Capítulo 3

1178 Words
Manuela narrando O caminho da praça até o nossa casa foi o trajeto mais longo da minha vida, cada passo que eu dava, carregando o corpo franzino e trêmulo da minha mãe, parecia que eu estava arrastando correntes de chumbo o morro, que sempre foi barulhento, parecia ter mergulhado em um silêncio de velório, os olhares dos vizinhos pesavam sobre nós alguns com pena, outros com aquele mórbido interesse de quem espera o próximo capítulo da desgraça alheia. — Ele vai matar o meu menino, Manuela... Ele vai matar o Léo — mamãe gemia, a sua voz saindo como um chiado sufocado. Ela m*l conseguia manter os pés no chão, e se não fosse por mim e pela Viviane ela teria desabado ali mesmo, no meio do esgoto a céu aberto. — Calma, tia Renata. A gente vai dar um jeito — Viviane tentava consolar, mas os olhos dela me buscavam com um terror que desmentia suas palavras. Ela sabia, tanto quanto eu, que no Santa Marta "dar um jeito" com o Satan significava apenas duas coisas: sangue ou uma dívida que a alma não pagava. Finalmente cruzamos o batente de casa, colocamos a mamãe na cama, e o som da respiração dela, cansada e doente, preenchia o quarto pequeno, eu fui até a cozinha, peguei um copo de água com açúcar, minhas mãos batendo contra o vidro, fazendo um barulho seco, eu estava em frangalhos, a imagem do cano da pistola de Satan na testa do meu irmão estava queimada na minha retina. — Você não vai, Manuela. Eu estou vendo no seu olhar — minha mãe disse, sentando-se com dificuldade, as lágrimas lavando o rosto vincado pelo sofrimento. — Não vai lá. Deixa ele... Deus que me perdoe, mas se for o destino do Léo pagar pelo que fez, que pague. Mas não você. Não a minha boneca. — Mãe, ele é seu filho! — respondi, a minha voz embargada. — Se ele morrer, a senhora morre junto. Eu conheço o seu coração. E eu não vou carregar dois caixões nas costas enquanto eu ainda estiver respirando. Viviane me puxou pelo braço até o canto da sala, falando baixo, a voz carregada de urgência. — Manu, escuta a sua mãe, pelo amor de Deus! Você não tem noção de quem é o Satan. Ele não é um bandidinho qualquer de esquina, ele é o d***o! Eu vejo como o Polegar fala dele. O cara não tem um pingo de remorso. Ele vai te usar, vai te quebrar e, quando cansar, vai te jogar no lixo ou passar pra outro. Você é virgem, garota! Você guardou isso a vida toda pra entregar pro dono do morro em troca de um viciado que não vale o que come? — Ele é meu irmão, Vivi! — gritei, perdendo o controle, o copo de água caindo e estraçalhando no chão. — O que você quer que eu faça? Que eu fique aqui sentada ouvindo o tiro que vai estourar os miolos dele? Que eu veja minha mãe ter um infarto aqui mesmo? O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelos soluços da mamãe no quarto eu olhei para as minhas mãos, mãos de faxineira. Mãos que limpavam a sujeira dos outros para comprar remédios, se a única coisa de valor que eu tinha era o meu corpo, então que ele servisse para alguma coisa além de sentir fome e cansaço. — Eu vou — disse firme, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Fica com ela, Vivi. Não deixa ela sair daqui. Saí de casa sem olhar para trás, ignorando os gritos desesperados da minha mãe me chamando, cada degrau que eu subia em direção à boca era uma parte de mim que morria, o ar ia ficando mais pesado, o cheiro de maconha e o som dos rádios dos vapores ficavam mais nítidos, eu me sentia como um cordeiro caminhando voluntariamente para o matadouro. O ar que eu respirava tinha um cheiro forte de maconha, misturado com o zumbido constante dos rádios dos vapores. Meus pés se moviam pesadamente em direção à contenção. De repente, um vapor apareceu, bloqueando meu caminho com um fuzil no peito. — Perdeu o rumo, gatinha? — ele perguntou, com um tom que me dava calafrios. Apertei minhas mãos com força, tentando controlar o tremor que me dominava. — O Satan... Ele está me esperando — consegui dizer, com a voz quase sumindo. O vapor trocou um olhar significativo com outro cara ali perto. O nome do chefe era como uma senha sagrada naquele lugar. — Mesmo? Qual é o seu nome? — Manuela — respondi, tentando manter a voz firme. O vapor mudou na hora, ficando sério, ele abriu passagem, me deixando passar. — Ele está lá em cima e um conselho: não o faça esperar. Apenas balancei a cabeça, sentindo o peso do fuzil em minhas costas enquanto subia, cada degrau me aproximando do meu destino. A cena na sala dele foi curta, bruta e definitiva, quando eu disse que aceitava, vi o brilho de triunfo nos olhos de Satan. Ele não ganhou apenas uma mulher; ele ganhou um troféu. Ele deu a ordem para soltar o Léo com a mesma frieza com que daria uma ordem de execução. Para ele. Agora, eu estava saindo daquela sala escura, sentindo o peso do olhar dele nas minhas costas como uma marca de ferro em brasa. Meus pés pareciam flutuar, mas não de leveza, e sim de vazio. Eu tinha acabado de assinar minha sentença, minha garganta parecia cheia de areia. Saí da boca quase correndo, o meu coração batendo na garganta. O sol já estava se pondo, tingindo o céu do morro de um vermelho sangue que parecia um presságio, eu tinha conseguido. O Léo estava vivo, mas, enquanto eu descia as vielas, sentia que a Manuela que subiu aquelas escadas horas antes não existia mais. O que sobrou foi apenas um depósito, uma propriedade do Satan. Ao chegar perto de casa, vi o Léo, ele estava sentado no meio-fio, com o rosto machucado e as mãos tremendo, mas vivo. Quando ele me viu, tentou levantar, o olhar carregado de uma culpa covarde. — Manu... eu... o Polegar me soltou. Ele disse que você resolveu... Eu não parei, não o abracei, não perguntei se ele estava bem. Apenas passei por ele como se fosse um estranho, um fantasma que me custou a alma. — Entra, Léo — disse seca, sem olhar nos olhos dele. — Entra e cuida da mamãe. Porque a partir de hoje, você não tem mais irmã. Você tem uma dona que pagou a sua vida com a dela. Entrei em casa e fechei a porta, encostando as costas na madeira compensada. Eu tinha algumas horas antes de o Satan reivindicar o que agora pertencia a ele, fui até o banheiro, liguei o chuveiro gelado e entrei de roupa e tudo, eu precisava lavar o toque invisível dele da minha pele, mesmo sabendo que, mais tarde, não haveria água no mundo capaz de me fazer sentir limpa novamente.
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