09:00hrs Hospital de Willisburgo.
— Não sei como te dizer isso Anthony.
O médico estuda os exames recentes com ambas as sobrancelhas erguidas.
— Estou com algum tipo de câncer . - Anthony responde sem rodeios.
— Não. Claro que não. - O doutor ergue o rosto. — É um tipo raro de infecção. John deveria saber desses riscos. Temos que falar com ele.
— Não! Se ele voltar Susan vai saber. Ela e meu irmão tomam conta das coisas por lá.
— Está ficando sem tempo Senhor. Vamos extrair a sua córnea danificada ,ou pode ser que em pouco tempo ela inflame mais ainda e se torne uma infecção forte de mais.. De qualquer forma John é seu médico. É ele quem deve cuidar de você.
— Quanto tempo?
Ambos se olham. Anthony teme tanto a resposta que o estômago se embrulha.
— Para perder a visão? Meses, seis no máximo. Se a infecção se alastrar você irá a óbito antes mesmo desse prazo.
— Preciso de alguma coisa para as dores. - Anthony fecha os olhos. — Só até... Até eu ter tempo de contar para minha família.
— Você chegou aqui tendo uma crise de convulsão. Eu deveria te manter internado até John chegar. E te operar as pressas. Te manter medicado e tentar salvar sua vida.
— Não quero voltar a ser cego. Se esse for o caso, prefiro mesmo morrer. Só Deus sabe como é sentir e não enxergar. Eu preciso ir embora. Susan vai desconfiar.
-—Aqui está um remédio. Tome ele duas vezes ao dia. Se a dor não passar volte com urgência. E por favor procure tratamento. As vezes ficar cego não é nada comparado com a vida. O ser humano é moldado a adaptações. E você tem uma família com poder.
— Obrigado.
E só Deus sabe o quanto ele lamenta por não ter voltado para a festa. Perdera a dama pela qual sonharia o resto da vida. Sabe qual será seu destino, mas anseia por tê-la outra vez em seus braços. Mas quem será?
Não se lembra de nada mais, nem um traço familiar. Nada.
Lembra- se de ter deixado a dama por causa de uma dor forte, e pela expectativa de logo descer vestido de fantasma da ópera, e poder falar com ela e ouvir a voz. Mas desmaiou no caminho e só se lembra de ter acordado no hospital. Por sorte um convidado estava passando e estava tão bêbado que não o conheceu. Seria deprimente ver Susan correndo pelo corredor e gritando por ele.
— Senhor. Anthony! - O médico passa a mão na frente dele. — Está se sentindo bem?
— Claro. Me desculpa. Estou cansado.
Anthony levanta da cadeira, anda pelo corredor extenso e quando não é mais observado senta no chão e chora. Chora por todo o medo de morrer, ou sofrer antes disso, de voltar a viver no mundo como se andasse em um cômodo escuro. Sabendo do que tem lá, e só podendo sentir . Sentir e sentir.
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Emma
— Eu já disse que preciso ver como ele está! - Tento passar pelo segurança mais uma vez.
-— Ele está dormindo agora. Passou por uma cirurgia moça. Se conhece mesmo ele deve saber que não pode entrar.
O homem não se mexe nem quando o empurro. Um armário forte e grande, não que eu seja grande. Eu devo ficar pelo menos debaixo do sovaco dele, ou mais em baixo.
— Olha. Moça. Não me faça te colocar para fora daqui, você....
Meu celular toca. Nós dois ficamos em silêncio.
— Só um instante moço.
Pego o celular e me Afasto dele. Confiro o número. Chamada restrita.
— Emma Sullivan?
—Sim? - Encosto na parede.
— Conhece Jones Willber?
— Meu ex patrão. - Reviro os olhos.
— Ele foi deixado na frente do hospital, e trazia uma lista com seu nome.
— O que? - Fico tensa. — Ele... Ele...
— Tudo o que posso dizer é que agora está em coma, passou por algumas coisas mas está estável.
— Quem está falando?
— Policia de Londres.
Ótimo. Maravilhoso. Já não bastava ser pobre e desempregada. Agora serei pobre, desempregada e fugitiva.
— Eu não fiz nada. Olha, ele me mandou embora eu... Eu só dei um soco nele. Um soco não mata ninguém.
— Queremos te ver Emma. Semana que vem. Se não comparecer posso acreditar que teve alguma coisa nisso.
— Não! Eu irei.
Ele me passa o endereço e depois desliga. Tudo o que eu mais queria era ser normal. Sem um passado horroroso, um presente incerto e um futuro impossível.
Meu celular toca novamente. Atendo sem olhar na tela.
— Emma!
— Mãe? - Fecho os olhos e encosto na parede.
— Emma Sullivan onde está? Te procurei em casa.
— Pode parar de me chamar pelo nome? Eu avisei para o Long que iria sair em viagem
— Mudar. Quis dizer mudar. Emma eu deixei uma casa para você cuidar...
— Acontece que a casa era alugada e você nem se quer ligou para saber como eu estava me virando. Se pelo menos eu havia virado uma p********a e ...
— Não...
— Estou brincando mãe. - Reviro os olhos.
— Quero te ver. Onde está?
— Willisburgo.
— Emma vem embora, sai desse lugar agora mesmo. Está me ouvindo? Aí pode ser perigoso e...
— E?
— Long está me chamando. Mais tarde eu te ligo.
Desligo o telefone e antes de pensar em chorar ouço um choro alto. Pego minhas coisas e vencida pela curiosidade rumo ao desconhecido.
— A vida é uma d***a não? - Sento do lado dele no chão.
O desconhecido está com a cabeça escondida entre as pernas, os fios loiros caindo para frente. Ele para de chorar assustado e levanta a cabeça, e por Deus. Ele olha na minha direção.
— Você? - Falamos ao mesmo tempo.
— O Que faz aqui? – Ele limpa as lágrimas na manga da blusa.
Vasculho minha mente em busca de uma desculpa, não que eu tenha dificuldade em dizer o real motivo. Só que eu fico sem graça de falar que vim atrás de um cara que m*l conheço, e me sinto muito culpada por tudo. Então entre mentir e ser sincera, descido ser sincera.
— Acho que dancei com o cara que foi atropelado. – Dou de ombros. — Mas não me deixaram entrar.
— Não sabia que você o conhecia? – Ele fica meio estranho, vermelho. Eu juro que até ouvi os dentes dele trincando.
— Dancei com ele na festa, logo depois foi atropelado. Me senti em partes culpada. – Mexo as pernas sem parar.
Eu tenho uns "tiques nervosos". Minha mãe nunca prestou atenção, só o Long. Ele dizia que minhas pernas tremiam quando eu estava nervosa, e quando algo me deixava sem graça eu mexo os dedos sem parar. Enquanto for só o meu não tenho que me preocupar em parar.
— E você? Porque está aqui? – Paro de mexer as pernas.
Ele levanta a cabeça e olha para o teto. Esse simples ato me trás a fragrância dele, rapidamente sinto uma coisa estranha em mim. Quando ele me encara eu viro o rosto.
— Curiosa você. – Ele funga antes de rir, e por Deus quero me enfiar em algum lugar.
— Falou o cara que sabe o meu motivo antes de qualquer um. – Me levanto. — Não importa. Espero que algum dia reconheça que a vida é feita de momentos, e ficar sentado dentro de um hospital não é o melhor deles.
— O que me sugere ? – Anthony levanta também.
— Sair por essas portas. A vida é curta de mais Conde. – Me Afasto dele.
— Não me chame disso. Sou muito novo. – Ele fica tenso.
— Eu sei. – Pisco para ele. Novo e bonito.
Anthony não sabe o quanto me sinto desconfortável na frente dele. Me Afasto mexendo a mão sem parar. Meu coração anda tão i****a.
— Ainda quer vê-lo? – Ele vem atrás de mim. — Posso dar um jeito.
— Tudo bem. – Respondo.
— Me segue...