Capítulo 01 – A Porta Bateu
Valentina
A primeira batida não foi forte. Foi certa.
Como se a mão do lado de fora soubesse que aqui dentro tudo já estava rachado e só faltava o empurrão final.
Eu congelei com o pano de prato na mão, olhando o café ralo no fogão como se ele fosse resposta pra alguma coisa. Minha mãe dormia largada no sofá, a boca meio aberta, o cabelo grudado na testa de suor e desespero. Dormir, no caso dela, era sempre um jeito do corpo desligar pra não sentir a própria vergonha.
A segunda batida veio.
Mais alta.
Mais impaciente.
E, antes que eu desse um passo, ouvi a voz:
— Valentina. Abre. A gente só quer conversar.
O ar fugiu do meu peito.
Ninguém chama a gente pelo nome quando quer “só conversar”. Chamam quando já sabem que você não tem pra onde correr.
Eu fui até a porta com as pernas moles, encostei o olho no buraco da fechadura. Dois homens no corredor estreito do prédio. Um deles com boné, o outro com uma jaqueta escura aberta demais pro calor do Rio. E tinha um terceiro mais atrás, encostado no batente da escada, quieto. O tipo de quietude que pesa.
A mão tremendo, eu destranquei só o trinco, deixando a corrente.
— Eu… eu não tenho nada. — minha voz saiu baixa, feia, como se eu estivesse pedindo desculpa por existir.
O do boné soltou um sorriso curto, sem humor.
— Não tem nada? A tua mãe tem, né? Tem vício. E vício custa caro.
Senti minha garganta arder.
— Eu consigo. Eu juro que consigo. Só preciso de mais um prazo. — eu falei rápido, atropelando as palavras. — Eu arrumei um trabalho, eu… eu vou dobrar turno, vou…
— Prazo acabou. — o da jaqueta cortou, frio. — Ela prometeu. Você sabe disso. Todo mundo promete quando tá tremendo de falta.
Por dentro, eu desmanchei.
O apartamento parecia menor do que ontem. O teto mais baixo. As paredes mais perto. Como se a própria casa estivesse tentando me engolir junto com a vergonha.
— Eu posso pagar em partes. — insisti, com a mão apertando a corrente como se fosse uma âncora. — Eu posso vender as coisas. A televisão, o micro-ondas… eu posso…
O homem quieto, o terceiro, se aproximou.
E quando ele chegou mais perto, eu vi os detalhes: uma cicatriz pequena perto da sobrancelha, uma calma absurda no olhar… e uma autoridade que não precisava de grito.
— Valentina, né? — ele repetiu, como se provasse o nome na boca.
Eu assenti.
— Você é a filha que segura essa casa com a unha. — ele disse, sem deboche. Isso foi pior. Porque parecia verdade. — E você acha que coragem muda conta.
Meu estômago revirou.
— Eu não tô pedindo favor. Eu tô pedindo tempo.
— Tempo é caro. — ele respondeu. — E o dono do tempo aqui não sou eu.
O nome veio como um arrepio que eu já tinha ouvido no bairro, em sussurros atravessando esquinas.
Gael.
Eu nunca tinha visto. Mas era como se a cidade inteira tivesse visto por mim. O dono do Morro do Alemão. O tipo de homem que vira lenda sem precisar aparecer.
Minhas pernas amoleceram mais.
— Eu… eu não tenho nada a ver com isso. — tentei. A frase soou patética assim que saiu.
O do boné soltou um riso seco.
— Todo mundo tem a ver quando a dívida tá no nome da família.
Lá dentro, minha mãe se mexeu no sofá, resmungou algo incompreensível. Eu prendi a respiração. Se ela acordasse agora, ia ser um show de desculpas, choro e promessas. E promessa, eu já tinha aprendido, era só outro jeito de mentir.
— Ela tá aí? — perguntou o da jaqueta, tentando espiar por cima do meu ombro.
Eu dei um passo pro lado, bloqueando a visão com o corpo.
— Tá dormindo.
O terceiro homem inclinou a cabeça, como se analisasse um quadro.
— Dormindo… ou apagada? — ele perguntou.
Eu mordi a parte de dentro da bochecha até sentir o gosto de sangue.
— Eu vou resolver. Eu vou. — repeti, quase sem voz. — Eu não vou deixar isso…
— Você já deixou. — ele interrompeu de novo, mas não foi c***l. Foi objetivo. — A pergunta agora é: você vai fazer isso do jeito fácil… ou vai fazer do jeito que o Gael decidiu?
O nome, de novo, fez minha pele arrepiar.
Eu engoli em seco.
— O que… o que ele decidiu?
O do boné se aproximou e encostou o dedo na corrente da porta, devagar, como se medisse minha coragem.
— Ele tá cansado de esperar tua mãe se endireitar. — disse. — E ele não gosta de cobrança repetida. Fica feio.
Feio.
Como se a vida da minha mãe fosse só um risco no relatório de alguém.
Eu senti uma raiva subir, quente, desesperada.
— Vocês não podem entrar aqui e…
— A gente não quer entrar. — o terceiro disse, tranquilo demais. — A gente quer resolver.
A palavra “resolver” foi dita como sentença.
Eu pensei no Marco.
Meu irmão.
Meu irmão que era polícia, que vivia longe por causa de plantão, que odiava quando eu dizia que tava tudo bem, que sempre me chamava de teimosa por aguentar nossa mãe sozinha.
Eu podia ligar pra ele. Podia pedir ajuda. Podia… podia…
Mas eu já conhecia a consequência dessa ligação: guerra.
E guerra, aqui, nunca ficava só no uniforme. Escorria pra dentro de casa. Pra dentro do corpo. Pra dentro da pele.
— Deixa eu ligar pra ele. — pedi, a voz quebrando. — Só… só um minuto.
O do boné abriu um sorriso mais largo, perigoso.
— Pro teu irmão? O policial?
Meu sangue gelou.
Eles sabiam.
Claro que sabiam.
O terceiro homem me olhou como se fosse a primeira vez que alguma coisa nele realmente se interessasse.
— Então é verdade. — ele murmurou. — Você é a Valentina… do Marco.
O corredor pareceu girar.
A corrente na minha mão ficou mais pesada.
E eu entendi, num estalo c***l, que não era só sobre dinheiro. Nunca foi.
Eu tentei manter a voz firme.
— Eu não sei do que você tá falando.
Ele se aproximou mais, e a presença dele encheu o espaço, sufocando.
— Você vai saber. — respondeu. — Porque hoje você vai encontrar o Gael.
Minhas pernas falharam por um segundo.
— Não. — eu sussurrei, como se negar mudasse algo.
O do boné deu um passo à frente, e a mão dele subiu rápido demais, prendendo a corrente com força.
— Não faz cena, princesa. — ele falou. — A porta já bateu. Agora… só falta você abrir.
Lá dentro, minha mãe se mexeu de novo, tossiu, como se o corpo dela sentisse o perigo e tentasse escapar.
Eu olhei pro sofá, pro fogão, pro teto manchado, pra vida inteira que eu tentei segurar com as mãos vazias.
E percebi que, naquela noite, eu não ia mais negociar.
Eu ia ser cobrada.
E o pior tipo de cobrança… era aquela que não se pagava com dinheiro.
A corrente rangeu.
E, do lado de fora, o homem quieto — o que falava em nome de Gael — disse baixinho, como aviso e ameaça ao mesmo tempo:
— Se você gritar, Valentina… ele vai achar que você tá desrespeitando.
Meu corpo inteiro virou pedra.
E eu abri a porta.