Já passavam das seis e eu estava atrasada para ir à faculdade, mas não podia sair antes de Dona Marlene retornar. Ela odiava quando a recepção ficava vazia. Por isso, quando ela abriu a porta, levantei rapidamente e guardei o telefone na bolsa, enquanto esclarecia que ninguém havia aparecido ou ligado durante a ausência dela.
― Juliana, deixe sua bolsa e venha aqui, por favor.
Só então virei a cabeça e percebi que, apesar de ter saído da sala e fechado a porta atrás de si, ela permanecia parada segurando a maçaneta.
― Está tudo bem, Dona Marlene?
― Venha! O sr. Luciano deseja falar com você.
A forma como ela falou forçosamente calma me apavorou. Ele nunca me chamou. Ai meu Deus, será que ia ser demitida?
Respirei fundo, deixei a bolsa sobre a mesa e fui encarar o meu destino fatídico. A cada passo que dava em direção ao meu carrasco, questionava a mim mesma o que de tão errado eu teria feito, para ser penalizada daquele jeito.
― Com licença, sr. Luciano! ― falei tentando não tremer a voz.
Parei próximo a mesa dele, que levantou a cabeça e ficou me analisando. Seu rosto estava sério e indecifrável. Engraçado que mesmo depois de horas de trabalho ele parecia impecável. Como pode isso?
― A senhorita está a par do Contrato com a CZA?
― Sim senhor — menti. Eram tantos os contratos que passavam por nossa mesa. Como eu iria me lembrar de um específico?
Ele fechou o documento que estava folheando, colocou na frente da mesa e prosseguiu.
― Ótimo! Verifique os apontamentos que fiz no aditivo. Estude-o. Quero que a senhorita me acompanhe na reunião de amanhã. Obrigado, isso é tudo.
Olho para ele atônita. Diante do meu estado de petrificação, Dona Marlene pega os documentos sobre a mesa, assim como o aditivo da CZA e me abraça pelo ombro me conduzindo para fora da sala.
― Como assim? ― pergunto a ela assim que saímos.
― Deus escreve certo por linhas tortas, minha querida. Quem sabe não é a oportunidade que você precisa para ingressar na carreira jurídica? ― ela diz para me confortar.
Peguei minha bolsa e sai, encontrando Renata na entrada do edifício.
― Tá tudo bem, Juliana? ― acho que ela percebeu que eu estava atordoada.
― Tá. Tá, sim.
― Quer carona para faculdade?
― Ah, claro!
― Que houve com você, hein? O que Dona Roseli fez dessa vez? ― ela chamava dona Marlene de Dona Roseli, por causa de uma personagem de novela que vivia se gabando de ser muito eficiente.
― Nada. Tá tudo bem. Só estou cansada ― sorrio sem vontade tentando disfarçar minha angústia.
― Sabe o que eu acho? Que você está precisando beijar na boca ― olho para ela indignada.
― E quem disse que eu não tenho beijado na boca?
― Ah, fala sério, gata, você sabe do que eu estou falando. Você está precisando que alguém te jogue na parede e te chame de lagartixa ― ri com a comparação ― como estava o Todo Poderoso hoje?
― Como sempre. Gelado!
― Eu não sei como você aguenta trabalhar para um homem daqueles e não dar um molinho. Você devia incorporar a Dora, entrar naquela sala e dizer: Eu adoro um homem brabo! ― eu não aguento e me acabo de rir só de me imaginar vestida igual a Denise Fraga no filme Auto da Compadecida, sacudindo os ombros para o meu chefe.
Renata é muito doida!
― Você é doida! Você nunca ouviu o ditado: onde se ganha o pão não se come a carne? ― ela faz cara de desdém. Só Renata mesmo para me animar depois do susto que levei agora a noite.
Ela para na porta da faculdade e eu desço do carro. Mas antes de partir, ela diz:
― Se ele é o homem de gelo, eu não me importaria de ser a Elsa… ― eu fico rindo.