha dezenove, e esse muleque não aprende. De qualquer forma, as coisas não se fazem sozinhas e o morro não se comanda sozinho. Aqui, o morro de São Pedro, agora é meu. Conquistei na base do ódio, e porque o Pinote não valia o que comia. - Aê, Chefe... Tão armando barraco no salão da Dalila de novo. Parece que uma cliente não quer pagar o que fez lá, e como você falou pra eu ficar de olho... - Levantei da cadeira e peguei uma AK47 que tenho de estimação. Meus quatro seguranças, que me acompanham para todos os lados, me cercavam. Cheguei no salão da Dalila e uma barraqueira gritava feito louca com ela, enquanto ela estava de braços cruzados, com o cabelo enrolado preso em um coque, e olhando a mulher com desprezo.
- O que tá rolando, Dalila? - Questionei. Jessica Dalila é o tipo de mulher que eu gosto: Bunduda, peituda, cinturinha fina e pele bronzeada. Olhos caramelo, cabelos cacheados e um olhar de superioridade que só vi em poucas mulheres aqui no morro.
- Tá vendo essa bichinha de unha feita e cabelo pintado de loiro aí? Não quer me pagar porque disse que não gostou do serviço. Agora você me diz, Chefe, o que tem de errado? - Eu não entendo muito de cabelos nem de unha, pra mim estava mais que bom. Mas vi algumas mulheres ao redor e decidi dar um berro.
- Aê, mulherada. A mina tá certa de não querer pagar? - O burburinho começou.
- Paga a Dalila, sua vagabunda! - Uma gritou.
- A única coisa bonita nessa baranga é o cabelo e a unha porque fez no salão da Dalila! - Outra falou. No meio do burburinho, ouvi todas falando a mesma coisa: O trabalho estava bem feito.
- Aê, filha da p**a. - Apontei a AK na cara da mulher que se jogou no chão. - Passa o dinheiro da Dalila ou cê vai ver meu fuzil cantando, sacou? - A mulher arregalou os olhos. - Não! Eu não gostei do serviço, pelo amor de Deus, como vou pagar por uma coisa que não gostei, Chefe? - Ela esperneava na minha frente.
- Dalila, tem máquina de raspar cabelo? Não tenho paciência com caloteira não. - Dalila deu um sorrisinho irônico, e concordou com a cabeça. - Senhores, vamos terminar isso dentro do salão onde tudo isso começou. Fiz um sinal para os meus seguranças e dois deles agarraram a mulher, a arrastando para dentro do salão de Dalila. Ela gritava, e Dalila continuava com aquele sorriso lindo e satisfeito no rosto.
- Por favor, não façam nada com meu cabelo! - A moça gritou.
- Ué, não tava feio? - Dalila falou de forma bastante irônica. Por Deus, que mulher.
- Não, me perdoa, Dalila, eu vou te pagar semana que vem, eu não tenho dinheiro mas tem o baile na sexta e eu não queria perder... Me perdoa, Dalila! - Dalila girou os olhos e pegou a máquina de raspar cabelo. Ela entregou para mim, e eu fiz as honras. Raspei bem m*l. Ficou ridículo, mas era a intenção.
- Tá melhor agora, dona? - Soltei uma risada divertida ao falar isso. A mulher chorava, mas eu não ligo. Dalila sorria, e era o que eu queria.
- Eu não vou falar nada porque você é o dono do morro. - A mulher disse.
- Bom você entender seu lugar, porque minha AK tá doida pra cantar pra cima de você, filha da p**a. - Dei um tapa no ouvido da mulher. Ela colocou a mão imediatamente no local, por ter ficado com dor. Dalila apareceu com um negócio que eu nem sabia o que era.
- Segura ela um pouco pra mim, chefe? Vou tirar as unhas de gel que fiz com tanto carinho e essa cretina não pagou. - Dalila disse, olhando furiosa para a mulher.
- Ela não vai se mexer, se não, a unha vai sair na base do tiro. Né não, mulher? - Falei olhando para a mulher e ela concordou com a cabeça. Dalila cortou as unhas da mulher bem curtas. Confesso que deu vontade de mandar ela arrancar as unhas, mas não era necessário. A mulher foi embora ao som de uma multidão de mulheres furiosas pela Dalila. Ela é a melhor cabeleireira e manicure do morro, todo mundo a respeita, e as mulheres se ofenderam com o calote. Dalila começou a limpar as unhas e o cabelo raspado do chão com uma vassoura. Ela parecia triste, acho que por ter feito um trabalho que a fez perder tempo e não ganhar dinheiro nenhum.
- Bota um sorriso nesse rosto, Dalila. Cê é tão linda sorrindo. - Ela sorriu de leve e me olhou.
- A gente trabalha duro, gasta produto, material, e uma baranga dessa não paga, Chefe... É pra acabar com o dia da gente. - Ela disse. Arranquei a carteira do bolso e tirei trezentos reais.
- Isso cobre o prejuízo, Dalila? - Ela veio andando até mim animada.
- Com certeza. - Ela pegou as notas e eu pisquei um dos olhos para ela.
- Agora, dá um talento no meu cabelo que eu tô merecendo. - Ela caminhou até a cadeira do lavatório e deu alguns tapinhas, me olhando.
- Senta aqui, Chefe. Vou deixar o senhor bonitão. - Ela falou.
- Senhor não, né, Dalila? Você é bonita demais pra me chamar de senhor. - Ela soltou uma gargalhada baixa, mostrando seus dentes brancos e perfeitos.
- Ah, então tenho privilégios por ser bonita? - Ela negou com a cabeça, ainda rindo. - Como vai querer o cabelo, chefe?
- Raspado dos lados, degradê. - Dalila concordou com a cabeça. - E seu privilégio não é só por ser bonita. Tô de olho em você faz um tempo, Dalila. Tu é muito gente boa com a comunidade, cuida das mulheres, ajuda, aconselha. Quero esse tipo de gente prosperando aqui.
- Obrigada, Chefe. - Ela começou a lavar meu cabelo já curto, mas gosto dele sempre baixo. Mãos de fada, como dizem. Massagem boa pra c*****o na cabeça, imagine na cabeça de baixo...
Dalila cortou meu cabelo e ficou do jeito que eu queria. Quando saí do salão, a aglomeração havia acabado, acho que as mulheres ficaram satisfeitas com a resolução do caso.
- Dalila, se você quiser dar uma volta qualquer dia desses... Posso te levar em um lugar bacana. Pagar o que você quiser comer... Saca? - Ela abraçou o próprio corpo e me olhou com as bochechas coradas.
- Agradeço o convite, Chefe. Mas tenho tanto trabalho que não sei quando será meu próximo fim de semana livre. - Ela falou.
- Eu vou esperar um fim de semana livre teu. E eu espero que você se lembre que me deve um encontro. - Pisquei um dos meus olhos e saí andando, acompanhado dos meus seguranças.