Confesso que me surpreendi com a sagacidade da moça. Talvez até a promovesse a minha assistente. Sagaz e brava, devo lembrar. Quase morde o Jonas quando percebeu que aquilo era uma cantada. Tive vontade de rir, mas não podia. Eu ainda precisava dela.
Quando entramos no carro, Tomás já sabia qual era o destino. Ela não!
― Desculpe se me fiz entender errado no elevador ― reforcei a desculpa para iniciar uma conversa.
― Eu é quem devo pedir desculpas por interpretar errado sua fala. Agradeço mais uma vez pela oportunidade.
Não respondi ao comentário, buscando manter o profissionalismo ― Fiquei realmente impressionado com sua habilidade. Não é toda secretária que sabe lidar com contratos ― armei o bote.
― Eu estudo direito, estou no nono período ― ela sorri orgulhosa e eu, mais ainda com o meu talento.
― Sério? ― finjo surpresa ― Você deveria tentar uma vaga no jurídico ― ela sorri e olha pela janela do carro e se cala. Que garota difícil!
― É sua primeira reunião fora do escritório? ― tento outra abordagem.
― Sim, senhor ― ela volta a olhar para mim sorrindo.
― Acho que isso merece uma comemoração ― observo disfarçadamente a cara de espanto que ela faz, quando peço ao Tomás para nos levar para o Manolo's. Ele me olha pelo o retrovisor como quem diz: por acaso o senhor achou que eu estava indo para onde?
― Tudo bem para você? ― ela olha para o relógio e eu nem deixo ela responder.
― Só um brinde, depois o Tomás te leva aonde você precisar ir. Não é todo dia que fazemos um tubarão engolir a própria cauda, não é mesmo? ― ela sorri e assente com a cabeça.
Pego o celular e ligo para o escritório.
― Dona Marlene, não voltarei hoje. Algum recado para mim?
― O senhor conhece uma senhorita chamada Bruna Laís Teixeira?
― De nome não. Ela representa quem, Dona Marlene?
― Não acredito que ela lhe conheça na esfera profissional, Sr. Luciano. Já recebi inúmeras ligações desta moça hoje, e ela fez questão de mencionar coisas que eu preferia não repetir.
― Sim, Dona Marlene ― lembro-me da moça que conheci ontem ― Eu não tenho interesse em dar continuidade a este contrato ― disfarço ― A senhora pode providenciar o termo de rescisão e pagar as multas que se fizerem necessárias para resolver isso logo ― olho para Juliana e ela parece distraída com a paisagem ― Mais alguma coisa, Dona Marlene?
― Diante da sua fala, imagino que o senhor não irá à reunião com ela no mesmo local de ontem.
― Com certeza não! Obrigada por me manter informado. Tenha um bom final de semana, Dona Marlene!
― Desejo o mesmo para o senhor.
Encerro a ligação. Ligo para Matheus e desligo no segundo toque.
Na sequência ele retorna.
― Oi, Matheus!
― Diga, foi você quem me ligou, irmão.
― Claro, pode falar ― ignoro e finjo que ele é ele que está querendo falar comigo.
― Não entendi.
― Sim, peguei ele. Aliás, pegamos. ― digo e sorrio olhando para ela, que sorri constrangida de volta.
― Tá tudo bem com você, irmão? ― ele continuava sem entender o que estava acontecendo.
― Claro, te conto tudo. Me encontra no Manolo's? Estou indo para lá agora ― então, ele ri.
― Entendi. Posso levar alguém?
― Não, não. Ele recuou. Você vai entender quando eu explicar pessoalmente.
― Ok, chego em 30 minutos.