Estava começando a escurecer quando chegamos no Manolo's. Era um barzinhoestaurante muito elegante. Eu estava muito constrangida com aquela situação. De uma hora para outra, eu passava de secretária invisível para aquela que saia para beber com o Todo Poderoso e, ao que tudo indicava, com o irmão dele.
O bar ficava na cobertura de um edifício comercial, por isso seu público era mais seleto. O maître cumprimentou o sr. Luciano com i********e, fazendo com que eu pudesse presumir que ele era frequentador assíduo do espaço. Fomos conduzidos para uma mesa próxima a sacada, cuja vista da lagoa era privilegiada. Eu estava extasiada.
― Um whisky para mim e um para meu irmão, quando ele chegar. A senhorita bebe o que?
― Hã? Ah, um suco de pêssego, por favor. ― ele ergueu as sobrancelhas e disparou:
― Se não for religiosa, estiver pagando promessa ou tiver alergia, esse brinde deve ser com álcool, senhorita! ― falou tão sério que achei que fosse verdade. Na sequência, ele riu para descontrair ― Depois você pede o suco.
Se não pode com eles, junte-se a eles, não é o que dizem? Que m*l me faria um drink?
― Então, uma margarita e uma água. ― ele riu novamente ― Eu preciso me hidratar! ― explico rindo.
― Agora me conte, de onde a senhorita tirou aquela informação?
― Segredo profissional ― faço uma cara de mistério ― Privilégios de quem passa muito tempo aguardando para ser atendida pelo dentista ― ele parece entender, porque ri frouxo.
― Você usou a informação de uma revista de fofoca? ― continua rindo e eu balanço a cabeça confirmando.
O garçom chega com nossas bebidas!
― Brindemos às suas esperas na recepção do dentista!
Quem é esse homem e onde ele escondeu o meu chefe assustador? Tô chocada!
― Por que você não está no jurídico, Juliana? Posso te chamar de Juliana?
― Humrum ― tomo um gole da bebida azul e tento fingir demência, mas ele continua me olhando aguardando a resposta ― Ainda não me senti pronta ― menti.
― Quantos períodos faltam para você concluir o curso?
Eu já tinha respondido isso, mas quem sou eu para chamar a atenção do meu chefe, ainda mais agora que ele tinha guardado o lado ranzinza dele?
― Um semestre e meio, na verdade ― ele me olha buscando mais informação.
― Temos um plano de carreira, mas tenho certeza que você sabe disso. Se a questão era de segurança, garanto que você está pronta para atuar profissionalmente e, se você quiser, pode iniciar o estágio na segunda ― ele insiste, me forçando a ser direta.
― Eu agradeço mais uma vez a oportunidade, mas entendo que ainda não seja a hora ― minha fala parece deixá-lo ainda mais intrigado.
― Luciano...
Uma voz masculina nos interrompe e eu olho em direção ao emissor. Minha mãezinha do céu... Tinha um homem com a cara do Adam Demos abraçando o meu chefe.
― Matheus, essa é Juliana! ― ele estende a mão para mim e eu acho que fiquei tão embasbacada que ele ri da minha cara de palerma. Eu desperto e pego na mão dele para cumprimentá-lo de volta.
Que genética maravilhosa tinha essa família. Os dois tinham mais ou menos a mesma altura, meu chefe era moreno e o irmão loiro. Meu chefe tinha um semblante mais sério e um olhar misterioso, o irmão era informal, com um sorriso descontraído. Alguém, por favor, registre esse momento, porque se eu contar ninguém vai acreditar.
Quando eles se sentaram, eu senti o joelho do sr. Luciano encostar no meu. Na mesma hora um frio subiu pela espinha. Cruzei as pernas delicadamente e as virei para o outro lado. Arrumei a postura e mantive o distanciamento. Precisava demonstrar indiferença. Eles podem ser lindos, ricos e poderosos, mas isso para mim cheira a problema, frustração e desemprego. E eu não preciso de nada disso no momento.
― E então, como foi? ― Matheus pergunta e o Todo Poderoso começa a contar os fatos principais da reunião e finaliza mencionando minha colaboração, como se fosse o ponto alto do dia, fazendo Matheus sorrir para mim com admiração.
― Precisamos brindar a isso.
― Nós acabamos de brindar. ― eu disse divertidamente, balançando meu copo vazio.
― Mas eu não brindei ainda! ― ele pisca para mim e pega o copo de whisky que eu nem vi a hora que chegou. Encho meu copo de água, pois acabei a margarita, tentando fugir do interrogatório do meu chefe.
― Brinde é com álcool, Juliana. Já falamos sobre isso. Outra blue margarita, por favor ― meu chefe pede a um garçom.
― Sério? ― reclamo ― Prefiro ir devagar. ― forço um sorriso, mas a bebida não demora a chegar.
― Brindemos à sua sagacidade, Juliana! ― Matheus puxa o brinde ― e eu sinto minha autoestima se recuperando.
Matheus começa a contar vários casos engraçados, inclusive a tentativa frustrada de ficar com uma mulher. Eu não resisto e me acabo de rir. Não sei se foi o efeito do álcool (com certeza foi) e os presenteio com minha opinião sobre o comportamento machista de certos homens, terminando mencionando o incidente na saída CZA.
― Quem foi? ― Matheus pergunta.
― O Jonas ― o sr. Luciano responde.
― Mas o Jonas é muito reservado. Você deve ter causado um grande impacto sobre ele. ― o irmão do meu chefe conclui e faz cara de impressionado.
Esses executivos são todos uns safados, não podem ver uma novidade que querem experimentar. Eu quero é distância! Eles levantam as sobrancelhas e começam a rir.
Será que eu falei isso em voz alta?
― Você é uma figura, Juliana! ― disse a versão de Adam Demos na minha frente. Bebi água, ri sem graça e pedi licença. Precisava ir ao banheiro verificar minhas feições diante daquilo que eu ainda considerava sobriedade.
Jesus! Sem sombra de dúvidas eu estava ficando bêbada e se eu acordasse na cama de um daqueles dois, eu mesma me mataria. Lavo o rosto e recomponho. Depois, vou ao bar e peço dois cafés expressos. De onde eu estou, não consigo ver a mesa, logo eles também não podem me ver.
Tomo os dois sem açúcar e peço para eles enviarem um refrigerante para a mesa que estou. Chego praticamente junto com o garçom.
Eles haviam pedido algo para petiscar. Fico feliz porque auxiliaria muito no processo de recuperação da minha sobriedade.
― O smoking ficou bom, mas ainda não sei se vou ao casamento.
― Ainda não conseguiu ninguém para lhe acompanhar?
Meu chefe balançou a cabeça negativamente e deu um gole no whisky. Eu aproveitei que a conversa era privada, para me concentrar em comer e beber refrigerante e água.
― Alice não vai lhe perdoar. Capaz de Dona Melissa te deserdar. ― meu chefe ria do exagero do irmão.
― Você perdoaria seu irmão se ele faltasse ao seu casamento, Juliana? ― olho para eles e penso na minha posição dentro daquele contexto.
― Eu acho que não me cabe opinar. Além disso, penso que minha opinião não seja relevante para a solução do caso.
― Uau! Temos uma advogada. ― o sr. Luciano ri do comentário do irmão.
― Há quanto tempo você trabalha lá na empresa, Juliana? ― Matheus segue se dirigindo a mim.
Será que alguém pode me explicar o que aconteceu que o foco da conversa voltou para mim?
― Dois anos, sendo seis meses na diretoria. ― bebo mais refrigerante e sinto a plenitude de minhas faculdades mentais se recuperando.
― Então tenho certeza que você pode nos ajudar nesta tarefa. O casamento de Alice é em duas semanas e o Luciano precisa levar alguém para se passar por namorada dele, sob o risco de perdemos um grande investidor.
Que conversa sem pé nem cabeça. Ele percebe minha falta de compreensão e esclarece.
― Temos um parceiro comercial, que tem uma filha mimada e está disposta a arriscar a saúde financeira do grupo, para levar Luciano para o altar. Agora me ajude a pensar em alguém que ele poderia levar.
Olho para o sr. Luciano e sei que ele poderia escolher qualquer das acompanhantes que ele saiu nos últimos tempos.
― Algum problema em conseguir uma namorada?
― Você quer dizer, uma daquelas modelos? ― Matheus rebate ― Lógico que não! Precisamos de uma moça de família. Alguém que seja leal e ao mesmo tempo compreenda a delicadeza da questão. Não dá para confiar em uma caçadora de executivos.
― Você está sendo muito preconceituoso, Matheus! Independente da vida e da escolha profissional dessas moças, elas têm sentimentos e não deveriam ser vistas como objetos descartáveis ― falei com calma e seriedade.
― Perdoe, não está mais aqui quem falou. ― ele levanta as duas mãos se rendendo.
― Entenda, Juliana! ― o sr. Luciano intervém ― A questão é exatamente essa. Elas têm sentimentos, são carentes e se apegam fácil. Não pretendo trocar seis por meia dúzia. Preciso de alguém que reúna condições para fingir ser minha namorada, mas compreenda que aquilo é um trabalho, é um relacionamento para inglês ver. Além disso, eu teria um problema muito maior se eu levasse uma acompanhante profissional para o casamento da minha irmã. Resumo da história, estou sem saída. Vou providenciar um presente que compense minha ausência. ― ele faz uma cara de derrotado.
― Por que o senhor não convida a Dra. Leda? ― digo, tentando ajudar.
― Porque ela não é muito simpática, se é que me entende.
Apesar de linda, eu também achava que a arrogância dela acabava com todos os seus predicados.
― Acho que Dona Marlene tem uma filha, não tem? ― continuo tentando.
― Que podia ser minha irmã mais velha. ― meu chefe ri. Então, tento pensar em alguém do meio deles.
― Podia ser você, Juliana. ― Matheus me mede de cima até embaixo e eu engasgo na minha própria saliva ― Eu acho que sim. O que você acha irmão?
O sr. Luciano me encara com curiosidade e eu logo recupero o fôlego.
― De jeito nenhum! Eu tenho grande dificuldade em mentir. Não tenho boa memória para isso. Vou me contradizer e estragar o plano de vocês. Além disso, não teria o menor cabimento. Em que pese trabalharmos juntos na diretoria, não temos a menor i********e. Não. De jeito algum!
Falo me atropelando nas palavras. Quem mandou eu ficar sóbria? Pego a marguerita e dou um gole grande.
― Acho que Matheus tem razão, Juliana! Você poderia me ajudar nisso... ― balanço a cabeça negando.
― Você mesmo disse que não gostava de executivos. ― Matheus joga minhas palavras contra mim. Eu pensei alto mesmo. m***a! ― Você não tem i********e, mas conhece todas as rotinas do meu irmão, o que atende bem ao caso. E depois vocês podem fazer um contrato e colocar tudo detalhado de forma bastante profissional.
― Não… Eu não posso faltar ao trabalho e tem a faculdade e…eu prometo encontrar alguém à altura do senhor.
A faculdade! Olho as horas e percebo que lá se foi mais um dia sem aula.
― Nós já achamos alguém à altura, Juliana. Não seja boba! ― Matheus diz rindo.
― O trabalho e a faculdade são problemas solúveis. E eu ficaria eternamente grato se você pudesse me ajudar a sair dessa encruzilhada. ― ele me olha com cara de cachorro abandonado e eu me sinto encurralada. Tomo outro gole grande da marguerita.
― Sr. Luciano, eu não tenho o intuito de desapontá-lo ou lhe deixar em situação difícil, mas o senhor precisa compreender que vivemos realidades diferentes. Eu sequer posso me dar ao luxo de estagiar na sua empresa, porque o salário de estagiário não paga nem metade das minhas despesas. Não tenho a menor condição de frequentar seu meio social sem vender drogas na esquina.
Falo tão rápido, que quando percebo o tamanho da barbaridade que falei, abaixo a cabeça e ponho as duas mãos na face massageando minhas têmporas. Ele toca minha mão e a puxa para ele, fazendo com que eu o olhasse ainda mais constrangida.
― Juliana, pensei nessa possibilidade, mas não quis que você me interpretasse m*l. Vamos tratar isso no campo profissional, certo? ― ele solta minha mão e eu a recolho rapidamente.
― Se você me prestasse um serviço jurídico, eu pagaria por este serviço, certo? Se eu a enviasse para realizar um trabalho fora da empresa, eu pagaria suas despesas de viagem, não é mesmo? Então, pensemos que você estará atuando como minha assistente pessoal e será remunerada por isso e por todas as despesas necessárias para o bom exercício da sua atividade.
Percebo que o clima ficou pesado na mesa. Eu precisava achar uma saída digna para mim. Eu respiro fundo e fecho os olhos, pensando em como eu vou sair dessa roubada.
― Eu aceito com uma condição.
― Qual seria?
― Não haverá troca de fluidos entre os contratantes. Quero uma cláusula penal pesada aqui.
Matheus gargalha. ― Ela é boa!
― Fechado! ― ele nem titubeia ― Agora vamos brindar a isso ― diz enquanto chama o garçom.
― Outra rodada? ― o rapaz pergunta.
― Eu vou ficar com um Chopp, dessa vez ― digo derrotada. Os irmãos olham para mim e o sr. Luciano finaliza: ― Chopp para todos nós, então.
Que Deus me proteja! Levanto a cabeça e percebo Matheus olhando algo por cima do meu ombro e presumo que seja para uma das três mulheres no bar.
O garçom põe três tulipas na mesa. Pego uma e levanto.
― Ao casamento de Alice! ― eles riem e brindamos. Bebo um gole, coloco minha bolsa no ombro e me levanto, assustando os dois.
― Senhores, foi muito bom estar com vocês, mas está tarde. Sabe como é a vida de uma operária, né? ― rio sozinha ― Além disso, eu tenho um chefe muito bravo. Não posso me dar ao luxo de irritá-lo ― digo fazendo uma careta exagerada e eles ficam rindo.
― Eu vou pedir ao Tomás para deixá-la em casa, Juliana.
― Não precisa, vou pedir um carro de aplicativo.
― É o mínimo que posso fazer por você.
― Está bem! Obrigada, sr. Luciano! Divirtam-se, Senhores ― faço uma reverência, fazendo eles rirem novamente.
― Boa Noite, Juliana! ― eles dizem juntos.
Saio agradecendo ao resto de sanidade que me restava por não ter feito nenhuma besteira. Quer dizer, eu tinha feito um pacto com Rumpelstiltskin. E mesmo sem ter assinado o tal contrato, eu já tinha dado minha palavra.
Eu precisava dar um jeito de me blindar, porque eu iria me jogar do precipício e lá embaixo m*l teria um colchonete para amortecer.