Capítulo 1

2493 Words
Manuela narrando Dizem que o destino é uma linha reta, mas a minha vida sempre foi um nó cego, apertado pelo abandono e afrouxado apenas pelo amor de quem não tinha obrigação nenhuma de me amar, eu nunca tive o luxo da simplicidade. Desde que abri os olhos para o mundo, a rejeição foi meu primeiro berço; fui abandonada pela minha mãe biológica como se fosse um fardo descartável. Mas Deus, em sua infinita misericórdia, olhou para aquela garotinha de quatro anos, perdida e assustada, e colocou a Renata no meu caminho. Ela não me deu apenas um teto; ela me deu um propósito, me deu amor, carinho e uma dignidade que eu nem sabia que existia, ela me tratava exatamente como tratava o Léo, seu filho de sangue. Durante anos, fomos carne e unha. O Léo era meu protetor, meu herói de infância. Eu me lembro dele voltando para casa com o uniforme da escola sujo e os nós dos dedos ralados porque tinha caído na porrada com quem ousava me zombar por ser adotada. Ele dizia que eu era o tesouro dele. Mas o castelo de cartas desmoronou quando o Jose, pai do Léo, deu as costas para nós o abandono transformou meu irmão, o brilho de proteção no olhar dele deu lugar às pupilas dilatadas e ao vazio das drogas, a mamãe, guerreira como poucas, se desdobrou, ela trabalhava como uma louca, emendando faxinas nas mansões do asfalto com limpezas pesadas aqui no morro, tudo para não deixar faltar um grão de feijão no nosso prato. Até que o corpo dela gritou "chega". O diagnóstico veio como uma sentença: ela estava gravemente doente e o trabalho braçal se tornou impossível, aos vinte anos, eu me tornei o pilar da casa, enquanto o Léo, hoje com vinte e dois, se afundava cada vez mais no vício, eu assumi as rédeas, hoje, minha vida é um ciclo interminável de cansaço, trabalho no asfalto, subo o morro, conto as moedas para pagar o aluguel, os remédios caríssimos da mamãe e, o que mais me dói, as dívidas de droga que o Léo acumula como se o dinheiro nascesse em árvore. Eu estava terminando uma diária pesada na mansão dos Albuquerque, minhas mãos estavam secas pelo produto de limpeza, mas o meu coração estava leve porque o pagamento tinha sido bom, eu já imaginava comprando o xarope novo da mamãe quando, no caminho para o ponto de ônibus, meu celular vibrou intensamente. Era a Viviane, minha melhor amiga. Atendi com um pressentimento r**m socando meu estômago. — Amiga! — A voz dela estava embargada, um misto de pânico e urgência. — O Léo... o seu irmão tá na mão do Satan agora, no meio da praça! Tua mãe viu o Polegar levando ele e passou muito m*l, tá quase desmaiada aqui! Senti o chão sumir sob meus pés, o nome "Satan" era um sussurro de morte no Santa Marta. — Como assim, Vivi? — gritei, ignorando os olhares dos ricaços que passavam por mim. — Ele fez merda novamente? Ele me prometeu que estava limpo! — Sim, amiga, o polegar veio aqui e arrastou ele como se fosse um bicho, o Satan descobriu a dívida de dez mil do seu irmão e você sabe... aquele homem é o d***o em pessoa, ele não deixa nada passar, Manuela. Nada! — Eu estou chegando, Vivi! Pelo amor de Deus, fica com a minha mãe. Não deixa ela sozinha! — Eu fico, amiga. Não se preocupa, não vou arredar o pé daqui. Mas corre, Manu... corre porque o clima na praça tá pesado! Desliguei o celular com as minhas mãos tremendo, eu precisava ser rápida, cada segundo que eu perdia naquele asfalto era um segundo a menos de vida para o Léo, eu sabia quem era o Satan, todos sabiam, ele não era apenas o dono do morro; ele era o dono das almas que viviam ali, um homem sem alma, sem piedade, que regia o crime com uma frieza que congelava o sangue de qualquer um. Chamei um carro por aplicativo, rezando para que algum motorista tivesse a coragem de me deixar na entrada da comunidade e graças a deus, um rapaz aceitou rápido. Durante o trajeto, eu só conseguia fechar os olhos e implorar para que o Léo ainda estivesse respirando. Assim que o carro parou na barreira, eu não esperei, saltei e comecei a subir as vielas correndo, ignorando a queimação nos meus pulmões, cheguei em casa tropeçando nos meus próprios pés. Lá dentro, o cenário era de guerra, minha mãe estava pálida, sentada no sofá velho, com a Viviane segurando suas mãos. O pranto dela era um som lancinante, de uma mãe que já estava de luto antes mesmo do corpo esfriar. — Manuela... minha filha... — ela soluçou, os olhos opacos pela doença e pelo sofrimento. — O Léo... ele vai morrer. Aquele homem vai matar o meu menino! Me ajoelhei na frente dela, tentando engolir meu próprio terror para ser a força que ela precisava. — Calma, mamãe. Eu estou aqui. — Beijei suas mãos suadas. — Eu vou resolver isso. Eu vou fazer o possível e o impossível para salvá-lo, eu prometo pela minha vida! Olhei para a Viviane, que tinha os olhos vermelhos. — Onde eles estão exatamente? — perguntei, a minha voz agora endurecida pela necessidade de agir. — Na praça central, Manu. O Satan desceu pra lá agora pouco. Ele quer fazer um exemplo do seu irmão na frente de todo mundo. Não esperei mais nada. Levantei-me e saí disparada. Cada degrau que eu subia parecia uma eternidade. O Santa Marta parecia silencioso, aquele silêncio de morte que precede o som de um disparo. Quando avistei a praça, meu coração quase saiu pela boca. Havia um círculo de pessoas mantendo uma distância segura, o medo pairando no ar, no centro de tudo, vi meu irmão, o Léo estava jogado no chão, humilhado, tremendo como uma folha ao vento. E acima dele, como uma divindade sombria, estava ele. Eu nunca o tinha visto de perto, mas não precisava de apresentações. O Satan era imponente, ele estava sem camisa, o corpo exposto como uma tela rabiscada por um artista insano e genial. Suas tatuagens... sua presença dominava o espaço com uma energia pesada e letal. Ele estava com a arma em punho, o cano de metal pressionado contra a testa do meu irmão, o clique da arma destravando ecoou na praça, soando para mim como o fim do mundo. O Léo fechou os olhos, entregue. — NÃO! POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO! — O grito saiu do fundo da minha alma, rasgando minha garganta. Eu não pensei nas consequências, eu não pensei que estava interrompendo o homem mais perigoso do Rio de Janeiro. Eu só corri. Satan virou o rosto devagar. No momento em que os olhos dele escuros, frios e carregados de uma violência silenciosa encontraram os meus, o tempo parou. Senti um calafrio percorrer minha espinha, mas não desviei o meu olhar. Eu estava ali pelo meu irmão, pela minha mãe. Ele me encarou com uma intensidade que me fez se sentir nua, mesmo estando vestida, era um olhar de predador, uma cobiça bruta que brilhou naquelas íris de fogo. Eu não sabia o que ele estava vendo em mim, mas senti, naquele exato segundo, que minha vida acabava de mudar de rumo. Eu tinha acabado de entrar na toca do lobo, e o preço para sair de lá com o Léo vivo poderia ser muito mais alto. — Abaixa essa arma... — pedi, minha voz agora falhando, mas os olhos fixos nos dele. — Por favor. Eu era apenas uma faxineira do morro, e ele era o rei do inferno. Mas ali, naquele silêncio mortal da praça, eu soube que ele não apertaria o gatilho. Não porque ele era bom, mas porque ele tinha acabado de encontrar um novo alvo. E esse alvo era eu. O ar na praça parecia ter sido sugado o silêncio era tão denso que eu conseguia ouvir o som da minha própria respiração, curta e desesperada. Satan não desviou o olhar de mim nem por um segundo. Ele se moveu ainda com a arma na mão, mas o foco agora era inteiramente eu. — Quem é você, garota, para chegar assim atrapalhando meus assuntos? — A voz dele vibrava no meu peito. — E agora fica muda? O gato comeu sua língua? Eu tentei falar, mas minha garganta parecia fechada por um nó de puro terror, a aura que emanava dele era opressora; ele exalava poder, perigo e um magnetismo obscuro que me deixava tonta. — Não! — consegui soltar, a minha voz saindo mais fina do que eu pretendia. — É que... é que eu vim te pedir para não matar ele! Satan inclinou a cabeça para o lado, um movimento lento e calculado. De repente, um sorriso c***l brincou no canto dos seus lábios, mas não era um sorriso de diversão. Era o sorriso de quem estava prestes a estraçalhar algo. — Ouviu essa, Polegar? — Ele riu, uma risada seca que não chegou aos olhos. — Ela veio pedir para eu não matar o drogado que me deve dez mil, a audácia dessa mina é de outro nível. — Senhor... — tomei coragem, dando um passo à frente, embora minhas pernas quisessem ceder. — O senhor tem certeza que esse valor está certo? Dez mil é muito alto... eu não acredito que ele iria conseguir gastar tanto, deve ter algum erro, ele não teria coragem de... Minha fala morreu antes que eu pudesse concluir o meu raciocínio. Em um borrão de movimento, Satan guardou a arma e avançou. Antes que eu pudesse reagir, senti seus dedos grandes e fortes se fecharem em volta do meu pescoço. Ele não apertou a ponto de me sufocar, mas a pressão era firme o suficiente para me paralisar. Ele me prensou contra o metal quente da sua moto, seu corpo maciço colado ao meu. O cheiro de perfume caro misturado com pólvora e fumaça me atingiu em cheio. — Tem coragem de me chamar de mentiroso na frente do meu morro? — Ele rosnou perto do meu ouvido, sua respiração quente batendo na minha pele e me causando arrepios de puro pavor. — O que eu devo fazer com você, hein? No meu mundo, quem questiona a minha palavra acaba com a boca cheia de formiga. Eu arregalei os meus olhos, minhas mãos agarrando os pulsos dele, tentando em vão afrouxar o aperto, meus pés m*l tocavam o chão. — Polegar! — Satan gritou, sem tirar os olhos dos meus, que agora brilhavam com uma luxúria perigosa que me fez tremer. — Quem é essa mina? Nunca vi essa circulando por aqui. Se tivesse visto, eu já teria pegado para mim. Polegar se aproximou, limpando o suor da testa, parecendo tão tenso quanto eu. — O nome dela é Manuela, irmão é a irmã do Cabeça. Trabalha no asfalto, vive na dela. É por isso que você nunca viu. Satan soltou um ruído baixo, uma mistura de surpresa e interesse. Ele afrouxou um pouco a mão, mas não me soltou. — Me solta... você está me machucando... — sussurrei, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos meus olhos e escorrendo pelo meu rosto. — Veio desafiar o dono da p***a toda pela vida de um noiado? — Ele ignorou meu pedido, o polegar dele agora pressionando meu lábio inferior, forçando minha boca a abrir levemente. — Você é muito corajosa ou muito burra, Manuela. — Eu só... eu só vim salvar meu irmão — respondi entre soluços. — Ele é tudo o que eu tenho. Por favor, eu trabalho, eu dou um jeito de pagar... Satan soltou uma risada sombria, seu corpo pressionando ainda mais o meu contra a moto. Eu sentia cada músculo dele, sentia a dureza por baixo da calça dele que denunciava o quanto aquela situação o estava excitando. — Como pretende fazer isso, boneca? — Ele perguntou, a sua voz agora num tom baixo e rouco que me deu calafrios. — Dez mil reais é muito dinheiro para uma faxineira. Você ia levar anos para juntar isso. E eu não sou homem de esperar. Eu quero meu pagamento agora. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelos meus soluços baixos. Eu não tinha resposta. Eu não tinha nada além do meu corpo e da minha dignidade. Foi então que a voz que eu mais amava no mundo, a voz pela qual eu estava disposta a morrer, cortou o ar de uma forma que eu jamais esperaria. O Léo, que estava encolhido e chorando no chão até agora, levantou a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos, injetados, e a expressão dele era de um desespero covarde que eu nunca tinha visto. — Chefe! — Léo gritou, as palavras saindo rápidas, atropeladas. — Chefe, ouve aqui! Você não precisa me matar. Você pode ficar com a minha irmã como pagamento! Olha bem para ela... olha como ela é bonita! O mundo pareceu girar, eu senti como se tivesse levado um tiro no peito, meu próprio irmão? O menino que eu protegi, por quem eu trabalhei até minhas mãos sangrarem? — Léo, o que você está dizendo? — murmurei, a voz falhando, o choque começando a entorpecer meus sentidos. Mas ele não parou. Ele viu uma chance de salvar a própria pele e não hesitou em me jogar aos leões. — Ela é virgem, Patrão! — Léo continuou, a voz subindo de tom, ignorando o meu olhar de horror. — Eu juro! Ela nunca deixou nenhum cara do asfalto e nem daqui tocar nela, ela é purinha, chefe. É o pagamento perfeito! Fica com ela, faz o que você quiser, mas limpa a minha dívida! O choque foi tão grande que minhas forças simplesmente sumiram. Senti meus joelhos dobrarem e, se não fosse pela mão de Satan ainda segurando meu pescoço e me mantendo em pé contra a moto, eu teria desabado no chão, olhei para o Léo, mas não reconheci o homem ali, o vício tinha comido o coração dele, transformando meu irmão em um monstro capaz de me vender como mercadoria. Senti o olhar de Satan mudar. Ele não estava mais apenas me cobiçando; ele agora me olhava como um dono olha para uma posse valiosa que acabou de adquirir. O sorriso que ele deu foi a coisa mais aterrorizante que já vi na vida. — Virgem, é? — Satan repetiu a palavra como se estivesse saboreando um banquete. Ele se inclinou, colando os lábios no meu ouvido, e sua voz saiu carregada de uma promessa sombria. — Parece que o seu irmão acaba de fechar o melhor negócio da vida dele, Manuela. E o pior pesadelo da sua. Eu estava destruída, o traidor não era o homem que me segurava pelo pescoço, mas o sangue que eu jurava que me tinha como irmã acabara de me entregar ao d***o.
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