VI - JULIANA

1099 Words
Estava tão concentrada lendo o contrato que nem notei quando Dona Marlene voltou. Ela sorriu e pediu que eu fosse para casa e me preparasse para a reunião das 16h. Lógico que antes ela me passou verbalmente todo manual de comportamento da assistente eficiente. Entre ela e Dona Iracema, não sei quem é a mais neurótica por perfeição. Óbvio que corri para casa com a “pasta preciosa”. Seria muito mais fácil compreender tudo aquilo sem a pressão do trabalho. Antes das quinze horas eu entrava no Uber. Estava me sentindo linda, leve e poderosa com aquele vestido branco. Eu era a própria Jéssica Pearson, sem a altura e o dinheiro dela, claro! Graças ao trânsito caótico do Rio de Janeiro, levei meia hora entre Botafogo e o Centro, a cada minuto de atraso, minha confiança ia se esvaindo. Às 15:20, eu chegava no andar da diretoria. Dona Marlene só faltou me comer viva quando me viu. ― O que você está fazendo aqui, Juliana? ― ué, gente! Aonde mais ela queria que eu estivesse? Fiz cara de espanto ― Desça agora! O Sr. Luciano está a caminho e irá lhe pegar na frente do prédio e foi me empurrando para dentro do elevador. ― A propósito, você está ótima! Apesar do elogio, minha confiança agora era menor que um Hobbit. Fui para a frente do prédio apertando a pasta contra o peito, como se extraísse dali toda minha energia. Mal cheguei e uma Mercedes preta parou na minha frente. O motorista desceu e abriu a porta de trás. Lá estava o "Todo poderoso" falando ao telefone, enquanto fazia sinal para eu entrar. Agora não podia mais recuar. Seja o que Deus quiser! Pensei em me benzer, mas ia soar estranho. Entrei e fiz o sinal da cruz mentalmente, finalizando com o gesto final da mão, como se tivesse despachando alguém. Na mesma hora ele me olhou esquisito, deve ter pensando: que louca! Mas se voltou para a janela e seguiu a ligação ignorando minha presença. Em 10 minutos chegamos no prédio da sede da CZA. ― Tudo bem? ― ele me perguntou quando descemos do carro. Assenti com a cabeça. ― Fique tranquila. Preciso apenas que você verifique se os produtos do relatório cobrem o objeto do contrato, ok? ― Sim, senhor. ― A propósito, você está ótima! ― abaixei a cabeça para esconder a vergonha que senti na hora. ― Luciano, como está? ― na recepção, um rapaz, vestindo um terno que devia custar um mês do meu salário, abordava meu chefe. ― Ótimo, Jonas! Bom revê-lo! E você, como está? ― eles se cumprimentaram de forma fraternal. ― Muito bem! ― o rapaz respondeu e olhou para mim. ― Essa é Juliana, minha assistente ― o rapaz estendeu a mão, me cumprimentando cordialmente. Jonas nos conduziu até a sala de reunião enquanto conversava de forma trivial com o "Todo poderoso ", que parecia muito à vontade naquele lugar. Com a chegada do sr. Rabello, a reunião teve início. O clima de descontração acabou junto com a fase das amenidades da reunião. A CZA queria romper o contrato sem arcar com a multa e argumentava que não se tratava de rompimento, mas de alteração de contrato no ponto do fornecimento de uma família de produtos, que nós entendíamos ser de segunda linha, frise-se. Era disso que se tratava o aditivo. O sr. Rabello tentava convencer o meu chefe de que eles estavam passando por um momento financeiro delicado e que a proposta visava assegurar a manutenção do contrato com o Grupo Lauder. Uma raposa! Quando o senhor Luciano me passou o relatório, incorporei o papel de assessora jurídica, fingindo estar analisando o documento. Ao final do relatório, havia listas dos produtos destinados para cada hotel da rede, onde ao lado do nome do produto originalmente contratado, constava seu substituto. Observei que todos os produtos de higiene pessoal à base de amêndoas estavam sendo substituídos por e**a doce. Achei h******l, porque apesar de a e**a doce ser cheirosa, os produtos à base de amêndoa são muito mais hidratantes. Lembrei até da entrevista recente de uma influencer sobre um sabonete líquido de amêndoas que ela tinha experimentado em um hotel em Dubai. Não é o tipo de literatura que eu consumo, mas o que mais eu poderia fazer na sala de espera do dentista? Continuei observando a lista, enquanto os ânimos se acirravam. Para minha surpresa, havia sabonete líquido de amêndoa nas listas dos hotéis de luxo do Grupo Lauder e como se uma bolha tivesse sido estourada na minha cabeça, peguei o contrato na pasta e procurei o parágrafo que tratava de fraude contratual e seus efeitos. Tudo indicava que a CZA estava ampliando os negócios com o oriente, deixando meu chefe na mão. Coloquei o contrato na frente do sr. Luciano e apontei para o parágrafo 35. Mencionei o produto e o hotel citado pela tal influencer próximo ao ouvido dele. Ele sorriu para mim e eu sofri ao me afastar do cheiro dele. Que homem cheiroso era aquele? Nossa Senhora!!! Em menos de dez minutos ele desmontou a reunião, fazendo o sr. Rabello engolir o orgulho e se comprometer a cumprir o contrato na íntegra. Na saída, encontramos novamente o tal de Jonas, que fez questão de nos acompanhar até o elevador e aproveitou para se desculpar em nome da CZA, pois ficou sabendo do ocorrido. Na sequência, ele olhou para o sr. Luciano e depois para mim, como se buscasse descobrir algo que não havia sido dito. Depois sorriu, me estendeu um cartão. ― Quando se cansar de trabalhar para esse rabugento, me ligue. Se não cansar ― fez uma pausa e sorriu ― Me ligue para um café. O ódio subiu no coração, mas tentei fazer cara de indiferente, balançando a cabeça enquanto pegava o cartão por educação. Graças a Deus o elevador chegou e ele decidiu ficar ali mesmo. ― Parabéns! ― meu chefe disse enquanto discava no celular ― Tomás, estou saindo ― informou logo que foi atendido pelo motorista. Olhei para ele indignada. Parabéns por ser digna de uma cantada? Eu não tinha me esforçado tanto para ser o rostinho bonito ao lado do chefe. ― Parabéns pelo desempenho e obrigado pela ajuda ― ele concluiu com um sorriso contido. Acho que ele percebeu o motivo da minha cara f**a e tentou esclarecer o elogio quando o elevador abriu as portas. Dei uma respirada profunda para me acalmar. ― Eu agradeço a oportunidade ― tentei esboçar um sorriso. Afinal, ele não tinha culpa da falta de noção do colega.
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