II - JULIANA

662 Words
Já passavam das seis e eu estava atrasada para ir à faculdade, mas não podia sair antes de Dona Marlene retornar. Ela odiava quando a recepção ficava vazia. Por isso, quando ela abriu a porta, levantei rapidamente e guardei o telefone na bolsa, enquanto esclarecia que ninguém havia aparecido ou ligado durante a ausência dela. ― Juliana, deixe sua bolsa e venha aqui, por favor. Só então virei a cabeça e percebi que, apesar de ter saído da sala e fechado a porta atrás de si, ela permanecia parada segurando a maçaneta. ― Está tudo bem, Dona Marlene? ― Venha! O sr. Luciano deseja falar com você. A forma como ela falou forçosamente calma me apavorou. Ele nunca me chamou. Ai meu Deus, será que ia ser demitida? Respirei fundo, deixei a bolsa sobre a mesa e fui encarar o meu destino fatídico. A cada passo que dava em direção ao meu carrasco, questionava a mim mesma o que de tão errado eu teria feito, para ser penalizada daquele jeito. ― Com licença, sr. Luciano! ― falei tentando não tremer a voz. Parei próximo a mesa dele, que levantou a cabeça e ficou me analisando. Seu rosto estava sério e indecifrável. Engraçado que mesmo depois de horas de trabalho ele parecia impecável. Como pode isso? ― A senhorita está a par do Contrato com a CZA? ― Sim senhor — menti. Eram tantos os contratos que passavam por nossa mesa. Como eu iria me lembrar de um específico? Ele fechou o documento que estava folheando, colocou na frente da mesa e prosseguiu. ― Ótimo! Verifique os apontamentos que fiz no aditivo. Estude-o. Quero que a senhorita me acompanhe na reunião de amanhã. Obrigado, isso é tudo. Olho para ele atônita. Diante do meu estado de petrificação, Dona Marlene pega os documentos sobre a mesa, assim como o aditivo da CZA e me abraça pelo ombro me conduzindo para fora da sala. ― Como assim? ― pergunto a ela assim que saímos. ― Deus escreve certo por linhas tortas, minha querida. Quem sabe não é a oportunidade que você precisa para ingressar na carreira jurídica? ― ela diz para me confortar. Peguei minha bolsa e sai, encontrando Renata na entrada do edifício. ― Tá tudo bem, Juliana? ― acho que ela percebeu que eu estava atordoada. ― Tá. Tá, sim. ― Quer carona para faculdade? ― Ah, claro! ― Que houve com você, hein? O que Dona Roseli fez dessa vez? ― ela chamava dona Marlene de Dona Roseli, por causa de uma personagem de novela que vivia se gabando de ser muito eficiente. ― Nada. Tá tudo bem. Só estou cansada ― sorrio sem vontade tentando disfarçar minha angústia. ― Sabe o que eu acho? Que você está precisando beijar na boca ― olho para ela indignada. ― E quem disse que eu não tenho beijado na boca? ― Ah, fala sério, gata, você sabe do que eu estou falando. Você está precisando que alguém te jogue na parede e te chame de lagartixa ― ri com a comparação ― como estava o Todo Poderoso hoje? ― Como sempre. Gelado! ― Eu não sei como você aguenta trabalhar para um homem daqueles e não dar um molinho. Você devia incorporar a Dora, entrar naquela sala e dizer: Eu adoro um homem brabo! ― eu não aguento e me acabo de rir só de me imaginar vestida igual a Denise Fraga no filme Auto da Compadecida, sacudindo os ombros para o meu chefe. Renata é muito doida! ― Você é doida! Você nunca ouviu o ditado: onde se ganha o pão não se come a carne? ― ela faz cara de desdém. Só Renata mesmo para me animar depois do susto que levei agora a noite. Ela para na porta da faculdade e eu desço do carro. Mas antes de partir, ela diz: ― Se ele é o homem de gelo, eu não me importaria de ser a Elsa… ― eu fico rindo.
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