VII - LUCIANO

585 Words
Confesso que me surpreendi com a sagacidade da moça. Talvez até a promovesse a minha assistente. Sagaz e brava, devo lembrar. Quase morde o Jonas quando percebeu que aquilo era uma cantada. Tive vontade de rir, mas não podia. Eu ainda precisava dela.  Quando entramos no carro, Tomás já sabia qual era o destino. Ela não!  ― Desculpe se me fiz entender errado no elevador ― reforcei a desculpa para iniciar uma conversa.  ― Eu é quem devo pedir desculpas por interpretar errado sua fala. Agradeço mais uma vez pela oportunidade.  Não respondi ao comentário, buscando manter o profissionalismo ― Fiquei realmente impressionado com sua habilidade. Não é toda secretária que sabe lidar com contratos ― armei o bote. ― Eu estudo direito, estou no nono período ― ela sorri orgulhosa e eu, mais ainda com o meu talento.  ― Sério? ― finjo surpresa ― Você deveria tentar uma vaga no jurídico ― ela sorri e olha pela janela do carro e se cala. Que garota difícil!  ― É sua primeira reunião fora do escritório? ― tento outra abordagem. ― Sim, senhor ― ela volta a olhar para mim sorrindo. ― Acho que isso merece uma comemoração ― observo disfarçadamente a cara de espanto que ela faz, quando peço ao Tomás para nos levar para o Manolo's. Ele me olha pelo o retrovisor como quem diz: por acaso o senhor achou que eu estava indo para onde? ― Tudo bem para você? ― ela olha para o relógio e eu nem deixo ela responder. ― Só um brinde, depois o Tomás te leva aonde você precisar ir. Não é todo dia que fazemos um tubarão engolir a própria cauda, não é mesmo? ― ela sorri e assente com a cabeça.  Pego o celular e ligo para o escritório.  ― Dona Marlene, não voltarei hoje. Algum recado para mim?  ― O senhor conhece uma senhorita chamada Bruna Laís Teixeira?  ― De nome não. Ela representa quem, Dona Marlene? ― Não acredito que ela lhe conheça na esfera profissional,  Sr. Luciano. Já recebi inúmeras ligações desta moça hoje, e ela fez questão de mencionar coisas que eu preferia não repetir.  ― Sim, Dona Marlene ― lembro-me da moça que conheci ontem ― Eu não tenho interesse em dar continuidade a este contrato ― disfarço ―  A senhora pode providenciar o termo de rescisão e pagar as multas que se fizerem necessárias para resolver isso logo ― olho para Juliana e ela parece distraída com a paisagem ― Mais alguma coisa, Dona Marlene? ― Diante da sua fala, imagino que o senhor não irá à reunião com ela no mesmo local de ontem.  ― Com certeza não! Obrigada por me manter informado. Tenha um bom final de semana, Dona Marlene! ― Desejo o mesmo para o senhor. Encerro a ligação. Ligo para Matheus e desligo no segundo toque.  Na sequência ele retorna. ― Oi, Matheus! ― Diga, foi você quem me ligou, irmão. ― Claro, pode falar ― ignoro e finjo que ele é ele que está querendo falar comigo. ― Não entendi.  ― Sim, peguei ele. Aliás, pegamos. ― digo e sorrio olhando para ela, que sorri constrangida de volta. ― Tá tudo bem com você, irmão? ― ele continuava sem entender o que estava acontecendo. ― Claro, te conto tudo. Me encontra no Manolo's? Estou indo para lá agora ― então, ele ri. ― Entendi. Posso levar alguém? ― Não, não. Ele recuou. Você vai entender quando eu explicar pessoalmente. ― Ok, chego em 30 minutos.
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